Nome do Projeto
Desigualdades socioeconômicas na reincidência intergeracional da maternidade na adolescência: uma análise de três coortes de nascimento
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
21/03/2026 - 28/02/2027
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências da Saúde
Resumo
A maternidade na adolescência é um importante problema de saúde pública, além de um marcador das desigualdades sociais (Silva et al, 2025). Apesar da tendência de redução das taxas em diversos países nas últimas décadas, essa queda não tem ocorrido de forma homogênea entre diferentes grupos populacionais. No Brasil, 11,4% dos nascidos vivos foram de mães até 19 anos em 2024, sendo sua maioria nas regiões Norte e Nordeste do país (SINASC, 2024; Barros et al, 2025). Esse é um evento que geralmente desencadeia desfechos negativos na vida das adolescentes, como abandono escolar, redução das chances de inserção em empregos formais, isolamento social, além de um maior risco de complicações na gestação. Observa-se que adolescentes pertencentes a grupos socialmente vulnerabilizados apresentam maior probabilidade de vivenciar uma gestação precoce (Assis et al, 2021). Assim, a maternidade na adolescência constitui não apenas um evento individual, mas um um processo causado, principalmente, por iniquidades estruturais. A literatura aponta que filhas de mães adolescentes têm maior risco de terem filhos durante a adolescência, perpetuando assim um ciclo intergeracional. Como mecanismos que levam a esse acontecimento, estão fatores socioeconômicos, familiares, comportamentais e estruturais (Meade et al, 2008). Dessa forma, a gravidez na adolescência pode ser entendida não apenas como um evento isolado, mas como parte de um ciclo de reprodução de desigualdades, em que filhos de mães adolescentes vivenciam maior exposição a condições adversas desde a infância, incluindo menor acesso a recursos educacionais e maior instabilidade familiar (Meade et al, 2008; Wildsmith et al, 2012). Condições como renda familiar, escolaridade materna, situação conjugal e cor da pele influenciam diretamente o contexto no qual crianças e adolescentes se desenvolvem, determinando o acesso a oportunidades, formas de socialização e expectativas de futuro. Ao mesmo tempo, fatores individuais relacionados às adolescentes, como escolaridade, composição familiar, educação sexual, comportamentos de risco, apoio social e acesso a serviços de saúde, também podem influenciar sua relação com a maternidade na adolescência (Barber, 2001; Campa e Eckenrode, 2006). Nesse sentido, observa-se uma lacuna na literatura quanto a estudos que investiguem de forma aprofundada as características maternas envolvidas na intergeracionalidade da maternidade na adolescência. Embora existam evidências consistentes de que filhas de mães que engravidaram precocemente apresentam maior risco de vivenciar esse evento, muitos estudos limitam-se a descrever essa associação, sem examinar adequadamente a magnitude e os mecanismos subjacentes que a explicam, em especial aqueles relacionados às desigualdades. Diante desse cenário, torna-se relevante investigar como tais desigualdades atuam e se perpetuam ao longo das gerações.

Objetivo Geral

Avaliar as desigualdades referentes à reincidência intergeracional de maternidade na adolescência em meninas participantes das coortes de nascimento de Pelotas – RS nos anos de 1982, 1993 e 2004.

