Nome do Projeto
Processos Psicossociais e Comunitários das Enchentes de 2024 nos Territórios de Pelotas/RS: Um estudo qualitativo com profissionais da Educação e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
12/06/2026 - 30/06/2028
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Humanas
Resumo
Os problemas ambientais se acentuam e geram graves consequências na saúde pública, sobretudo para aquelas populações cujo os modos de viver dependem diretamente da interação com o território. Em 2024 o estado do Rio Grande do Sul enfrentou um dos maiores desastres socioambientais de sua história. As áreas mais afetadas incluíram os vales dos rios Taquari, Caí, Pardo, Jacuí, Sinos, Gravataí, Guaíba, em Porto Alegre, e a Lagoa dos Patos, em Pelotas e Rio Grande. O volume excessivo das chuvas levou à elevação dos rios, resultando em enchentes e deslizamentos de terra, estima-se que ocorreram cerca de 170 mortes e mais de 600 mil pessoas foram desabrigadas. Os fatores psicossociais envolvidos nesses contextos exigem atenção especial, pois constituem um grave problema de saúde pública, impactando a saúde mental da população que enfrenta perdas simbólicas e materiais. As condições climáticas extremas estão em escalada intensa em diferentes partes do globo, contudo evidencia-se a desigual possibilidade de defesa, proteção e assistência conforme pertencimentos de classe social, raça, idade, deficiência e gênero, por exemplo. Os mais pobres (em geral pessoas negras, periféricas, indígenas, quilombolas) são os que mais sofrem com as mudanças climáticas, apesar de serem os agentes com a menor parcela de responsabilidade pelos efeitos catastróficos que têm sido gerados. Esse dado visibiliza uma das dimensões do racismo denominada pelo Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr. de racismo ambiental, terminologia criada na década de 1980 por este ativista do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos (PACHECO, 2008). Diante disso, diversos fatores impactam a saúde dos indivíduos como: situação de moradia, trabalho, educação, acesso a bens e serviços, esporte, lazer, entre outros. (FIORATI et al., 2016). O objetivo geral deste estudo é analisar os impactos psicossociais das enchentes de 2024 em comunidades situadas em áreas de risco, a partir das narrativas de profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e de docentes da rede pública de ensino do município de Pelotas. Esta pesquisa é de caráter qualitativo, constituída por um questionário e uma entrevista semiestruturada. Adotaremos a análise episódica, a perspectiva de pesquisa entre iguais (ESSED, 1991, MAMA, 1995) e a pesquisa centrada em sujeito (MECHERIL, 1997, 2000) que reconhecem as diferentes realidades manifestas pelos sujeitos considerados protagonistas e não objetos de estudo. Essas perspectivas se complementam e propõem relações horizontais entre pesquisadoras/es e entrevistadas, assim, a pesquisa pode ocorrer com membros do grupo social da pesquisadora ou pessoas do mesmo status social (KILOMBA, 2019). Realizaremos entrevistas individuais semiestruturadas pautadas em três cenas: 1) O evento crítico: memórias do dia 27 de maio de 2024 (data registrada com o maior volume de chuvas na região metropolitana de Porto-Alegre); 2) Repercussões do evento crítico na comunidade afetada; 3) Legado do evento crítico e possibilidades de enfrentamento e intervenção aos agravos das enchentes de 2024 no RS. A análise das entrevistas será do tipo episódica, com seleção de cenas mais significativas para o alcance dos objetivos da pesquisa.
Objetivo Geral
Analisar os impactos psicossociais das enchentes de 2024 em comunidades situadas em áreas de risco, a partir das narrativas de profissionais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e de docentes da rede pública de ensino do município de Pelotas.
Justificativa
A presente pesquisa se justifica pela urgência em compreender as implicações de eventos críticos como as enchentes de 2024 na cidade de Pelotas. Tais eventos evidenciam como desigualdades históricas e estruturais aprofundam a vulnerabilidade social de populações negras, pobres, indígenas e quilombolas, afetando diretamente suas condições de vida, segurança e acesso a direitos básicos. A relevância social e científica deste estudo está em sua proposta de escuta ativa e valorização das experiências de profissionais da área da educação e da saúde atuantes em territórios atingidos pelas enchentes, cujas vozes são frequentemente negligenciadas. Ao construir um espaço de memória e narrativa, o projeto busca não apenas investigar os impactos do evento crítico, mas também fortalecer práticas de enfrentamento aos agravos climáticos e sociais, promovendo ações mais sensíveis e comprometidas no interior das comunidades afetadas.
