Nome do Projeto
Curta Agora
Ênfase
Extensão
Data inicial - Data final
01/01/2027 - 31/12/2031
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Sociais Aplicadas
Eixo Temático (Principal - Afim)
Cultura / Educação
Linha de Extensão
Direitos individuais e coletivos
Resumo
O Curta Agora é um cineclube de ciência política vinculado às disciplinas de Oficina de Extensão I e II do Curso de Comércio Exterior da Universidade Federal de Pelotas, voltado à realização de sessões de exibição crítica de curtas-metragens nacionais em escolas públicas da zona sul do Rio Grande do Sul. O projeto tem dois objetivos complementares, que são contribuir para a formação de espectadores críticos e qualificados do cinema nacional, e promover a reflexão sobre cidadania, direitos humanos e políticas públicas junto a estudantes do ensino médio. O projeto é estruturado a partir de um Grupo de Trabalho interinstitucional composto pelo coordenador, professores da rede pública e estudantes bolsistas, que deliberam coletivamente o cronograma de exibições e a prática pedagógica das sessões, analisando os materiais de suporte, sendo a execução das sessões realizada pelos alunos matriculados nas referidas disciplinas, que atuam como mediadores nas escolas parceiras. O diferencial do Curta Agora em relação a outras iniciativas de uso do audiovisual em contexto escolar está na combinação entre a exibição de curtas-metragens brasileiros e uma dinâmica de cartas aplicada antes do filme, que cria disposição interpretativa nos estudantes sem antecipar conclusões, preparando-os para assistir de forma ativa e crítica. O debate acontece de forma aprofundada após a exibição, por meio de perguntas abertas trabalhadas em grupos, sempre sem que o mediador direcione ou avalie as respostas. A escolha pelo curta-metragem nacional atende a uma dupla necessidade, que é garantir tempo qualificado para o debate, que filmes de longa duração não permitem, e prestigiar um formato cinematográfico de grande qualidade artística que não dispõe do mesmo espaço de circulação e visibilidade que o longa-metragem. Por fim, é importante destacar que o projeto atende à Lei 13.006/2014, que estabelece a obrigatoriedade de exibição de filmes brasileiros nas escolas, e à Meta 12.7 do Plano Nacional de Educação, aprovado pela Lei Federal n. 13.005/2014, que define o percentual mínimo de dez por cento da carga horária curricular da graduação a ser cumprido em programas, projetos e ações de extensão universitária.

Objetivo Geral

Constituir um cineclube de ciência política nas escolas públicas da zona sul do Rio Grande do Sul, por meio de sessões estruturadas de exibição e debate de curtas-metragens nacionais, tendo como objetivos complementares contribuir para a formação de espectadores críticos e qualificados do cinema nacional e promover a reflexão sobre cidadania, direitos humanos e políticas públicas junto a estudantes do ensino médio, utilizando o cineclubismo como prática pedagógica estruturada e integrando estudantes do Curso de Comércio Exterior da UFPel como mediadores.

Justificativa

O uso do audiovisual em contexto educacional não é, por si só, uma prática cineclubista. É necessário distinguir três fenômenos distintos. O cineclube como organização. O cineclubismo como prática pedagógica estruturada. E o cinema como ferramenta didática.

O cinema como ferramenta didática ocorre quando o professor utiliza uma obra audiovisual para conduzir o aluno a um conteúdo preestabelecido. O filme ilustra, exemplifica ou emocionaliza um conceito que já está na ementa. O debate posterior serve para verificar ou consolidar o aprendizado. Não há aqui qualquer juízo de valor sobre a qualidade pedagógica dessa abordagem, tratando-se de uma prática legítima e eficaz. A diferença está na estrutura. No uso didático tradicional, o professor sabe onde quer chegar e o filme é o caminho.

Frequentemente, como alertam Nunes, Costa e Oliveira (2013, p. 11-12), o audiovisual é subutilizado, pois “muitas vezes o cinema/audiovisual entra na escola apenas (...) como uma ferramenta para deixar as aulas mais atrativas”, o que reduz a obra a um mero recurso ilustrativo. O Curta Agora propõe superar esse reducionismo, resgatando o cinema como uma linguagem expressiva que exige fruição estética e reflexão autônoma, uma vez que "o cinema e o audiovisual são muito mais que apenas tecnologias da informação: são linguagens e expressões" (Nunes, Costa, Oliveira, 2013, p. 12). O cineclube atua como um cenário privilegiado de aprendizagem não-formal, pois, segundo Gusmão (2008, p. 8), “a ação educativa desses clubes, associada a uma rede de socialização mais ampla, constituiu um cenário privilegiado de aprendizagem não-formal de cinema, de troca de saberes e informações”, sendo historicamente responsável pela formação cultural e pelo desenvolvimento crítico de diferentes gerações de espectadores.

