Nome do Projeto
O BRICS em expansão: novos membros, iniciativas financeiras
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
05/05/2026 - 31/12/2029
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Humanas
Resumo
O objetivo geral da pesquisa é analisar as iniciativas recentes do BRICS voltadas à expansão do número de membros e ao fortalecimento da governança comercial e financeira, tendo em vista a construção de um multilateralismo mais representativo do mundo em desenvolvimento. Para tanto, a investigação será organizada em cinco objetivos específicos: compreender o processo de expansão e seus significados para os membros originais, analisar o interesse e a trajetória dos Estados convidados ou parceiros, avaliar a implementação e os resultados de mecanismos financeiros já existentes, examinar o papel do BRICS Clear na busca de alternativas ao dólar e, por fim, reavaliar a literatura acadêmica sobre o grupo, especialmente a tese de que ele é um fenômeno dinâmico e processual sem institucionalização formal. A pesquisa organiza-se em três fases: levantamento e análise de documentos oficiais (2009-2025) com softwares livres (AntConc, VOSviewer e R); mapeamento de interesses e processos decisórios, complementado por entrevistas com autoridades e especialistas; e reavaliação teórica do BRICS como fenómeno dinâmico e processual.

Objetivo Geral

Essa pesquisa tem como objetivo geral:
Analisar as recentes iniciativas do BRICS - expansão do número de membros e iniciativas de governança comercial e financeira - para um multilateralismo mais representativo do mundo em desenvolvimento.

Para tanto os seguintes objetivos específicos serão perseguidos:
1. Investigar os objetivos e o processo de expansão do agrupamento, suas origens e processamento, a partir da percepção de seus membros originais como reforço do alcance e resiliência do grupo e como expressão de interesses específicos de cada um.

2. Analisar o interesse de Estados na adesão ou não ao agrupamento, seus ganhos e perdas potenciais, destacando inclusive a tramitação de cada caso - candidatura, convite, aceitação, postergação, recusa.

3. Investigar a estrutura de mecanismos de cooperação financeira já estabelecidos pelos BRICS - implementação, funcionamento, possíveis resultados - e como eles se articulam com o NDB e o CRA.

4. Analisar o mecanismo de compensação financeira do comércio - BRICS Clear - e sua contribuição para uma nova infraestrutura financeira de auxílio à redução da dependência do dólar.

5. Avaliar como a expansão e as iniciativas recentes de cooperação desafiam a literatura que caracteriza o BRICS, em especial, a tese de seu funcionamento enquanto dinâmico e processual defendido pelo proponente em trabalho anterior.

Justificativa

O BRICS, agrupamento que em 2025 conta com 10 membros plenos e 10 membros parceiros, tem se dedicado a discutir a conjuntura internacional e articular iniciativas diversas frente à desafios contemporâneos. Desde sua formação em 2006 e primeira cúpula em 2009, tem concentrado seus esforços em prol de um multilateralismo reformado com maior representatividade - voz e voto - para o mundo em desenvolvimento, em especial seus membros. Tem encontrado dificuldades, porém, para avançar reformas em um multilateralismo fortemente desafiado - individualismo, nacionalismos radicais, sufocamento de instituições, protecionismo, instrumentalização do comércio e finanças. Diante disso, o BRICS, que até 2023 era composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, avançou no processo de expansão no número de membros, mantendo sua estrutura carente de regras e normas, e em estudos prospectivos para o estabelecimento de mecanismos originais diversos com destaque aos de compensação comercial e financeira. Enquanto o primeiro, da expansão, encontra dificuldades no âmbito interno do agrupamento, o segundo, das finanças, encontra nos mecanismos existentes rigidez e dependência além de ameaças de Estados não membros a possíveis avanços. Essas iniciativas ilustram o objeto desta pesquisa: as recentes iniciativas do BRICS no campo político e econômico, incentivadas pela percepção da necessidade de reforço da dinâmica própria de funcionamento do agrupamento frente ao avanço de iniciativas contrárias ao multilateralismo e, sobretudo, aos riscos da instrumentalização de mecanismos de governança comercial e financeira em prol de interesses políticos de Estados não membros.

