Nome do Projeto
Transição para a vida adulta e a prevalência do transtorno depressivo maior aos 30 anos na Coorte de Nascimentos de 1993 de Pelotas
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
13/01/2026 - 28/02/2027
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências da Saúde
Resumo
Os efeitos na saúde mental de diferentes trajetórias para a vida adulta permanecem desconhecidos no contexto brasileiro. Nas últimas décadas, transformações demográficas e socioeconômicas, como o adiamento da parentalidade e a diversificação dos arranjos familiares, tornaram esse período não apenas mais prolongado, mas também crescentemente heterogêneo e dependente do contexto sociocultural. Marcos antes cronologicamente ordenados – como a saída da casa dos pais e o nascimento do primeiro filho – hoje se apresentam em trajetórias variadas. Paralelamente, nesta faixa etária de intensas transformações, coincide o pico de incidência de transtornos mentais, especialmente da depressão. Notavelmente, entre 2013 e 2019, observou-se um crescimento acelerado da depressão entre os jovens, e o suicídio consolidou-se como a segunda principal causa de morte nessa faixa etária (18 a 29 anos) em 2019. Diante desse cenário, partindo do arcabouço teórico da Teoria do Curso de Vida (Elder, 1998), este projeto tem como objetivo descrever os padrões de transição para a vida adulta a partir do timing (temporalidade) e da ordem de ocorrência de marcadores sociodemográficos – saída da casa dos pais, início da parentalidade, primeira união/coabitação e entrada no mercado de trabalho – na Coorte de Nascimentos de Pelotas de 1993 e analisar sua associação com o diagnóstico de transtorno depressivo maior, aferido por meio de entrevista estruturada a partir do MINI, aos 30 anos. Trata-se de um estudo longitudinal de base populacional, cuja heterogeneidade da amostra permitirá ainda analisar a influência de fatores como gênero, raça/cor e nível socioeconômico. A análise será, primeiro, descritiva da idade de ocorrência de cada evento de transição e da frequência entre ordens de ocorrência dos marcos. Após, as associações com o transtorno depressivo serão avaliadas por meio de regressão de Poisson com variância robusta, em análises brutas e ajustadas para fatores sociodemográficos, estimando-se as razões de prevalência e os intervalos de confiança de 95%.

Objetivo Geral

Investigar a associação entre os padrões de transição para a vida adulta, definidos
pelo timing (temporalidade) e ordem sequencial dos marcos transicionais – avaliados
entre os 15 e 30 anos de idade –, e a prevalência de TDM aos 30 anos entre
participantes da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 1993.

