Nome do Projeto
Práticas estéticas de resistência e revolta: investigações discursivas em torno das artes do equívoco
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
24/07/2023 - 23/07/2027
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Linguística, Letras e Artes
Resumo
Françoise Gadet e Michel Pêcheux (2010), ao questionar, de um lado, a forma como a Linguística contemporânea denega o real da alíngua (Cf. Milner, 2012), e, de outro, a forma como a Psicanálise contorna o real da história, apontam para uma espécie de “solidariedade” entre língua e história que se desdobra na relação desordem social-mexida na língua. Para os autores, o equívoco, princípio que afeta e corrompe a univocidade linguística, não está nela localizado; ele se encontra no ponto em que o impossível – real da língua – alia-se à contradição, como real da história. Como exemplo disso, utilizam a revolução de 1917 e a consequente mexida no âmbito linguístico discursivo que a acompanhou, em suas palavras, um “gigantesco processo metafórico em que o sentido passa a se produzir no interior do não-sentido” (GADET & PÊCHEUX, 2010, p. 64-65). Um dos sintomas que caracteriza esse processo metafórico que produz novos sentidos é a existência de objetos estéticos, sejam eles literários, audiovisuais etc. Segundo sua concepção, o que Milner (2012) chama de “ponto de poesia” é justamente esse lugar de encontro entre língua e história em que o novo se produz. Neste projeto, propomos-nos a investigar processos de produção de sentidos que se apresentam como dissidentes em relação à ideologia dominante e que, em última análise, carregam a potência de ruptura que, no interior mesmo da língua, a partir de sua própria materialidade, funciona como índice da contradição que caracteriza a história e, por conseguinte, a formação social. Voltamo-nos, nesse sentido, para materialidades discursivas que convocam o equívoco como modo de significar. É o caso de obras literárias contemporâneas que rompem com a forma normalizada que assumem as relações sociais no interior da formação social capitalista, especialmente aquelas que discutem gênero e sexualidade (Polesso, 2016; 2018; 2019; 2021; STIGGER, 2016; DUCASO [APARECIDA], 2021), raça e classe social (Tenório, 2020; Vieira Jr., 2020). Também é o caso de manifestações estéticas não institucionalizadas, como o caso do pixo e do slam. Para tanto, além do aparato teórico-analítico da Análise Materialista do Discurso, tal como desenvolvida por Michel Pêcheux (1988; 1990), recorreremos aos estudos de gênero, especialmente Federici (2019; 2021), Hooks (2019), e aos estudos da interseccionalidade (COLLINS & BILGE, 2021; COLLINS, 2022).

Objetivo Geral

Investigar a forma como o equívoco emerge como modo primeiro de significar em manifestações estéticas dissidentes em relação à formação social capitalista, caracterizando-se como práticas materiais de resistência, revolta e, mais excepcionalmente, revolução (Cf. Michel Pêcheux, 1988).

Justificativa

A pesquisa acadêmica, via de regra, ocupa-se de manifestações estéticas socialmente reconhecidas como tais e, dessa forma, vinculadas aos interesses dominantes da formação social capitalista. Apesar de, contemporaneamente, a intersecção gênero, classe e raça figurar no centro de algumas discussões estéticas e acadêmicas, costumam ser destituídas de seu potencial revolucionário ao serem discursivizadas no âmbito acadêmico apenas como manifestações artísticas, desvinculadas de sua materialidade social e política.
O aparato teórico-metodológico da Análise do Discurso, tal como criada por Michel Pêcheux (1988; 1990) e desenvolvida atualmente no Brasil (LEANDRO-FERREIRA, 2013; 2020; ZOPPI-FONTANA & FERRARI, 2017; VINHAS, 2021), assim como os estudo de gênero, sexualidade e interseccionalidade, podem, na constituição de corpora discursivos, restituir a essa materialidade seu caráter dissidente, sendo, dessa forma, concebidas no âmbito acadêmico, desde suas condições de produção, não mais descoladas de suas condições reais de existência.

Metodologia

Em Análise do Discurso não há metodologia pré-fixada, a escolha das etapas de cada pesquisa são estruturadas conforme um batimento entre a teoria e os corpora a serem analisados. É assim que aquilo que prefigura as etapas da pesquisa é o olhar do analista para o corpus em análise, o qual, a partir dessa visada, poderá convocar conceitos e intersecções teóricas pertinentes à análise de cada materialidade na sua constituição complexa em relação às suas condições de produção.
Ernst (2009) sugere, a partir da leitura de diferentes trabalhos que têm como escopo epistemológico a AD, que a escolha de corpora se dá em torno de três categorias: o excesso, a falta e o estranhamento. Em sua concepção, os analistas de discurso tendem a observar, em um texto, determinado por condições de produção próprias, aquilo que devia aparecer e não se faz presente ou se faz presente por sua ausência, seja na estrutura linguística ou não, aquilo que aparece em excesso, funcionando como modo de apagar e/ou fixar determinados sentidos em detrimento de outros, e aquilo que é estranho num dado discurso, que aparece onde não se espera, como índice do exterior que se materializa no dito.
A insurgência do equívoco nas materialidades estéticas, ou seja, o processo metafórico que estabelece o sentido no interior do não sentido, se seguimos a concepção de Ernst, pode vir a caracterizar-se como estranhamento. No entanto, essa definição só se dará no movimento pendular entre a teoria e o corpus, tal como postulado na Análise do Discurso.

Indicadores, Metas e Resultados

- produzir artigos científicos a partir da análise de corpora;
- participar de congressos regionais, nacionais e internacionais a fim de divulgar o andamento e os resultados da pesquisa;
- desenvolver projetos de extensão em conjunto com a comunidade em geral;
- desenvolver projetos de ensino sobre o tema voltados à comunidade acadêmica da Universidade Federal de Pelotas.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
BARBARA DE LIMA SOBRAL
Evelin Nascimento Lima
JANAINA CARDOSO BRUM14
Jenifer da Silva Dias
MÔNICA FERREIRA CASSANA4

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