Nome do Projeto
Vogais fronteiriças: línguas em contato no extremo sul do Brasil
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
01/12/2025 - 30/11/2026
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Linguística, Letras e Artes
Resumo
O presente projeto enfoca a acústica de vogais e sua produção em ambiente de interação mútua entre duas línguas irmãs. Trata-se de uma investigação sobre o português brasileiro (PB) e o espanhol uruguaio (EU) falados em Chuí e Chuy, duas cidades do extremo sul do Rio Grande do Sul – ligadas e separadas por uma avenida. Como cada uma das duas pistas dessa via pertence a um desses municípios, seus moradores circulam de um país a outro como se estivessem em um espaço binacional. Nesse território, duas línguas oficiais e de prestígio adentram- se, interagem e influenciam-se de modo duradouro e permanente. Além desses dois idiomas, outros se fazem presentes, pois, nessas duas cidades gêmeas, imigrantes de origens diversas encontraram abrigo. Logo, é esperado que, da convivência estabelecida entre falantes de origens linguísticas distintas, consequências de cunho linguístico ocorram, como, por exemplo, empréstimos, transferências, atritos ou, ainda, emergência de novos falares. Ademais, línguas em presença levam a graus diversos de bilinguismo ou plurilinguismo (CHAMOREAU e GOURY, 2012). Tais situações são comuns para seus habitantes, embora decisões políticas e fatores identitários possam, de algum modo, contê-las. A pesquisa diz respeito aos efeitos da L2 na L1, que tendem a ocorrer quando há contato linguístico e interação social cotidianos entre seus falantes. Devido, então, ao convívio permanente dessas populações, ao caráter dinâmico da linguagem e ao aspecto contínuo característico da produção das vogais, espera-se que os sistemas vocálicos das duas cidades brasileiras e das duas cidades uruguaias apresentem diferenças intrasistema. Por conta da proximidade geográfica e social entre as cidades de fronteira citadas, espera-se também que as vogais orais do PB e do EU de fronteira apresentem características próximas. O projeto está vinculado a abordagens emergentistas e funcionalistas que buscam, por meio de ferramentas tecnológicas, auxiliar pesquisadores da área a melhor descrever e compreender fenômenos relativos à dinâmica das línguas naturais. De modo mais específico, inscreve-se no campo da sociofonética. Como sua própria denominação revela, trata-se de uma investigação que se encontra na interface entre a sociolinguística e a fonética. Os trabalhos sociofonéticos incluem o emprego de métodos empíricos e o uso de instrumentos na realização de análises acústicas, articulatórias e/ ou perceptivas, bem como o exame de aspectos sociais da linguagem.

Objetivo Geral

Caracterizar os dialetos das cidades de fronteira Chuí e Chuy no que diz respeito às vogais orais de ambos sistemas vocálicos.

Justificativa

O foco na articulação dos elementos vocálicos orais do português e do espanhol em uma região de fronteira é particularmente interessante porque tende a identificar extensões das propriedades acústicas das vogais de ambos sistemas linguísticos, que já são ricos graças às diferentes variedades regionais que os compõem. Tais propriedades são, de fato, mais amplas no PB por conta do contato com o EU de fronteira? Pode-se inferir o mesmo em relação ao espanhol falado no Chuy? Em outras palavras, o português do Chuí e o espanhol do Chuy possuiriam particularidades vocálicas próprias em relação às variantes empregadas nas capitais do RS e do Uruguai? Quais são as características acústicas dessas vogais e que especificidades seriam essas? Existiriam ajustes linguísticos nos sistemas vocálicos do par de línguas português-espanhol de modo a aproximá-los?
Para desenvolver essa pesquisa e tentar responder essas questões, pretende-se realizar uma pesquisa descritiva e comparativa entre os dialetos de Porto Alegre e de Chuí, os dialetos de Montevidéu e de Chuy, e os dialetos das duas cidades fronteiriças. Melhor conhecer e descrever dialetos de fronteira e, particularmente, da fronteira entre o Brasil (RIo Grande do Sul) e o Uruguai justifica o desenvolvimento da pesquisa apresentada.

Metodologia

O projeto será desenvolvido em três etapas interconectadas, cada uma com objetivos específicos que visam garantir a análise e interpretação rigorosa dos dados.

