Nome do Projeto
Primaveras: Programa de Extensão em Intervenções Clínicas e Psicossociais para o Cuidado de pessoas em situação de Luto e Trauma.
Ênfase
Extensão
Data inicial - Data final
21/09/2026 - 30/06/2028
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Humanas
Eixo Temático (Principal - Afim)
Saúde / Educação
Linha de Extensão
Saúde humana
Resumo
As experiências de luto e trauma constituem eventos potencialmente desorganizadores da vida psíquica, relacional e comunitária, produzindo impactos significativos sobre a saúde mental, identidade e os vínculos sociais (CFP, 2021). Além das perdas decorrentes da morte de pessoas significativas, diferentes situações de violência, desastres, adoecimento grave, pandemias, deslocamentos forçados e outras experiências críticas podem desencadear processos traumáticos que demandam espaços qualificados de escuta, acolhimento e elaboração. Sabemos que em decorrência do colonialismo alguns grupos sociais historicamente vivem na margem da sobrevivência amargando em suas vivências diferentes formas de violência como genocídio, desapropriação, invasão e desterritorialização, tais processos afetaram suas formas de existir no mundo. Cabe aqui utilizar a ideia de trauma concebida pela psicanalista e multiartista Grada Kilomba (2019) “o termo trauma é originalmente derivado da palavra grega “ferida” ou “lesão”. O conceito de trauma refere-se a qualquer dano em que a pele é rompida como consequência de violência externa” (p. 213-214). Segundo Kilomba (2019) a escravização, o colonialismo e o racismo cotidiano podem produzir experiências traumáticas, especialmente quando a violência vivenciada é intensa e não encontra formas adequadas de representação e elaboração. Essas experiências podem ultrapassar a capacidade psicológica de organização do indivíduo, tanto quando resultam de um acontecimento específico quanto quando são consequência da repetição de diferentes situações de violência. O luto envolve diferentes dimensões da experiência humana, incluindo os aspectos psicossociais, uma vez que representa um processo de adaptação a uma nova realidade (Casellato, 2020). A perda pode provocar desorganização na vida da pessoa, especialmente por romper com uma realidade que antes era conhecida, segura e previsível, o mundo presumido (Casellato, 2020). O objetivo deste estudo visa implementar um programa de extensão voltado ao cuidado de coletivos em situação de luto e trauma, integrando intervenções clínicas e psicossociais, formação profissional, pesquisa e ações intersetoriais que fortaleçam as redes de cuidado e o apoio comunitário, contribuindo para a transformação das políticas públicas e para a garantia de direitos das populações em situação de maior vulnerabilidade. O programa de extensão será desenvolvido por meio de ações extensionistas fundamentadas nos princípios da integralidade do cuidado, da interdisciplinaridade, da educação permanente em saúde e da interação dialógica entre universidade e comunidade. As atividades buscarão articular ensino, pesquisa e extensão, promovendo espaços de acolhimento, escuta qualificada, cuidado psicossocial e formação acadêmica. O programa será voltado para pessoas, famílias e coletivos que vivenciam processos de luto e/ou experiências traumáticas, encaminhados por serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), instituições públicas, organizações da sociedade civil ou por demanda espontânea, conforme critérios previamente estabelecidos. As ações serão desenvolvidas por docentes, psicólogos supervisores, estudantes de graduação e pós-graduação, sob supervisão respeitando os princípios éticos que regem a atuação em Psicologia. Espera-se contribuir para o fortalecimento das redes de cuidado e proteção, ampliando a capacidade dos serviços de reconhecer e acolher demandas relacionadas ao luto e ao trauma. Pretende-se favorecer uma atuação intersetorial e integrada, evitando a fragmentação do cuidado e fortalecendo estratégias de acompanhamento das pessoas e coletivos em situação de sofrimento.

Objetivo Geral

Implementar um programa de extensão voltado ao cuidado de coletivos em situação de luto e trauma, integrando intervenções clínicas e psicossociais, formação profissional, pesquisa e ações intersetoriais que fortaleçam as redes de cuidado e o apoio comunitário, contribuindo para a transformação das políticas públicas e para a garantia de direitos das populações em situação de maior vulnerabilidade.

