Nome do Projeto
Produção e percepção dos gestos articulatórios do português brasileiro e do português europeu
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
01/08/2020 - 31/07/2023
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Linguística, Letras e Artes
Resumo
O presente projeto busca, com a utilização de ferramentas tecnológicas como a ultrassografia, contribuir com a descrição e análise de fenômenos fonético-fonológicos presentes na produção e na percepção dos gestos articulatórios do português brasileiro e do português europeu. Nesse sentido, foco especial será dado aos aspectos relacionados aos segmentos vocálicos, em posições tônica e átonas, como os clássicos processos de assimilações, reduções e inserções que ocorrem envolvendo vogais orais e nasais. A base de dados será obtida por meio de testes de percepção e de produção aplicados a quarenta sujeitos adultos, sendo vinte brasileiros, naturais da cidade de Pelotas e de Florianópolis (falar do manezinho), e vinte portugueses naturais da cidade de Lisboa. Para a realização dos testes de percepção, será utilizado o software PsichoPy; já os testes de produção incluirão coletas acústicas e articulatórias, com a utilização de aparelho de ultrassonografia. A teoria de base que sustenta as análises é a Fonologia Articulatória (BROWMAN & GOLDSTEIN, 1986, 1989, 1992). A análise dos dados possibilitará revisitar, sob novos olhares conduzidos por ferramentas tecnológicas, descrições fonético-fonológicas acerca dos segmentos que constituem os sistemas linguísticos do português brasileiro e do português europeu.

Objetivo Geral

Descrever e analisar, com base na Fonologia Articulatória e na utilização de aparelho de ultrassom, fenômenos fonético-fonológicos presentes na produção e na percepção dos gestos articulatórios do português brasileiro e do português europeu.