*Primeira etapa: levantamento bibliográfico e preparação de dados

Esta etapa visa contextualizar a pesquisa dentro do arcabouço teórico e empírico existente, além de preparar a base de dados sonora para as análises subsequentes.
a) Levantamento de resultados existentes sobre a estrutura formântica de vogais em Espanhol Sul-Americano
Será realizada uma revisão sistemática da literatura para identificar e consolidar dados sobre a estrutura formântica de vogais em diferentes variedades de espanhol sul-americano, com foco prioritário no espanhol uruguaio. Os estudos de Chládková et al. (2011) serão o ponto de partida, mas a busca será ampliada para incluir outras publicações relevantes que possam oferecer parâmetros comparativos para o EU de fronteira. Esta revisão não apenas coletará dados brutos, mas também analisará as metodologias de coleta e análise empregadas nesses estudos para identificar padrões e inconsistências.
b) Levantamento similar para vogais orais do português brasileiro (Região Sul):
Paralelamente, será conduzida uma revisão da literatura focada nos valores formânticos de vogais orais do português brasileiro falado na região sul do Brasil. Os dados obtidos por Santos e Rauber (2014) servirão como referência central, complementados por outras pesquisas que abordem a fonética vocálica do PB na região, especialmente em Porto Alegre, para estabelecer um ponto de comparação robusto com as variedades de fronteira.
c) Análise preliminar e padronização do Banco Vorais/LELO/UFPel:
Esta subetapa é crucial e será detalhada. Os dados do Banco Vorais, coletados entre 2014 e 2018, serão submetidos a uma rigorosa fase de pré-processamento. Embora o material sonoro tenha sido coletado a partir de uma mesma metodologia (garantindo comparabilidade e replicabilidade), esta etapa incluirá:
- verificação da qualidade sonora: inspeção das gravações para identificar e descartar arquivos com ruído excessivo ou artefatos que possam comprometer a análise acústica;
- homogeneização de metadados: padronização e enriquecimento dos metadados associados a cada gravação (informações demográficas dos falantes, contexto da coleta, etc.) para facilitar a seleção de subconjuntos de dados na segunda etapa.
O uso do Banco Vorais/LELO/UFPel otimiza recursos e permite a reanálise de um corpus já estabelecido com novas ferramentas e perspectivas teóricas (abordagens emergentistas e funcionalistas), garantindo a replicabilidade da pesquisa conforme sugerido por AL-HOORIE; HIVER; LARSEN-FREEMAN (2021).

*Segunda etapa: constituição da base de dados e seleção de participantes

Esta etapa foca na seleção criteriosa dos dados a serem analisados, garantindo a comparabilidade entre os grupos.

a) Critérios de seleção dos participantes do Banco de Dados:
- homogeneização de sexo: a base de dados para esta pesquisa será exclusivamente composta por falantes do sexo feminino. Esta decisão é justificada para mitigar a necessidade de normalização de frequências formânticas, que variam significativamente entre gêneros, simplificando a análise comparativa direta entre as variedades linguísticas.
- perfil sociolinguístico: os participantes selecionados deverão atender aos seguintes critérios:
* ensino médio completo, garantindo um nível educacional mínimo comum.
* faixa etária entre 22 e 43 anos, controlando por possíveis variações fonéticas associadas à idade.
* residência ininterrupta nas respectivas cidades (Porto Alegre, Chuí, Chuy) desde a primeira infância, assegurando a representatividade.
- bilíngues de fronteira: para os grupos de Chuí e Chuy, será considerado o critério de bilinguismo ativo e simétrico, onde os falantes utilizam ambas as línguas (PB e EU) de forma regular e funcional em diversos contextos comunicativos, avaliado por um questionário sociolinguístico detalhado que incluirá:
Idade de aquisição da L2; contextos de uso das línguas (casa, trabalho, lazer, etc.); autoavaliação de proficiência em ambas as línguas; frequência de contato com outras línguas (além de PB e EU) e sua influência na performance linguística.

b) Constituição dos grupos de análise:
Serão selecionados três grupos principais, com 5 participantes do sexo feminino em cada, totalizando 15 informantes:
Grupo Experimental 1 (PB de Chuí): 5 participantes bilíngues nativas do PB de fronteira da cidade de Chuí.
Grupo Experimental 2 (EU de Chuy): 5 participantes bilíngues nativas do EU de fronteira da cidade de Chuy.
Grupo Controle (PB de Porto Alegre): 5 participantes monolíngues nativas do PB de Porto Alegre.
Grupo de Referência (EU de Montevidéu): para fins de comparação com o EU de fronteira, serão utilizados os resultados das vogais orais do grupo feminino do estudo de Santos e Rauber (2014) como dados de referência para o EU de Montevidéu. Para o PB de Porto Alegre, além do grupo controle específico desta pesquisa, serão consultados trabalhos dissertativos e teses existentes sobre as vogais da capital gaúcha, visando enriquecer a base comparativa.
Justificativa do tamanho da amostra: embora 5 participantes por grupo seja um número que permite análises acústicas detalhadas, reconhece-se que a generalização pode ser limitada. No entanto, em estudos de sociofonética que empregam análise acústica aprofundada, amostras menores são frequentemente utilizadas devido à intensidade da análise por falante. Futuras pesquisas poderão expandir essa amostra para validar e refinar os achados.