Metodologia

As Relações Internacionais (RI) enquanto campo do saber se constitui no interior da Ciência Política (CP), nos EUA, na década de 1940 com Morgenthau, Spykman e Herz. Esses estabeleceram os debates do realismo político em RI e incorporaram a concepção de poder da CP. Concordavam, RI e CP, que “a política internacional deveria ser estudada como é e não como deve ser”. (KAHLER, 1997, p. 26, tradução livre). Porém, compreender a política internacional depende necessariamente da separação dos níveis de análise do objeto de investigação: o micro referente ao doméstico e origem da política externa, e, o macro referente ao externo e onde se observa a política internacional. (SINGER, 1961). À isso, soma-se a importância da análise dos processos decisórios que auxiliam na demarcação analítica da política internacional e da política externa sendo aquela atenta aos resultados da interação entre os Estados e essa última atenta a ação do Estado ao representar seus interesses e objetivos internacionalmente. (LIMA, 2013).
Se à política internacional interessa os padrões de interação entre Estados permeada por disputas de poder, pela ordem internacional, pela demanda por coalizões e instituições cabe nela o objeto dessa pesquisa: o BRICS e as recentes iniciativas para expansão e aprofundamento da cooperação financeira. Complementa a análise do objeto, em sua fase 3, uma re-avaliação das teses existentes acerca de sua caracterização, em especial aquela defendida pelo proponente acerca do BRICS enquanto fenômeno peculiar da política internacional que admite dinâmica própria, dependente da percepção de seus membros, e funciona por meio de processos sem indicação de institucionalização a ser alcançada (Daldegan, Carvalho 2022). Ora essa percepção motiva o convite e ingresso de novos membros ao agrupamento sem um conjunto de regras e normas claro para tal, ora estimula a busca por soluções próprias frente à ameaça de instrumentalização do comércio e finanças para objetivos individuais e contrário aos interesses dos BRICS. Essa discussão será realizada nas fases 1 e 2 do projeto. É importante frisar, a fim de evitar equívocos e expectativas acerca da análise de política externa, que analisar-se-á os princípios e não gênese, os atores e processos envolvidos na sua definição ainda no âmbito interno dos Estados.
Compreender o BRICS, as resultantes da interação entre seus membros, originais e novos, ao passo que isso se dá no espaço corrente de tempo demanda a adoção da metodologia histórica associada a dois métodos - a análise de conjuntura e a análise documental. Poder-se-á ainda, como elemento complementar, adotar entrevistas como forma de acessar informações nem sempre claras ou presentes nos documentos.
Essa metodologia permite observar processos e atores imersos num contexto delimitado e justificado pelo pesquisador: de 2009, período de criação do BRICS, aos dias correntes. (THIES, 2002). A análise de conjuntura propõe uma "leitura da realidade em movimento” permeada pela natureza imprevisível e causal da ação política. Cabe, portanto, avaliar os atores e sua ação. (FORNAZIERI, 2014). Como atores: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, membros originais, e os novos membros pleno Irã, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Indonésia. Adicionalmente, Argentina e Arabia Saudita por sua especificidade: recusa e postergação da adesão. Enquanto ação: a expansão e o adensamento da cooperação financeira.
Existem, senão, inúmeros métodos ou fragmentos deles que auxiliam na construção de análises de conjuntura a partir de evidências que podem ser alteradas com novas ações dos atores envolvidos. (VELASCO E CRUZ, 2000). Logo, a fim de evitar visões reducionistas e parciais da conjuntura analisada é fundamental que sejam adotados mecanismos para garantir a análise pelos diferentes ângulos possíveis da ação política. Para isso, a análise documental busca informações em textos que não receberam nenhum tratamento científico e que, portanto auxilia na originalidade das análises realizadas. (OLIVEIRA, 2007). Ora,
[…] os textos políticos são subprodutos concretos da atividade política estratégica e têm um potencial amplamente reconhecido para revelar informações importantes sobre as posições políticas de seus autores. Além disso, eles podem ser analisados, reanalisados e novamente analisados sem se tornarem exaustivos ou não cooperativos. Uma vez que um texto e uma técnica de análise são colocados no domínio público, outros podem replicar, modificar e melhorar as estimativas envolvidas ou podem produzir análises completamente novas usando as mesmas ferramentas. (LAVER, BENOIT, GARRY, 2003, p.311, tradução livre).

