Nome do Projeto
RESTAURA: Justiça Restaurativa no Território
Ênfase
Extensão
Data inicial - Data final
15/10/2026 - 31/03/2027
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Sociais Aplicadas
Eixo Temático (Principal - Afim)
Direitos Humanos e Justiça / Educação
Linha de Extensão
Infância e adolescência
Resumo
O projeto RESTAURA consiste em uma intervenção piloto de justiça restaurativa comunitária voltada à prevenção da violência juvenil nos municípios de Pedro Osório e Cerrito, na metade sul do Rio Grande do Sul. É crescente no país os casos de maus-tratos e de bullying/cyberbullying contra crianças e adolescentes. No aspecto teórico, o projeto apoia-se em meta-análises que confirmam a eficácia de práticas restaurativas na redução da reincidência juvenil e no aumento da satisfação das vítimas frente a modelos punitivos tradicionais, articulando-se ao marco normativo brasileiro (ECA, SINASE, Resolução CNJ nº 225/2016) e ao arcabouço INSPIRE da OMS. Na prática, os círculos restaurativos apresentam evidências de redução da violência a partir da escuta, diálogo e reconhecimento dos danos por parte dos infratores. Metodologicamente, o projeto organiza-se em três eixos: formação de 24 facilitadores da rede de proteção local (saúde, educação, assistência social e conselho tutelar), com carga horária híbrida de 32 horas; realização de círculos restaurativos comunitários voltados a conflitos familiares, escolares e juvenis; e produção de material educativo, com sistematização dos resultados do piloto. A iniciativa apoia-se ainda no precedente da FASE-RS, que já emprega círculos restaurativos desde 2005 no sistema socioeducativo estadual, evidência de viabilidade técnica, embora até então restrita ao contexto de privação de liberdade, lacuna de prevenção primária comunitária que o RESTAURA busca preencher. Como resultados esperados, destacam-se a formação de uma rede local qualificada de facilitadores, o estabelecimento de fluxo formal de encaminhamento entre a Vara de Execução Penal e essa rede, a produção de material educativo de uso continuado e a sistematização de um modelo replicável, passível de expansão a outros municípios da AZONASUL. Em síntese, o RESTAURA propõe um modelo de baixo custo e alta replicabilidade para a prevenção primária da violência infanto-juvenil, alinhado à recomendação da literatura especializada de que projetos-piloto de justiça restaurativa sejam testados em comarcas de pequeno porte do interior antes de sua expansão para centros maiores (IBCCRIM, 2025).

Objetivo Geral

Viabilizar a implementação da justiça restaurativa nos municípios de Pedro Osório e Cerrito/RS, mediante formação de facilitadores locais e realização de círculos de diálogo, como estratégia de prevenção primária à violência de adolescentes infratores.

Justificativa

Os municípios de Pedro Osório e Cerrito são de porte pequeno na metade sul do Rio Grande do Sul, com população estimada em aproximadamente 7.600 e 6.000 habitantes, respectivamente, e integram a mesma comarca judiciária. Esse perfil territorial coincide com o de municípios sistematicamente carentes de estrutura especializada de proteção à infância e à adolescência, nos quais serviços como Conselho Tutelar, CREAS e equipes técnicas da rede socioeducativa costumam operar com recursos humanos reduzidos, o que compromete a capacidade local de resposta a conflitos familiares e escolares envolvendo crianças e adolescentes. Um estudo ecológico de séries temporais conduzido especificamente no Rio Grande do Sul analisou as notificações de violência infanto-juvenil no estado entre 2015 e 2020, evidenciando a magnitude e a persistência do fenômeno mesmo antes do agravamento observado durante a pandemia de covid-19 (LEVANDOWSKI et al., 2021), achado que reforça a pertinência de uma ação preventiva permanente, e não apenas reativa, dirigida a essa população no território da comarca.

No plano nacional, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) registrou, com base nos dados de 2025, crescimento de aproximadamente 10% nos casos de maus-tratos e agressões contra crianças e adolescentes em contexto doméstico, equivalente a uma criança ou adolescente vitimado a cada 9 minutos no país, com maior taxa de maus-tratos entre 5 e 9 anos e maior incidência de lesão corporal dolosa entre adolescentes de 14 a 17 anos. O mesmo levantamento identificou aumento de 67,3% nos registros de intimidação sistemática (bullying e cyberbullying) contra crianças e adolescentes, o maior crescimento entre todos os indicadores de violência contra esse público analisados pela publicação (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2026). Esses dados evidenciam a necessidade de estratégias complementares de prevenção primária voltadas especificamente ao público infanto-juvenil, para além da resposta processual tradicional.

Dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam o perfil de pequeno porte e de vulnerabilidade social dos dois municípios da comarca. Pedro Osório registrou população de 7.484 habitantes em 2022 (estimativa de 7.631 para 2025), Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,678 e taxa de mortalidade infantil de 33,33 óbitos por mil nascidos vivos em 2023. Cerrito registrou população de 5.808 habitantes em 2022 (estimativa de 5.910 para 2025), IDHM de 0,649 e taxa de mortalidade infantil de 52,63 óbitos por mil nascidos vivos em 2023 (IBGE, 2025a; IBGE, 2025b). Ambos os IDHM situam-se abaixo da média do Rio Grande do Sul, e ambas as taxas de mortalidade infantil superam, com folga, a média nacional do mesmo ano (11,3 óbitos por mil nascidos vivos, segundo o IBGE). No caso de Cerrito, a taxa é cerca de 4,7 vezes superior à média brasileira. Embora se trate de indicador de saúde, e não de indicador criminal, a mortalidade infantil é reconhecida na literatura de saúde pública como proxy de vulnerabilidade social ampla, incluindo fragilidade da rede de proteção à infância, o que reforça, por via indireta, a pertinência de fortalecer, nesses municípios, os mecanismos de prevenção e cuidado voltados a famílias e crianças, alinhados aos eixos de ação preconizados pelo arcabouço INSPIRE (LITTLE et al., 2026).

Um dado institucional relevante reforça a viabilidade técnica da metodologia proposta: a Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul (FASE-RS), órgão estadual responsável pela execução de medidas socioeducativas de internação e semiliberdade a adolescentes em conflito com a lei, adota desde 2005 a prática de círculos restaurativos e círculos familiares como parte de sua metodologia de atendimento, envolvendo servidores, socioeducandos e familiares (GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, 2022).

Esse precedente, consolidado há quase duas décadas no próprio sistema socioeducativo gaúcho, evidencia que a técnica proposta não é experimental no contexto do Rio Grande do Sul, mas uma prática já validada institucionalmente junto ao público adolescente, ainda que até o momento restrita ao sistema de privação e restrição de liberdade. É exatamente essa lacuna, a ausência da técnica em nível de prevenção primária e comunitária, fora do contexto de internação, que o projeto RESTAURA busca preencher nos municípios de Pedro Osório e Cerrito.

Por fim, pesquisa qualitativa recente sobre a implementação da justiça restaurativa no Brasil recomenda expressamente que projetos-piloto sejam iniciados em comarcas de pequeno porte do interior, antes de sua expansão para centros maiores, dada a maior viabilidade de consolidação da prática nesse contexto (IBCCRIM, 2025), recomendação que este projeto adota como diretriz central de desenho.

Metodologia

O projeto será executado em 3 (três) eixos articulados, distribuídos ao longo dos 3 meses de vigência:

Eixo 1 - formação de facilitadores: capacitação, com carga horária mínima de 32 horas, de profissionais da rede de proteção local (saúde, educação e assistência social) de Pedro Osório e Cerrito na metodologia de círculos restaurativos e processos circulares, sob orientação técnica da equipe da Clínica de Direitos Humanos;

Eixo 2 - realização de círculos restaurativos comunitários: condução de rodas de diálogo voltadas a conflitos escolares e juvenis, identificados pela rede de proteção local, mediante fluxo de encaminhamento voluntário e não coercitivo;

Eixo 3 - produção de material educativo e encerramento: elaboração e distribuição de cartilha educativa sobre justiça restaurativa e prevenção de novos atos infracionais, destinada a escolas e serviços da rede de proteção, e sistematização dos resultados do piloto.

Indicadores, Metas e Resultados

Ao término dos 3 meses de execução, espera-se: (a) rede local qualificada, com 24 profissionais aptos a atuar como facilitadores restaurativos em Pedro Osório e Cerrito; (b) fluxo formal estabelecido entre a VEC e a rede de facilitadores, ampliando as respostas disponíveis ao Judiciário para casos compatíveis com práticas restaurativas; (c) material educativo permanente, à disposição das escolas e da rede de proteção dos dois municípios, para uso continuado após o encerramento do projeto; e (d) modelo replicável, sistematizado para eventual expansão a outros municípios da comarca ou da AZONASUL, com a possibilidade de incorporação definitiva da iniciativa como ação permanente da Clínica de Direitos Humanos, caso o projeto seja contemplado.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ARTHUR DA COSTA GOMES
KARINNE EMANOELA GOETTEMS DOS SANTOS8
LUCAS FONSECA MÜLLER4
MARCELA GARZÓN COTACIO
ROSA INDIRA ALVES DA SILVA

Fontes Financiadoras

Sigla / NomeValorAdministrador
TJ RS / Tribunal de Justiça do Rio Grande do SulR$ 4.029,38Fundação Delfim Mendes da Silveira

Plano de Aplicação de Despesas

DescriçãoValor
339036 - Outros Serviços de Terceiro - Pessoa FísicaR$ 1.276,00
449052 - Equipamentos e Material PermanenteR$ 2.753,38

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