* Terceira Etapa: análise de dados e interpretação
Esta etapa dedica-se à extração de parâmetros acústicos, sua visualização e análise estatística para responder às questões de pesquisa.

Ferramenta de Análise: O programa de computador PRAAT (Boersma & Weenink, 2023) será a principal ferramenta para a realização das análises acústicas do Banco Vorais, dada sua capacidade e reconhecimento na comunidade fonética.
Procedimentos de análise acústica detalhados:
a) segmentação precisa das vogais tônicas: utilizando o PRAAT, as vogais tônicas de interesse serão segmentadas manualmente para a demarcação dos limites vocálicos;
b) identificação dos inícios e finais de cada vogal: serão demarcados o onset (início) e o offset (final) de cada segmento vocálico, considerando as transições formânticas para os sons adjacentes;
c) extração de parâmetros acústicos no ponto médio: no ponto médio temporal de cada vogal, onde a influência dos segmentos adjacentes é minimizada e a identidade vocálica é mais estável, serão extraídos os seguintes valores:
Frequência Fundamental (F0): em Hertz (Hz), para controle da altura tonal, embora não seja o foco principal, é um parâmetro importante;
Primeiro Formante (F1): correlacionado com a altura da língua (abertura da vogal);
Segundo Formante (F2): correlacionado com o avanço/recuo da língua (anterioridade da vogal);
Terceiro Formante (F3): para auxiliar na caracterização de certas vogais e controle de nasalização, se relevante;
d) obtenção de valores médios de duração das vogais: a duração de cada vogal segmentada será calculada para investigar possíveis influências do contato linguístico na duração vocálica;
e) plotagem das vogais no espaço formântico: os valores de F1 e F2 serão plotados em espaços formânticos (F1 x F2) para cada falante e grupo, permitindo a visualização da distribuição das vogais e a comparação da área do espaço vocálico. Além disso, serão utilizados espaços normalizados (e.g., Bark, Mel, ou Lobanov) para mitigar diferenças anatômicas entre falantes e focar nas diferenças linguísticas;
f) descrição e comparação dos sistemas vocálicos: com base nos parâmetros acústicos extraídos e nas plotagens, será realizada uma descrição fonética das vogais de cada variedade estudada. A comparação focará em:
- extensão e sobreposição dos espaços vocálicos;
- posicionamento de cada vogal no espaço F1 x F2;
- grau de diferenciação entre pares de vogais, especialmente aquelas que podem ser mais suscetíveis a influências de contato.
Análise de protótipos acústicos para as vogais orais do PB de Porto Alegre e Chuí, e do EU do Chuy.
g) Análise estatística: para testar as hipóteses de pesquisa e avaliar a significância das diferenças observadas, serão empregados modelos de efeitos mistos (Linear Mixed-Effects Models - LMEMs). Esta abordagem estatística é ideal para dados fonéticos, pois permite modelar a variabilidade entre os falantes (efeitos aleatórios) enquanto avalia o impacto de variáveis linguísticas e sociolinguísticas (efeitos fixos). As variáveis dependentes incluirão F1, F2 e Duração, enquanto as variáveis independentes incluirão o grupo (PB de Chuí, EU de Chuy, PB de Porto Alegre), a identidade da vogal, e interações entre esses fatores. Será utilizado software estatístico (como R) para a análise.

Indicadores, Metas e Resultados

Espera-se:
(i) identificar protótipos acústicos das vogais orais do PB de Porto Alegre e Chuí e do EU do Chuy,
(ii) contribuir na descrição de falares de fronteira;
(iii) apresentar trabalhos em eventos da área para a divulgação dos resultados de pesquisa;
(iv) publicar artigos e capítulos de livros para circulação do conhecimento científico.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
GIOVANA FERREIRA GONCALVES16
MIRIAN ROSE BRUM DE PAULA24
PAOLA OLIVEIRA DOS SANTOS

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