O cineclubismo, por sua vez, é a prática historicamente consolidada de exibição e debate cinematográfico, na qual o filme funciona como ponto de partida para perguntas que o espectador resolve, ou não resolve, por conta própria. O mediador não conduz a uma conclusão prevista, pois "a dialética da experiência cineclubista mantém o debate sempre em aberto" (Reina, 2022, p. 130). Além disso, a obra audiovisual é valorizada em sua dimensão estética como fim em si mesmo, e não apenas como suporte para o debate. A apreciação cinematográfica, a atenção à linguagem do filme, às escolhas do realizador e ao valor cultural da obra compõem parte essencial da experiência cineclubista. Como apontam Nunes, Costa e Oliveira (2013), o objetivo do cineclubismo é superar o viés que reduz o audiovisual a mais uma ferramenta pedagógica com fins meramente didáticos, uma vez que "a obra audiovisual comporta qualidades que ultrapassam a condição de ferramenta pedagógica" (p. 21). Configura-se, assim, como uma prática crítica, criativa e esteticamente comprometida, que "transcende o uso do filme apenas como um recurso pedagógico" (Reina, 2022, p. 129). Um professor pode adotar essa prática em sala de aula e obter resultados semelhantes, mas isso não configura um cineclube.

Segundo Borges e Moura (2024, p. 1148), o cinema quando utilizado em aula, "pode proporcionar aos alunos uma compreensão crítica, além de garantir o contato com uma obra de arte”. Nos moldes de uma sala de aula convencional, o processo é institucionalizado. No cineclube, a aprendizagem ocorre de forma dialógica e horizontal, onde não existe a figura de um mestre detentor exclusivo do saber. Essa abordagem dialógica garante abertura às singularidades dos estudantes, permitindo a construção coletiva de questões abertas e inconclusas. Dessa forma, o cineclube constitui-se como um espaço de formação crítica, instigando o espírito questionador e desvelando contradições da realidade social e política (Paula, Sacardo, 2023).

O cineclube é uma organização, formal ou informal, com identidade própria, independente do currículo e externa à sala de aula. O Curta Agora é um cineclube porque reúne três características que o distinguem do uso meramente didático do audiovisual. É uma organização independente, com nome, projeto, equipe e parceiros institucionais, não subordinada a nenhuma ementa específica. Tem um objetivo estético deliberado de formação de público, não apenas debate crítico, mas acesso a obras que não chegam ao circuito comercial, com ênfase em curtas-metragens brasileiros. E tem um compromisso com a diversificação do acesso ao audiovisual como fim em si mesmo, e não como meio para outro conteúdo curricular.

Essa distinção não é de estilo, é estrutural. O design do Curta Agora impede que ele funcione como ferramenta didática no sentido tradicional. As cartas não antecipam conclusões, o mediador não avalia respostas e a Carta de Saída registra perguntas abertas, não conteúdo assimilado. Essa configuração aproxima o projeto da própria definição de cineclube estabelecida pela Instrução Normativa n. 63 da ANCINE, que caracteriza os cineclubes como espaços de exibição não comercial de obras audiovisuais voltados à formação de público e de formadores de opinião. Essa aproximação não decorre de qualquer intenção de registro formal junto à ANCINE, cujo propósito é viabilizar o acesso a incentivos fiscais do setor audiovisual, mas do reconhecimento de que a definição adotada pela norma converge com o perfil que o Curta Agora pretende assumir. O projeto inscreve-se, assim, na tradição cineclubista reconhecida pelo Ministério da Cultura, que admite cineclubes informais associados a instituições educacionais com o perfil de formação de público com visão crítica, e pela Carta dos Direitos do Público aprovada pela Federação Internacional de Cineclubes em 1987, que afirma o direito de toda pessoa a receber comunicações audiovisuais e a expressar seus próprios juízos e opiniões.