Justificativa

As experiências de luto e trauma constituem eventos potencialmente desorganizadores da vida psíquica, relacional e comunitária, produzindo impactos significativos sobre a saúde mental, identidade e os vínculos sociais. (CFP, 2021). Além das perdas decorrentes da morte de pessoas significativas, diferentes situações de violência, desastres, adoecimento grave, pandemias, deslocamentos forçados e outras experiências críticas podem desencadear processos traumáticos que demandam espaços qualificados de escuta, acolhimento e elaboração.
Sobre isso, Layla Gomes (2024) compreende que as situações de emergência em saúde envolvem, muitas vezes, uma ameaça à vida que pode provocar diferentes impactos nas pessoas envolvidas. Por serem experiências intensas e inesperadas, podem ultrapassar a capacidade do indivíduo de compreender, representar e elaborar o que aconteceu, podendo gerar consequências traumáticas. Tal concepção de emergência converge com a conceituação dada pelo campo da psicologia das emergências e desastres conforme Gomes; Braghetto; Tsuchiya; Moretto, (2025), a sobrevivência após uma situação de emergência ou desastre envolve um processo significativo de elaboração das perdas e de adaptação à nova realidade. Nesse contexto, a pessoa precisa encontrar novas formas de reorganizar sua vida após o acontecimento. As experiências de sobrevivência estão diretamente relacionadas às situações de emergência, uma vez que sentimentos como sofrimento, medo e vulnerabilidade podem permanecer por um período prolongado após o evento (Gomes; Braghetto; Tsuchiya; Moretto, 2025).
Sabemos que em decorrência do colonialismo alguns grupos sociais historicamente vivem na margem da sobrevivência amargando em suas vivências diferentes formas de violência como genocídio, desapropriação, invasão e desterritorialização, tais processos afetaram suas formas de existir no mundo. Cabe aqui utilizar a ideia de trauma concebida pela psicanalista e multiartista Grada Kilomba (2019) “o termo trauma é originalmente derivado da palavra grega “ferida” ou “lesão”. O conceito de trauma refere-se a qualquer dano em que a pele é rompida como consequência de violência externa” (p. 213-214). Segundo Kilomba (2019) a escravização, o colonialismo e o racismo cotidiano podem produzir experiências traumáticas, especialmente quando a violência vivenciada é intensa e não encontra formas adequadas de representação e elaboração. Essas experiências podem ultrapassar a capacidade psicológica de organização do indivíduo, tanto quando resultam de um acontecimento específico quanto quando são consequência da repetição de diferentes situações de violência. A autora também destaca que o trauma relacionado ao racismo foi historicamente pouco discutido pela psicologia e pela psicanálise, evidenciando a falta de atenção dada às consequências psicológicas da opressão racial.
Compreender a história e as circunstâncias da perda é fundamental para entender os impactos do luto na vida do indivíduo. O luto envolve diferentes dimensões da experiência humana, incluindo os aspectos psicossociais, uma vez que representa um processo de adaptação a uma nova realidade (Casellato, 2020). A perda pode provocar desorganização na vida da pessoa, especialmente por romper com uma realidade que antes era conhecida, segura e previsível, o mundo presumido (Casellato, 2020). O mundo presumido pode ser compreendido como um conjunto de crenças e ideias que a pessoa constrói sobre si mesma e sobre o mundo ao seu redor. Essas concepções ajudam a proporcionar segurança, previsibilidade e sentido à vida, orientando a forma como o indivíduo compreende suas experiências e sua realidade. (Casellato, 2020). Quando um vínculo é rompido todas as certezas que um indivíduo possui sobre o mundo, sobre quem é se desfazem convidando a uma nova realidade que pode se apresentar completamente diferente de sua previsão, assim “a ausência do que foi perdido rompe parcial ou totalmente com o senso de pertencimento, gerando angústia e isolamento” (Casellato, 2020, p.27). A crise de identidade é temporária e pode fazer com que o indivíduo vivencie o luto com certa resistência, uma vez que existe uma tendência natural de manter o mundo presumido intacto. Nesse processo, é comum recorrer a estratégias de enfrentamento já conhecidas, buscando aquilo que proporciona familiaridade e segurança, tal movimento é um indicativo de saúde mental. Com o passar do tempo, novos comportamentos e formas de lidar com a realidade são desenvolvidos e consolidados, possibilitando a acomodação ao novo cenário e à nova realidade após a perda (Casellato, 2020). Concepções mais tradicionais sobre o luto foram importantes para a compreensão deste processo, para o renomado psiquiatra John Bowlby (1969, 1973, 1980, 2004), criador da Teoria do Apego, o luto pode ser compreendido como uma resposta à ruptura de um vínculo importante, não se restringindo à experiência da morte. O psicanalista Sigmund Freud (1917) no livro “Luto e Melancolia” descreve algumas características da vivência do luto como um processo de perda de interesse pelo mundo externo, dificuldade de realizar tarefas e de amar, tal processo é natural e precisa ser elaborado através da possibilidade de escuta para que as lembranças e memórias sejam reconhecidas diminuindo os laços de libido direcionado a pessoa que morreu. Conforme Stroebe e Schut (1999) o luto é vivido de forma dual, isso quer dizer que pode ocorrer uma oscilação natural entre a perda e a restauração permitindo que a pessoa enlutada viva as experiências cotidianas, e também abra espaço para o encontro com a perda.