Metodologia
O caminho a ser percorrido para a execução dessa pesquisa depende da definição das instituições envolvidas e da aprovação do estudo no Comitê de Ética de Pesquisa da UFPEL. Deste modo, iniciaremos a coleta de dados após a autorização do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), obtidas as anuências intersetoriais e as assinaturas do Termo de Compromisso Livre e Explicado (TCLE). A pesquisa englobará docentes da rede de ensino pública e profissionais que atuam no Sistema único de Saúde (SUS) e/ou no Sistema único de Assistência Social (SUAS) do município de Pelotas/RS. Esta pesquisa é de caráter qualitativo, constituída por um questionário e por uma entrevista semiestruturada. O questionário será utilizado como instrumento complementar à entrevista semiestruturada, com o objetivo de coletar informações sociodemográficas das participantes. Em entrevistas semiestruturadas, utiliza-se um roteiro de perguntas previamente elaborado; contudo, novas questões podem surgir durante a entrevista (FRASER; GONDIM, 2004). Portanto, busca-se garantir que as entrevistadas se sintam livres para discorrer sobre os temas abordados, condição que será favorecida pela segurança, confiança e condução cuidadosa da entrevistadora. A entrevista será gravada em áudio e terá duração estimada de duas horas, mediante a devida autorização das participantes e em conformidade com os procedimentos éticos aplicáveis às pesquisas com seres humanos. Posteriormente, as entrevistas serão transcritas na íntegra para fins de análise. Adotaremos a análise episódica, a perspectiva de pesquisa entre iguais (ESSED, 1991, MAMA, 1995) e a pesquisa centrada em sujeito (MECHERIL, 1997, 2000) que reconhecem as diferentes realidades manifestas pelos sujeitos considerados protagonistas e não objetos de estudo. Essas perspectivas se complementam e propõem relações horizontais entre pesquisadoras/es e entrevistadas, assim, a pesquisa pode ocorrer com membros do grupo social da pesquisadora ou pessoas do mesmo status social (KILOMBA, 2019). Esse tipo de estudo apresenta, “[...] as condições ideais para relações não hierárquicas entre pesquisadoras/es e informantes, ou seja, onde há experiências compartilhadas, igualdade social e envolvimento com a problemática” (KILOMBA, 2019, p. 82-83). Para a pesquisa serão convidadas profissionais do campo da educação e da saúde que trabalham em comunidades situadas em áreas de risco na cidade de Pelotas/RS, especificamente, nos territórios mais afetados pelas enchentes de 2024. Realizaremos entrevistas individuais semiestruturadas pautadas em três cenas: 1) O evento crítico: memórias do dia 27 de maio de 2024 (data registrada com o maior volume de chuvas na região metropolitana de Porto-Alegre); 2) Repercussões do evento crítico na comunidade afetada; 3) Legado do evento crítico possibilidades de enfrentamento e intervenção aos agravos das enchentes de 2024 no RS. Em entrevistas semiestruturadas, utiliza-se um roteiro de perguntas previamente elaborado; contudo, novas questões podem surgir durante a entrevista (FRASER; GONDIM, 2004). Portanto, busca-se garantir que as entrevistadas se sintam livres para discorrer sobre os temas abordados, condição que será favorecida pela segurança, confiança e condução cuidadosa da entrevistadora. A entrevista será gravada em áudio e terá duração estimada de 60 minutos, mediante a devida autorização das participantes e em conformidade com os procedimentos éticos aplicáveis às pesquisas com seres humanos. Posteriormente, as entrevistas serão transcritas na íntegra para fins de análise. A análise das entrevistas será do tipo episódica, com seleção de cenas mais significativas para o alcance dos objetivos da pesquisa que compreendem os aspectos: racismo ambiental, trauma/luto e engajamento das profissionais e das docentes no manejo dos agravos causados pelo evento crítico enchentes de 2024 no RS. Esse modelo de análise tem inspiração no trabalho de Grada Kilomba (2019) com mulheres negras e suas experiências de racismo cotidiano. Destacamos que a análise episódica, conforme proposta por Kilomba (2019), nos permite identificar expressões do racismo ambiental como cenas coloniais.Nesse contexto, as injustiças vivenciadas no presente relacionam-se diretamente a um passado de invasão colonial, que resultou no direcionamento da população negra escravizada para territórios marcados por extrema vulnerabilidade, desde o período pós-abolição no Brasil. Este modelo de análise utiliza parte das entrevistas consideradas mais importantes para problematizar as violências raciais expressas na subalternização e vulnerabilização cotidiana de vidas negras, pobres e periféricas. A seleção das participantes desta pesquisa obedecerá aos seguintes