Justificativa

A fala é um comportamento motor complexo: exige controle, precisão e rapidez. Para produzi-la, os movimentos dos subsistemas que compõem o aparelho fonador são organizados e coordenados por meio de ações conjuntas de, aproximadamente, cem músculos. É necessário dominar o ciclo respiratório, automatizar movimentos glotais, velares, mandibulares, linguais e labiais – sem contar outros tantos aspectos, auditivos e visuais, envolvidos na produção de consoantes e vogais. Pode-se comparar o sistema fônico com um instrumento de sopro: o ar vindo dos pulmões, investido na fala, passa pelas pregas vocais e é modulado nas cavidades supraglotais. As diferentes produções sonoras são, assim, controladas pelo fluxo desse ar, a tensão exercida pelas pregas vocais e a forma do conduto vocal. Pode-se fazê-lo, também, comparando-o a um tubo. A Teoria fonte-filtro (FANT, 1960), por exemplo, propõe uma modelização da produção do som que separa a produção e a modulação da voz. No caso das vogais, a transformação da corrente de ar em voz, que ocorre durante a vibração das cordas vocais (fonte), é seguida de sua modificação nas diferentes cavidades pelas quais transita, sem que haja obstrução ou fricção do trato vocal durante a sua passagem. A voz que sai da fonte é, assim, alterada em função do formato dessas cavidades. O conduto vocal é tratado como uma sequência de ressoadores de tamanhos e formas variáveis, funcionando como filtros que amplificam certas frequências e descartam outras tantas. Com base na perspectiva teórica da Fonologia Articulatória, não há como separar um processo fonético de sua contrapartida fonológica, pois os gestos articulatórios constituem unidades físicas e representacionais. Nesse sentido, compreender a natureza e o funcionamento dos gestos que constituem os segmentos de uma determinada língua significa compeender o seu sistema linguístico.
Para caracterizar o sistema vocálico “do registro culto formal” do PB, Câmara Jr. (1977) destacou a posição tônica. É, pois, a partir dessa posição, que o autor sugere que se deva realizar uma classificação das vogais como fonemas – 's/a/co', 's/ɛ/co', 's/ɔ/co', 's/e/co', 's/o/co', 's/i/co' e 's/u/co'. Seguindo Câmara Jr. (op.cit), Callou, Moraes e Leite (2013) destacam igualmente esse contexto, de maior estabilidade articulatória, para a identificação das vogais orais do PB. Sete são, então, as vogais orais em posição tônica do português. Em posições átonas, os fonemas também são reduzidos e a vogal central baixa prepondera como levemente posterior. Os fonemas vocálicos passam a apresentar variação articulatória e auditiva. Câmara Jr. (1977) apresenta três distribuições de vogais átonas para o português brasileiro, ou seja, em posição pretônica, postônica não final e postônica final. Assim, na posição pretônica, perde-se a oposição entre médias de 1º e de 2º graus, ficando o sistema reduzido a cinco vogais orais; em posição postônica não final, com quatro vogais, a perda de oposição entre as médias é mantida e se reduz, ainda, a oposição entre /o/ e /u/; por fim, nas postônicas finais, acrescenta-se a perda de oposição entre /e/ e /i/, /o/ e /u/, reduzindo-se o sistema a três vogais. De acordo com Vieira (1994, 2002), cinco segmentos também devem ser considerados em posição postônica final, tendo em vista que, em muitos falares da região Sul do Brasil (especialmente em zonas de fronteira e em cidades de colonização como italiana e alemã – São Borja, Flores da Cunha e Panambi, por exemplo), não há a neutralização entre as vogais altas e médias altas em final de sílaba – 'bolo' [´bolo] ~ [´bolʊ], 'cofre' [´kɔfɾe] ~ [´kɔfɾɪ].
Acrescentam-se aos processos de redução já apontados, outros – os quais originam formas variáveis na língua, caracterizando diferenças regionais. Assim, em posição pretônica, processos como harmonia vocálica – 'menino' / 'm[i]nino', 'coruja' / 'c[u]ruja' – e elevação – 'coelho' / 'c[u]elho' – são encontrados de forma recorrente em diferentes regiões do Brasil. Ainda, conforme Callou, Moraes e Leite (2013), em posição pretônica, as vogais médias podem ser produzidas como abertas, caracterizando, fundamentalmente, os falares do Norte do país, como em 'beleza' / 'b[ɛ]leza' e 'comando' / 'c[ɔ]mando'; já nos dialetos do Sul, a produção é fechada, à exceção – em posição pretônica – de formas derivadas de palavras primitivas constituídas por vogais médias baixas, como em 'c/ɛ/gamente' e 'b/ɛ/lamente'. Em relação à harmonia vocálica, a depender do dialeto, tal fenômeno aplica-se não só em relação às vogais médias e altas – em que a vogal anterior /i/ é o principal gatilho desencadeador do processo, ou seja, /e/ é mais frequentemente produzido como [i] ('pepino' / 'p[i]pino') do que /o/ como [u] ('bonito' / 'b[u]nito') –, mas também com as vogais médias baixas, originando formas variáveis como 'm[o]toca' / 'm[ɔ]toca' e 'p[e]teca' / 'p[ɛ]teca'. Estudos como Bisol (1981), Moraes et al (1986) e Callou et al (2009) apontam a regra de harmonia como sendo de baixa aplicação no Brasil; no entanto, Lee e Oliveira (2006) e Lee (2009) salientam que o quadro se reconfigura quando consideradas as produções por indivíduo, com aplicação elevada, ou mesmo categórica, para determinados itens lexicais. Assim, conforme Lee (2009), os processos fonológicos relativos às vogais variam na comunidade, mas são categóricos individualmente.
Conforme Bisol (1981, 1989), ao contrário do processo de harmonia, a elevação das vogais em posição pretônica não é desencadeada pela característica de vogais tônicas subsequentes, mas pela natureza dos segmentos consonantais antecedentes. Assim, a elevação ocorre preferencialmente em palavras como 'm[u]starda' e 'c[u]légio', que apresentam consoantes labiais ou velares. As vogais médias posteriores em posição pretônica têm ainda o processo de metafonia ativo em português, reportado por Miranda (2000), como em 'j[o]go', com o plural marcado pela alternância vocálica 'j[ɔ]gos'; 'p[o]rco', com o plural 'p[ɔ]rcos' e o feminino 'p[ɔ]rca' marcados pela alternância. Muitas são as palavras, no entanto, cujo processo não se aplica, como 'l[o]do', 'arr[o]to', 'gl[o]bo', 'rep[o]lho' e 'br[o]to', dentre outras.
Importa compreender o vocalismo tônico, pretônico e postônico porque tem papel fundamental nos diferentes falares do PB, na diferenciação entre o português brasileiro e o português europeu (PE) e/ou na comparação entre o português e outras línguas do mundo. Com relação às diferenças entre o PB e o PE, destacam-se a epêntese, a redução e o apagamento das vogais – respectivamente, 'p[i]sicólogo' (PB) x 'psicólogo' (PE); 'c[a]lar' (PB) x 'c[ɐ]lar' (PE); '[i]stravasar' (PB) x '[ʃ]travasar' (PE). O apagamento de vogais em PE faz, assim, emergir sequências consonantais não permitidas em PB.
Grande parte das pesquisas acerca da fonologia do português, no que concerne ao processos que envolvem os segmentos vocálicos orais e nasais, foram desenvolvidas com base em teorias fonológicas calcadas em modelos cognitivos simbólicos, com parca utilização de tecnologia adequada à captação do dado a ser investigado. Com base em análises de oitiva, fundamentalmente, processos fonético-fonológicos do português brasileiro e do português europeu foram descritos e analisados. Nas últimas duas décadas, no entanto, avanços tecnológicos e um maior acesso a ferramentas dessa natureza têm mudado o trajeto das pesquisas em fonologia. É para essa direção que o presente trabalho caminha, buscando a utilização de metodologia adequada que viabilize a confiabilidade dos dados a serem descritos e analisados. A teoria fonético-fonológica a ser utilizada coaduna-se com a especificidade do dado articulatório a ser obtido nas coletas. Desse modo, novos olhares sobre processo fonológico já descritos pela literatura, principalmente àqueles relacionados aos segmentos vocálicos – nasalização, assimilação, redução e inserção –, poderão ser tecidos.