Importante destacarmos que a vivência do luto nem sempre envolve a ideia de um mundo presumido o qual remete segurança e previsibilidade. Algumas perdas podem ser acompanhadas por outros sentimentos e percepções, embora também sejam dolorosas. Neste sentido, as pesquisadoras Franciane Nolasco, Larissa Léia da Costa e Joanneliese Freitas (2025) questionam o uso de teorias universalistas e hegemônicas que não abordam o luto vivenciado por populações enlutadas por mortes vividas no contexto da colonialidade, elas sugerem que a vivência das pessoas enlutadas possa ser contada por elas, não as situando como objetos de estudo. Conforme as autoras, em diálogo com diferentes pesquisadoras/es, os processos de violência gerados pela colonização fazem com que muitas mortes ocorram fora de ambientes hospitalares ou controlados. Logo, a hospitalização no fim de vida não é uma condição universal para o morrer, como frequentemente é citada nos estudos basilares sobre luto. Tal vivência faz parte de grupos privilegiados, em que a morte é atravessada em uma realidade mais tranquila e natural. Nolasco; Costa; Freitas, (2025); Tavares, (2021). Fora desse horizonte destaca-se as experiências dos povos originários que através da colonização foram impedidos de simbolizar e elaborar suas perdas a partir dos seus próprios rituais, tendo que incorporar os saberes e rituais dos colonizadores. Nolasco; Costa; Freitas, (2025);Vargas et al., (2020).
De acordo com Gabriela Casellato (2005), a elaboração do luto envolve a construção de significados diante da experiência de perda. Nesse processo, a possibilidade de falar sobre o vínculo estabelecido com a pessoa falecida, as circunstâncias da morte e os rituais relacionados a ela permite ao indivíduo simbolizar e atribuir sentido à experiência vivenciada. A autora ressalta ainda que, quando o luto não é elaborado ou reconhecido, o sofrimento decorrente da perda pode permanecer silenciado e contribuir para o desenvolvimento de dificuldades físicas, psíquicas e sociais, podendo favorecer um processo de luto patológico. Segundo Casellato (2020) o luto não reconhecido advém de uma falha na empatia e pode produzir múltiplos danos às pessoas enlutadas, quando determinadas perdas são negligenciadas ou banalizadas, o sofrimento pode se tornar mais intenso e prolongado, assim expressar a dor pode ajudar a elaboração do luto.
Observa-se que a oferta de serviços especializados para o cuidado de pessoas em situação de luto e trauma ainda é insuficiente, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, onde as demandas psicossociais frequentemente superam a capacidade de resposta das redes de atenção. Nesse cenário, a universidade pública desempenha um papel importante ao aproximar ensino, pesquisa e extensão, contribuindo para a construção de práticas de cuidado comprometidas com as necessidades da comunidade e com a formação das/os estudantes. O Grupo Primaveras surge como uma proposta de extensão voltada à promoção do cuidado clínico e psicossocial de pessoas e coletivos em situação de luto e trauma, fundamentada em abordagens interdisciplinares e em princípios de acolhimento, escuta qualificada, respeito à singularidade das experiências e fortalecimento das redes de apoio. O projeto pretende oferecer espaços grupais e outras estratégias de intervenção que favoreçam a elaboração das perdas e traumas, a reconstrução de sentidos, o fortalecimento dos vínculos comunitários e a promoção da saúde mental, reconhecendo que o sofrimento psíquico é atravessado por fatores sociais, culturais, históricos, econômicos e políticos.
O programa também favorece a produção e a sistematização de conhecimentos sobre intervenções em luto e trauma, contribuindo para o desenvolvimento de práticas baseadas em evidências científicas e na reflexão crítica sobre as demandas contemporâneas em saúde mental. A articulação entre extensão, ensino e pesquisa possibilita a avaliação contínua das ações desenvolvidas, o aprimoramento das metodologias de intervenção e a disseminação de conhecimentos que possam subsidiar políticas públicas e fortalecer as redes de cuidado. Dessa forma, trata-se de uma iniciativa alinhada aos princípios da extensão universitária, que busca responder a demandas sociais concretas por meio de práticas comprometidas com a promoção da saúde mental, da cidadania e do cuidado integral.