A escolha pelo curta-metragem é igualmente deliberada e responde a um problema estrutural identificado na literatura. Projetos que utilizam filmes de longa duração tendem a concentrar o tempo disponível na exibição, relegando o debate a um momento breve e sem profundidade, uma vez que a duração excessiva pode comprometer a compreensão e reduzir a concentração do espectador (Ontoria Peña, 2007). O curta-metragem, por sua síntese e densidade narrativa, exige do espectador uma atenção diferenciada e facilita a análise crítica, já que a limitação temporal obriga a uma condensação da ação em um único argumento, o que mantém o espectador atento e concentrado, e cada escolha do realizador carrega mais peso e é mais visível do que em obras de longa duração. A adoção exclusiva de curtas-metragens não é uma limitação logística, é uma afirmação do perfil do projeto.

O nome do projeto condensa essa afirmação de perfil. "Curta" evoca simultaneamente o formato cinematográfico e o convite ao engajamento. "Agora" remete ao advérbio de urgência e presença, mas também à ágora grega, espaço público de deliberação coletiva, sinalizando essa dupla leitura, que aproxima o projeto da vocação de espaço aberto de debate já descrita nas seções anteriores.

Essa vocação se sustenta por um princípio ético que atravessa toda a prática pedagógica estruturada. Os mediadores não direcionam conclusões nem tomam partido nas discussões. O roteiro estruturado garante a imparcialidade do processo independentemente do perfil individual de cada mediador, assegurando que a tensão gerada pelo filme e pelas cartas permaneça em aberto para que os próprios estudantes a elaborem.

Esse compromisso com a abertura crítica não isola o projeto de suas obrigações institucionais, ao contrário, dá conteúdo pedagógico a duas demandas que recaem sobre instituições diferentes e que o Curta Agora atende simultaneamente. Para as escolas parceiras, a Lei 13.006/2014 estabelece a obrigatoriedade de exibição de pelo menos duas horas mensais de filmes brasileiros nas escolas públicas, obrigação que o Curta Agora contribui para cumprir com a prática pedagógica estruturada aqui descrita. Para a UFPel, a Meta 12.7 do Plano Nacional de Educação exige que ao menos dez por cento da carga horária dos cursos superiores seja dedicada a ações de extensão. No Curso de Comércio Exterior, essa meta é cumprida pela criação das disciplinas Oficina de Extensão I e II, integralmente compostas por créditos práticos de extensão. É dentro dessas disciplinas que o Curta Agora é desenvolvido, ocupando com conteúdo pedagógico concreto a carga horária que a curricularização exige.

Por fim, o recorte territorial, escolas públicas da zona sul do Rio Grande do Sul, responde a uma demanda de presença universitária em regiões com menor acesso a iniciativas culturais e educativas complementares. Ao ocupar esse espaço, o projeto reforça o compromisso da UFPel com sua comunidade e completa o quadro de justificativas do Curta Agora, que combina fundamentação conceitual, embasamento legal e enraizamento territorial.

Metodologia

O Curta Agora estrutura cada sessão em quatro blocos sequenciais com duração total de cerca de noventa minutos, aplicados em turmas de vinte a quarenta estudantes do ensino médio organizados em grupos.

O primeiro bloco, Dinâmica de Cartas, tem duração de vinte minutos. Cada grupo sorteia aleatoriamente uma Carta de Situação e uma ou duas Cartas de Lente, conforme o tamanho da turma. As Cartas de Situação descrevem fatos relacionados ao tema do curta-metragem de forma imparcial, admitindo leituras distintas. As Cartas de Lente oferecem ângulos de análise, perguntas abertas que orientam o olhar sem antecipar respostas. Os grupos debatem internamente e apresentam uma síntese de suas reflexões, que pode incluir consensos e divergências. O mediador anota as palavras que emergem no quadro, sem comentar ou avaliar.

O segundo bloco é a exibição do curta-metragem, com duração de até vinte minutos. O filme é apresentado sem introdução teórica, pois a dinâmica de cartas já criou a disposição interpretativa necessária.

O terceiro bloco, Tribunal das Lentes, tem duração de trinta minutos. Os grupos recebem perguntas abertas relacionadas ao filme, distintas das cartas do primeiro bloco, e debatem internamente por dez minutos antes de apresentar suas reflexões. As perguntas são elaboradas para estimular a comparação, o posicionamento e a escuta, sem pressupor que uma resposta é mais correta do que outra. O mediador conduz sem avaliar, intervindo apenas com perguntas descritivas quando a discussão trava.