Justificativa

A transição da adolescência para a vida adulta passou por profundas
transformações nas últimas décadas, caracterizando-se por trajetórias de vida cada
vez mais heterogêneas (Clark; Agnant, 2025; Santos; Queiroz; Verona, 2021).
Mudanças socioculturais e demográficas possibilitaram o adiamento de marcos
tradicionais, como o casamento e a parentalidade, e também a flexibilização dos
percursos de vida (Shanahan, 2000). Essas mudanças coexistem, contudo, com um
cenário alarmante: a escalada de transtornos mentais entre jovens de 18 a 29 anos.
Dados nacionais indicam um acréscimo de 51% na prevalência do transtorno
depressivo entre 2013 e 2019 nessa faixa etária, com aproximadamente 6% dos
jovens diagnosticados com o transtorno (IBGE, 2014, 2020). Neste contexto, uma
literatura crescente sugere que a saúde mental está intimamente ligada à
temporalidade e à ordem da ocorrência dos marcos típicos à idade.
Evidências no Norte Global associam transições precoces, tardias (Thomas,
2018; Wickrama; Merten; Elder, 2005) ou "desordenadas" (Amato; Kane, 2011;
Jackson, 2004) para a vida adulta a uma maior carga de sintomas depressivos.
Resultados em contextos análogos ao Brasil não apenas corroboram essa
associação, mas a aprofundam ao demonstrar que o efeito dessas trajetórias é
mediado por normas socioculturais locais e por marcadores de desigualdade, como
gênero, raça/cor e nível socioeconômico (Liu; Modrek; Sieverding, 2017; PekelUludağlı; Akbaş, 2019). Neste contexto, percebe-se que as normas etárias e as
sequências consideradas “ideais” para esses eventos variam substancialmente,
sendo profundamente influenciadas por estruturas sociais.
No entanto, esta discussão é notavelmente ausente no cenário acadêmico
nacional. Este projeto se propõe a ser o primeiro estudo brasileiro a investigar as
consequências na saúde mental entre diferentes trajetórias para a vida adulta entre
jovens, considerando a influência de fatores sociodemográficos. A quase totalidade
das evidências disponíveis deriva de contextos socioculturais e econômicos
radicalmente distintos, onde desigualdades estruturais históricas – como o racismo, o
patriarcalismo e a profunda inequidade socioeconômica (Chancel et al., 2025; IPEA et
al., 2011; Victora, 2016) assumem configurações específicas, moldando expectativas
e consequências de forma única (Galambos; Martínez, 2007).
De modo a preencher essa lacuna, este projeto utilizará dados da Coorte de
Nascimentos de 1993 de Pelotas, com a proposta de reconstruir a trajetória de eventos
entre os 15 e 30 anos dos participantes, a partir dos padrões de ocorrência dos marcos
de transição para a vida adulta, investigando sua associação com o diagnóstico do
TDM aos 30 anos. Esta investigação oferece outros avanços metodológicos
importantes: (1) a substituição da avaliação da sintomatologia depressiva pelo
diagnóstico clínico realizado por profissional; (2) a superação do viés de amostras
restritas (ex.: mulheres brancas de classe média) mediante o uso de uma coorte de
base populacional; e (3) a capacidade única de examinar, em uma amostra
heterogênea, se gênero/sexo, raça/cor e nível socioeconômico modificam essas
associações.
O estudo da ocorrência do TDM a partir dos padrões de ocorrência dos marcos
de transição nesse período pode elucidar grupos populacionais especialmente
vulneráveis. A juventude constitui um período crítico que define o acúmulo de capital
humano e financeiro ao longo da vida e o sofrimento mental nesta fase gera um duplo
prejuízo: individual, pelo adoecimento psíquico; e social, ao comprometer o potencial
desenvolvimento de uma geração ao condicionar o contexto no qual se dará a
formação de novas famílias. Portanto, este estudo visa gerar evidências robustas e
contextualizadas, fundamentais para a elaboração de políticas públicas de saúde
mental para jovens e que respondam às desigualdades brasileiras.

Metodologia

Este trabalho propõe um recorte longitudinal e analítico. A fonte dos dados
provém dos acompanhamentos de 2008, 2011, 2015 e 2023 da Coorte de
Nascimentos de 1993 de Pelotas no Rio Grande do Sul, estudo longitudinal e de base
populacional. A abordagem longitudinal é adequada pois esse trabalho pretende
analisar padrões de trajetória ao longo do período estabelecido – entre os 15 e 30
anos dos entrevistados – e estimar prevalências do TDM aos 30 anos entre os
participantes. Dados metodológicos deste estudo foram previamente publicados
(Gonçalves et al., 2014, 2018, 2026; Victora et al., 2008, 2006).

Indicadores, Metas e Resultados

Os resultados deste estudo serão enviados para a publicação em periódico
indexado nacional e/ou internacional na forma de artigo científico. Pretende-se
também apresentar os achados em congressos da área de saúde coletiva entre 2026
e 2027. Por fim, os resultados serão adaptados à divulgação para o público em geral
e fornecidos à imprensa local.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ANNA LAURA DURO BARP
BRUNA GONÇALVES CORDEIRO DA SILVA1
HELEN DENISE GONCALVES DA SILVA1

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