Metodologia

O programa de extensão será desenvolvido por meio de ações extensionistas fundamentadas nos princípios da integralidade do cuidado, da interdisciplinaridade, da educação permanente em saúde e da interação dialógica entre universidade e comunidade. As atividades buscarão articular ensino, pesquisa e extensão, promovendo espaços de acolhimento, escuta qualificada, cuidado psicossocial e formação acadêmica. O programa será voltado para pessoas, famílias e coletivos que vivenciam processos de luto e/ou experiências traumáticas, encaminhados por serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), instituições públicas, organizações da sociedade civil ou por demanda espontânea, conforme critérios previamente estabelecidos. As ações serão desenvolvidas por docentes, psicólogos supervisores, estudantes de graduação e pós-graduação, sob supervisão respeitando os princípios éticos que regem a atuação em Psicologia.
As intervenções ocorrerão prioritariamente em formato grupal, considerando o potencial terapêutico e psicossocial dos grupos como espaços de acolhimento, compartilhamento de experiências, fortalecimento de vínculos, construção de redes de apoio e elaboração coletiva do sofrimento. Os grupos serão organizados de acordo com as demandas identificadas, com encontros semanais ou quinzenais, presenciais e/ou remotos, conforme a viabilidade institucional e as necessidades das/os participantes. Além dos grupos, poderão ser desenvolvidas rodas de conversa, oficinas, ações comunitárias, palestras, capacitações para profissionais da rede, produção de materiais educativos e campanhas de sensibilização sobre luto e trauma. O programa atuará de forma articulada com serviços de saúde, assistência social, educação, organizações comunitárias, favorecendo o trabalho intersetorial e a construção de fluxos de encaminhamento quando identificadas demandas que extrapolem o escopo das ações extensionistas. Sempre que necessário, as/os participantes serão orientadas/os e encaminhadas/os para serviços especializados da rede de atenção.
As atividades da equipe extensionista incluirão reuniões periódicas de planejamento, supervisão, estudos dirigidos e avaliação contínua das ações desenvolvidas. Esses momentos terão como finalidade qualificar as intervenções, promover a educação permanente das/os estudantes e profissionais envolvidas/os e garantir a reflexão crítica sobre a prática psi.

Indicadores, Metas e Resultados

Espera-se contribuir para o fortalecimento das redes de cuidado e proteção, ampliando a capacidade dos serviços de reconhecer e acolher demandas relacionadas ao luto e ao trauma. Pretende-se favorecer uma atuação intersetorial e integrada, evitando a fragmentação do cuidado e fortalecendo estratégias de acompanhamento das pessoas e coletivos em situação de sofrimento.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
DIÔNVERA COELHO DA SILVA10
FERNANDA GARAY PIRES
VANESSA DE ARAUJO MARQUES4

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