O quarto bloco, Carta de Saída, tem duração de dez minutos. Cada estudante escreve individualmente em um cartão a pergunta que o filme deixou em aberto. Os cartões são recolhidos pelo mediador e servem como instrumento de avaliação qualitativa da sessão e como dado para o relatório do projeto.

Nesse processo, busca-se desenvolver nos estudantes do ensino médio participantes competências e habilidades específicas, tais como capacidade de argumentação, leitura crítica da realidade, autonomia intelectual, escuta e diálogo, exercitadas ao longo da Dinâmica de Cartas e do Tribunal das Lentes, em articulação com a reflexão sobre cidadania, direitos humanos e políticas públicas já prevista nos objetivos do projeto.

Os mediadores são estudantes das disciplinas de Oficina de Extensão I e II do Curso de Comércio Exterior, capacitados previamente para conduzir o protocolo sem direcionar conclusões. O roteiro estruturado garante a replicabilidade da prática pedagógica em diferentes escolas e turmas.

A formação e o acompanhamento desses mediadores ocorrem no âmbito das disciplinas de Oficina de Extensão I e II, sob responsabilidade do coordenador do projeto na qualidade de docente responsável, conforme Plano de Ensino aprovado semestralmente pelo Colegiado do Curso de Comércio Exterior, instrumento que rege os conteúdos, a metodologia de capacitação e as formas de acompanhamento dos estudantes mediadores ao longo do semestre letivo.

Indicadores, Metas e Resultados

O projeto terá duração de 2027 a 2031 e estabelece metas progressivas de execução. No primeiro ano, serão realizadas ao menos duas sessões, com ampliação gradual nos anos subsequentes, visando a consolidar a presença do projeto nas escolas parceiras e expandir o alcance para novas turmas e instituições.

Os principais indicadores de acompanhamento são os seguintes:
- Número de sessões realizadas por ano
- Número de estudantes do ensino médio atingidos
- Número de escolas atendidas
- Número de estudantes universitários atuando como mediadores
- Volume de Cartas de Saída recolhidas e sistematizadas

Os resultados esperados são os seguintes:
- Desenvolvimento da capacidade de leitura crítica de obras audiovisuais por parte dos estudantes do ensino médio participantes.
- Ampliação do debate sobre cidadania, direitos humanos e políticas públicas em contexto escolar, em consonância com as ementas das disciplinas de Oficina de Extensão I e II do Curso de Comércio Exterior da UFPel.
- Formação de estudantes universitários como mediadores de processos dialógicos, contribuindo para sua formação integral e para o cumprimento da curricularização da extensão no Curso de Comércio Exterior da UFPel, integrando a ação extensionista à carga horária curricular exigida pela Meta 12.7 do PNE.
- Contribuição para o cumprimento da Lei 13.006/2014 nas escolas parceiras, por meio da exibição sistemática e metodologicamente fundamentada de curtas-metragens brasileiros.
- Produção científica derivada do projeto, incluindo comunicações em congressos e artigos acadêmicos, tanto por parte do coordenador quanto dos estudantes universitários envolvidos e professores das escolas parceiras, a partir da sistematização dos dados coletados nas sessões e da reflexão sobre a metodologia aplicada. A ação como um todo constitui uma fonte contínua de dados para essa produção, na medida em que cada sessão gera novo material empírico a ser analisado.

Como instrumento de avaliação qualitativa, as Cartas de Saída recolhidas ao final de cada sessão serão sistematizadas e analisadas ao longo do projeto, permitindo identificar os temas e tensões que mais mobilizaram os estudantes e orientar os ajustes metodológicos necessários. Essa sistematização ocorre por meio da catalogação temática das perguntas registradas em cada sessão, com leitura periódica pelo Grupo de Trabalho interinstitucional, que inclui os temas recorrentes como pauta de suas reuniões deliberativas e define, a partir deles, os eventuais ajustes na prática pedagógica estruturada do projeto. Além de sua função avaliativa, as Cartas de Saída configuram uma boa fonte de pesquisa, pois registram, de forma espontânea, as perguntas que mobilizaram cada turma diante do filme, oferecendo material primário para a produção científica mencionada acima.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
AMANDA NUNES MOREIRA
ANA ALESSANDRA GARCIA TEIXEIRA
DANIEL LENA MARCHIORI NETO5
EDUARDO GRECCO CORREA
FABIANE GONÇALVES LEMOS
FLAVIO GILBERTO CRUZ PEREIRA
LETIÉRI MARTINS SILVEIRA
MARIA MARCIA BATISTA ESTRELLA

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