critérios de inclusão: ser profissional atuante na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) ou docente atuante na rede pública municipal ou estadual de ensino do município de Pelotas/RS; ter experienciado profissionalmente o período das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul; e atuar ou ter atuado junto às comunidades situadas em áreas de risco e/ou em territórios afetados pelos impactos das enchentes. As participantes, portanto, vivenciaram os desdobramentos do evento crítico de 2024 em seu contexto de atuação profissional, seja no campo da atenção psicossocial ou da educação pública. Os critérios de exclusão aplicam-se às profissionais que não atuaram no município de Pelotas durante o período das enchentes de 2024 ou que não possuam experiência de trabalho junto às comunidades afetadas pelos impactos socioambientais decorrentes desse evento. O recrutamento das participantes poderá ser realizado por meio de estratégias complementares. Inicialmente, serão identificados os serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e as instituições públicas de ensino do município de Pelotas/RS que atuam em territórios afetados pelas enchentes de 2024 e/ou junto a comunidades situadas em áreas de risco e em contextos de vulnerabilidade socioambiental. Posteriormente, será realizado contato com as coordenações dos serviços da RAPS e com as equipes gestoras das escolas, com o objetivo de apresentar a pesquisa e viabilizar a participação das profissionais. As coordenações e gestões poderão indicar as profissionais que atendam aos critérios de inclusão estabelecidos. Além disso, o recrutamento poderá ocorrer por meio da rede de contatos profissionais da pesquisadora junto aos campos da saúde mental e da educação no município de Pelotas, bem como pela estratégia de indicação entre participantes amostragem em cadeia ou "bola de neve" conforme Vinuto (2014), desde que as profissionais indicadas atendam aos critérios de inclusão e exclusão definidos para o estudo.
Indicadores, Metas e Resultados
Compreensão aprofundada das experiências de profissionais da saúde e docentes que atuaram junto às comunidades afetadas pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul.
Identificação das principais repercussões psicossociais e educacionais decorrentes do evento crítico nos territórios de Pelotas/RS.
Evidenciar as relações entre racismo ambiental e vulnerabilização de populações negras, pobres e periféricas em contextos de desastres socioambientais.
Produção de análises sobre os processos de trauma, luto e reconstrução comunitária após as enchentes.
Sistematização de estratégias de enfrentamento e intervenção desenvolvidas por profissionais da educação e da saúde mental nos territórios afetados.
Fortalecimento do debate acadêmico e profissional acerca dos impactos psicossociais dos eventos climáticos extremos e suas intersecções com o racismo ambiental.
Contribuir para a formulação de políticas públicas e práticas multidisciplinares voltadas à prevenção, ao cuidado psicossocial e à redução das desigualdades socioambientais em contextos de desastre.
Como produtos da pesquisa, prevê-se a elaboração de artigos científicos e capítulos de livro, visando à divulgação dos resultados e à ampliação do debate sobre racismo ambiental, saúde mental e processos comunitários em contextos de desastres socioambientais.
Identificação das principais repercussões psicossociais e educacionais decorrentes do evento crítico nos territórios de Pelotas/RS.
Evidenciar as relações entre racismo ambiental e vulnerabilização de populações negras, pobres e periféricas em contextos de desastres socioambientais.
Produção de análises sobre os processos de trauma, luto e reconstrução comunitária após as enchentes.
Sistematização de estratégias de enfrentamento e intervenção desenvolvidas por profissionais da educação e da saúde mental nos territórios afetados.
Fortalecimento do debate acadêmico e profissional acerca dos impactos psicossociais dos eventos climáticos extremos e suas intersecções com o racismo ambiental.
Contribuir para a formulação de políticas públicas e práticas multidisciplinares voltadas à prevenção, ao cuidado psicossocial e à redução das desigualdades socioambientais em contextos de desastre.
Como produtos da pesquisa, prevê-se a elaboração de artigos científicos e capítulos de livro, visando à divulgação dos resultados e à ampliação do debate sobre racismo ambiental, saúde mental e processos comunitários em contextos de desastres socioambientais.
Equipe do Projeto
| Nome | CH Semanal | Data inicial | Data final |
|---|---|---|---|
| ALINE ACCORSSI | 4 | ||
| ANDRESA RIBEIRO RIBEIRO | |||
| ANDRIELE BANDEIRA FURTADO | |||
| DIÔNVERA COELHO DA SILVA | 8 |