Serão empregados na análise documental softwares livres: o AntConc, o VOSviewer e o R. Eles permitem: (i) a compilação de dados textuais pela listagem e contagem de palavras, (ii) a possibilidade de contextualização das mesmas por meio de associações, (iii) a frequência em que os termos aparecem ora isolados ora associados e, (iv) semelhanças e distinções entre os termos e documentos. Enquanto o primeiro software – AntConc – permite a elaboração de planilhas e quadros elucidativos, inclusive permitindo a localização de termos/palavras-chave no texto, o segundo – VOSviewer – constrói representações gráficas, como mapas, em formato de rede de dados e o terceiro - R - extraí informações e cria representações gráficas com elementos associados a linguagem textual. Assim, podem ser observadas as relações, as associações e os sentidos da linguagem de um conjunto denso de materiais no formato de texto. O uso dos softwares associado aos métodos utilizados ampliam o escopo analítico e o caráter inovador dessa pesquisa.
Coordenada pelo proponente e com a colaboração de outros pesquisadores a execução dessa pesquisa, norteada pela metodologia histórica, dar-se-á em três fases. Inicialmente, far-se-á a identificação, organização e modelagem textual dos documentos relacionados ao BRICS com vistas a identificar elementos acerca do processo de tomada de decisão e da conjuntura internacional ao longo do tempo. A segunda fase consistirá no mapeamento e discussão do processo de tomada de decisão dos países do BRICS a fim de verificar os interesses e ambições envolvidos nos processos de expansão e de adensamento da cooperação financeira. Nesses dois primeiros momentos a análise documental em conjunto dos softwares AntConc, VOSviewer e R serão as ferramentas metodológicas utilizadas. Como completar, o uso de entrevistas poderá ser empregado ao longo da pesquisa.
A terceira fase consistirá na reavaliação da tese do proponente, acerca do fenômeno processual e dinâmico. A expectativa é que seja possível aprimorar a interpretação acerca do BRICS e do multilateralismo que emprega. Nessa fase, aplicar-se-á a análise de conjuntura como método adequado para a análise da realidade inerente da ação política no BRICS e seu impacto na política internacional contemporânea.