Metodologia

Os dados analisados serão obtidos por meio da aplicação de testes de percepção e de produção a 40 informantes adultos, sendo 20 brasileiros (naturais da cidade de Pelotas/RS e de Florianópolis/SC - falar do manezinho) e 20 portugueses (naturais da cidade de Lisboa). Para as coletas de percepção, serão criados testes de identificação e de discriminação, desenhados e aplicados por meio do software Psichopy. As coletas de produção, acústicas e articulatórias, serão realizadas com a utilização de aparelhos de ultrassonografia, modelos Mindray DP6600 e Ecovet, e gravador ZOOM H4N. Os dados articulatórios serão captados e analisados com a utilização do software Articulate Assistant Advanced. Após a elaboração dos testes de percepção e de produção, serão realizadas coletas piloto. Os dados dos brasileiros serão coletados no Laboratório Emergência da Linguagem Oral (LELO/UFPEL) e os dados dos portugueses, na Universidade de Lisboa. A análise estatística será realizada com a utilização do software SPSS 17.0.

Indicadores, Metas e Resultados

O projeto viabilizará;
- constituição de importante base de dados de percepção e de produção acerca dos gestos articulatórios presentes nos segmentos dos sistemas linguísticos do português brasileiro e do português europeu;
- releituras de processos fonético-fonológicos de ambas as línguas, com base na utilização de ferramentas tecnológicas com aplicação recente às pesquisas linguísticas;
- maior confiabilidade nos dados captados e, consequentemente, nos resultados obtidos, o que traz implicações importantes quando se considera a utilizacão desses resultados em: (i) propostas de ensino do português como língua estrangeira ou como primeira língua no processo de aquisição de línguas estrangeiras; (ii) em terapias fonoaudiológicas;
- parcerias de pesquisa com Instituições nacional (UFSC) e estrangeira (Universidade de Lisboa).

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ALINE ROSINSKI VIEIRA
BRUNA SANTANA DIAS CAVALHEIRO
BRUNA TEIXEIRA CORREA
EDIANE PEREIRA DA CUNHA
GIOVANA FERREIRA GONCALVES41
KAMILA DA ROSA TEIXEIRA
MESSIAS DOS SANTOS CORREIA
MIRIAN ROSE BRUM DE PAULA37
MISAEL KRÜGER LEMES
RAQUEL MELO SILVA
RÔMULO SCHWANZ DIEL
THALISSON DOS SANTOS

Fontes Financiadoras

Sigla / NomeValorAdministrador
CAPES / Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível SuperiorR$ 7.000,00Coordenador

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