Justificativa

A maternidade na adolescência é uma questão de saúde global relacionada de maneira multidimensional com aspectos socioeconômicos e familiares. No Brasil, em 2023, 11,39% dos partos ocorreram em meninas entre 15 e 19 anos, e 0,55% em meninas de 10 a 14 anos, conforme dados do SINASC. Apesar de ter diminuído cerca de 18% no período de 2019 a 2022, a gravidez precoce ainda é considerada alta em comparação com outros países de média-alta renda (SINASC, 2022; Barros et al, 2025). Sendo assim, esse acontecimento costuma estar associado a desfechos desfavoráveis como interrupção da trajetória escolar, redução de oportunidades de trabalho e perpetuação da pobreza (Monteiro et al, 2021).
Entre as diversas características associadas à maternidade na adolescência, destaca-se a transmissão intergeracional, isto é, a repetição do evento em diferentes gerações de uma mesma família. Nesse sentido, filhas de mães adolescentes têm maior risco de gravidez na adolescência, perpetuando assim um ciclo intergeracional (Meade et al, 2008). Isso sugere que há fatores estruturais como pobreza, baixa escolaridade, acesso limitado a serviços de saúde e educação sexual, que podem atravessar gerações (Dias e Teixeira, 2010)
No entanto, a maioria dos estudos com a temática foram realizados em países de alta renda, principalmente norte-americanos e europeus, o que mostra uma lacuna na literatura para países de média e baixa renda nos quais os determinantes sociais de saúde, as desigualdades socioeconômicas, os arranjos familiares, o acesso a serviços de saúde e educação, bem como as normas culturais e de gênero, se diferem, podendo influenciar a ocorrência desse fenômeno (Salam et al, 2016). Da mesma maneira, os estudos nacionais ainda são limitados, onde apenas dois estudos a respeito da gravidez na adolescência intergeracional foram publicados, sendo um deles com delineamento transversal (Ferraro et al, 2013; Almeida e Aquino, 2009) . Mesmo em comparação com outros países de média-alta renda, o Brasil ainda apresenta uma taxa significativamente mais alta de maternidade na adolescência. Além disso, dentro do território brasileiro há uma


22

disparidade entre regiões, onde Norte e Nordeste apresentam maiores taxas de fecundidade adolescente (Barros, 2025).
Ademais, a maioria das publicações sobre o tema de forma intergeracional se concentrou no início do século, sendo fundamental trazer essa discussão para a atualidade, uma vez que se mantém um problema de saúde pública e a sua intergeracionalidade segue sendo uma lacuna na literatura. Portanto, se faz necessário estudos que além de avaliar de forma longitudinal a reincidência da maternidade precoce na geração seguinte, verificam as gerações de diferentes épocas no tempo. No presente estudo, além de utilizar dados longitudinais, serão feitas comparações de diferentes décadas e gerações (diferentes coortes), permitindo uma comparação de efeito de coorte. Nesse sentido, compreender a maternidade na adolescência sob a perspectiva intergeracional permite ampliar o debate sobre a reprodução das desigualdades sociais e sobre os fatores capazes de interromper esse ciclo.
Além disso, muitos estudos focam nos fatores de risco. No entanto, há dados que sugerem que as características maternas também influenciam a longo prazo a ponto de determinar um maior risco de gravidez precoce (Wildsmith et al, 2012; Hendrick e Maslowsky, 2019). Identificar os processos que envolvem a relação entre a idade de nascimento com seus respectivos fatores associados e a gravidez na adolescência é essencial para interromper o ciclo intergeracional da maternidade na adolescência e assim promover maior equidade social.

Metodologia

O delineamento do estudo é longitudinal, do tipo coorte prospectiva. Serão utilizados dados da avaliação perinatal nas três coortes, acompanhamento de 30 anos da coorte de 1982, acompanhamento de 15, 18 e 22 anos da coorte de 1993 e 15 e 18 anos da coorte de 2004. Dessa forma, este delineamento se justifica pois busca acompanhar a ocorrência e a evolução de desfechos ao longo do tempo, tendo em vista que o desfecho será composto com informações da adolescente e sua mãe, em diferentes épocas da linha do tempo. Apesar disso, as análises têm caráter transversal.

Indicadores, Metas e Resultados

Os resultados deste projeto serão divulgados à comunidade científica na defesa da dissertação, como requisito parcial para a obtenção de título em epidemiologia, onde será apresentado o artigo escrito para publicação em periódico da área da epidemiologia. Além disso, também será feita a divulgação em congressos científicos e na mídia local através da produção de uma nota à imprensa.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
FERNANDO CESAR WEHRMEISTER1
ISADORA GOMES ALIENDE

Página gerada em 10/07/2026 23:25:20 (consulta levou 0.119822s)