Indicadores, Metas e Resultados

A problemática realçada nessa pesquisa tendo como objeto as iniciativas do BRICS de expansão e cooperação financeira faz dela seu diferencial e indica alguns resultados esperados da análise. Primeiro, que o BRICS iniciou seu processo de expansão estimulado pela conjuntura internacional contemporânea onde a ascensão de comportamentos contrários a lógica multilateral de redução de custos, ampliação dos ganhos e tolerância à diversidade é crescentemente desafiada. Tornar mais robusto o agrupamento com o ingresso de Estados representativos do Sul Global, com protagonismos em suas regiões, reforça a imagem do BRICS e amplia seu alcance e influência. Mesmo que o consenso possa ser dificultado, a demanda por soluções inovadoras pode contribuir para uma transformação maior do grupo. Talvez, incipiente institucionalização. Segundo, que as iniciativas voltadas para a cooperação comercial e financeira não são recentes. Contemporaneamente essas iniciativas cresceram em número e densidade. Em especial, a narrativa tornou-se mais assertiva em meio a dificuldade de consensuar caminhos diante ora da cautela e receio ora das pressões internacionais pelas quais seus membros têm sofrido. O exemplo mais representativo disso são as ameaças e a taxação da atual administração Trump nos EUA. Os países do BRICS têm sido fortemente afetados, em especial China, Índia, Brasil e Indonésia. Enquanto o primeiro, pelo seu peso político e econômico, tem obtido relativo êxito nas negociações, o mesmo não acontece com os demais. A Indonésia conseguiu acordar novos termos. Já Brasil e Índia são impactados com altas taxas e recebem tratamento diferenciado. O incremento da cooperação financeira serve tanto como resposta como também estimula o incremento das ameaças por países não membros. O BRICS deve ser perspicaz no firmamento de novos mecanismos que guardem seus interesses mas que conciliem estratégias nacionais e interação internacional extra-grupo. O fato é que o estudo da política internacional dos países do BRICS tem o efeito de subsidiar questões de ordem pública e privada. Pública desde a criação do conhecimento e sua multiplicação nos círculos acadêmicos como o provimento às atividades de autoridades e tomadores de decisão nos diferentes níveis de governo e da comunidade. O BRICS afeta a natureza política da ação dos e entre os Estados que dele fazem parte. Na esfera privada cabe a apropriação de resultados que ampliem a sua ação e interação com o objeto da pesquisa em prol das suas atividades sejam elas políticas, econômicas e sociais. Afinal, existem oportunidades de intercâmbio de capital humano, know-how e ampliação de comércio e finanças. Ou seja, sua contribuição para o campo de estudos está no avanço da investigação acerca da natureza das iniciativas do BRICS e nas oportunidades, ainda não exploradas, derivadas delas. Caberá, portanto, ao Observatório de Política Internacional dos países em Desenvolvimento por meio de seus produtos - análises nos formatos de texto, áudio/ podcasts e videos - regularmente publicizados de modo claro, direto e profundo o conhecimento desenvolvido pela pesquisa ao público interessado.
Ademais, existe a expectativa de que o desenvolvimento do projeto fortaleça o pilar da pesquisa junto a graduação em Relações Internacionais e a linha de pesquisa “Dinâmicas Políticas e Conflitos Sociais” da Pós-graduação em Ciência Política da UFPel além de contribuir para na formação de recursos humanos em nível de iniciação científica, mestrado e doutorado. O Grupo de Pesquisa CNPq “Economia, Política e Desenvolvimento Internacional” sob coordenação do professor proponente é o espaço adequado para sua execução. Inclusive no Grupo o proponente tem explorado as possibilidades de pesquisa que a Universidade Pública permite para avançar na produção de conhecimento e investido em publicações e colaborações (algumas no prelo ou sob avaliação). Essa pesquisa conta com a colaboração de pesquisadores externos a UFPel (UFABC, PUC SP, UFU) e amplia o potencial para parcerias sólidas de longo-prazo com impacto positivo no ensino e na pesquisa da Universidade. Possibilidades se abrem a cooperação interinstitucional. E os resultados serão divulgados por meio da participação em Congressos e publicações em periódicos indexados. Em especial, é meta desse projeto a estruturação de rede de pesquisa com pesquisadores internacionais num esforço claro de internacionalização da pesquisa brasileira. O proponente já tem mantido contato e desenvolvido parcerias internacionais - publicação em periódicos internacionais e colaboração em livros. O esforço vai no sentido de aproximar agendas de pesquisa e propiciar intercâmbio com estes pesquisadores. O apoio da FAPERGS será fundamental.
A proposta de manutenção e criação, nas metas, do repositório digital bilíngue de documentos e do Observatório de Política Internacional dos países em Desenvolvimento pode sedimentar a temática de estudos na região Sul, colocar em evidência nacional e internacionalmente a comunidade universitária da UFPel e fornecer análises de conjuntura em diferentes formatos (texto, podcasts, vídeos) que, instrumentalizadas pelo público interessado, sirvam para a tomada de decisão nos diferentes âmbitos da ação política.
É meta do projeto, ainda, a transformação dos resultados da pesquisa em elementos acessíveis para a comunidade. A responsabilidade da Universidade de devolver para a sociedade o investimento realizado. Diante disso, o projeto assume a tarefa de desenvolver material que possa ser utilizado como auxiliar no processo de ensino-aprendizagem no ensino básico. Especificamente, explorar recursos digitais e gratuitos para promoção de ferramentas didáticas.
Tão logo, acredita-se que o resultado dessa pesquisa sirva de instrumento para novas pesquisas a partir dos debates e métodos apresentados. Ainda é parco o uso de softwares de caráter quantitativo nas Ciências Sociais e Humanas no Brasil. Além disso, consolide a área de estudos em política internacional no Rio Grande do Sul a fim de subsidiar autoridades e setores interessados na interação com os países do BRICS. São inúmeras as oportunidades a serem exploradas e esse estudo pretende subsidiar o público interessado.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
AMANDA DA LUZ PERACHI
ANA LUIZA VITALLI SILVA
Ana Tereza Lopes Marra de Sousa
BREKHNA YOUSIFZAI
CHARLES PEREIRA PENNAFORTE1
Carlos Eduardo Ferreira de Carvalho
ESTER GRUPPELLI KURZ
ETIENE VILLELA MARRONI1
GABRIEL BOTAFOGO DE OLIVEIRA BISPO
GABRIELA SIMONETTO DE CASTRO
IZADORA BARTELS OLIVEIRA
JOÃO MANOEL VIEIRA DE ARAÚJO
JULIA MARIA SOARES ANDRADE RUDRIGUES
LAURA BEATRIZ DA SILVA GOULART
LEILA CRISTHINE SOUSA DO NASCIMENTO ARAUJO
LUANA GOMES LASMAR
Mayanne de Araújo Menezes
WILLIAM DALDEGAN DE FREITAS5

Página gerada em 31/08/2026 04:45:15 (consulta levou 0.176452s)