Nome do Projeto
Associação entre eventos estressores e biomarcadores de inflamação em jovens adultos pertencentes à Coorte de nascidos em 1993 da cidade de Pelotas, RS
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
08/01/2024 - 28/02/2025
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências da Saúde
Resumo
O estresse é um fenômeno complexo que tem sido estudado por diversas áreas do conhecimento, incluindo a epidemiologia (COHEN; GIANAROS; MANUCK, 2016). O estresse é uma resposta fisiológica e psicológica a situações que são percebidas como ameaçadoras ou desafiadoras (TROISI, 2020). Pode ser causado por uma variedade de fatores, incluindo eventos negativos, como perdas, traumas ou conflitos, ou eventos positivos, como mudanças importantes e desejadas na vida (MCEWEN, 2006). Diferentes abordagens teóricas são encontradas na literatura, apontando seus efeitos imediatos e ao longo do tempo (COHEN; GIANAROS; MANUCK, 2016). Estudos têm analisado a relação entre vivenciar eventos estressores e a saúde mental e a ocorrência de doenças, como as cardiovasculares (DANESE et al., 2009; SLOPEN; KOENEN; KUBZANSKY, 2012). Um evento estressor é uma situação decorrente de uma mudança no ambiente, de caráter indesejado ou ameaçador, que exigirá do indivíduo uma resposta, readaptação (COHEN; MURPHY; PRATHER, 2019). Independentemente de ser o evento físico e/ou psíquico, haverá um desequilíbrio homeostático, para o qual o organismo responderá com uma série de processos neurológicos e hormonais, alguns com efeitos de curto ou longo prazo podem estar relacionados com desfechos negativos em saúde a depender da readaptação executada (ADLER; OSTROVE, 1999; CARMELI et al., 2020). São exemplos de eventos estressores: morte de um dos cuidadores, separação dos pais, práticas de violência dentro do lar, bairro ou escola, pobreza, abusos (físico e psicológico) e maus-tratos, negligência, relações de amizade desfeitas, ter que se mudar de casa contra a sua vontade e viver com dificuldades financeiras (pobreza). Todas essas experiências possuem um forte caráter subjetivo, pois dependem de como elas serão vividas e sentidas por quem as sofre. Ao longo da vida os eventos que são capazes de gerar tais consequências podem se modificar, pelo próprio amadurecimento e percepção do indivíduo sobre sua autonomia e/ou de sua consciência sobre seus comportamentos. Embora o aspecto negativo do estresse seja bastante ressaltado por seus efeitos contrários à saúde física e mental, ele também apresenta um aspecto positivo, ajudando a motivar as pessoas a superar desafios, a aprender e a enfrentar novas situações, e, assim, se adaptarem ao ambiente (TROISI, 2020). A exposição persistente e prolongada a eventos estressores (estresse crônico) possui implicações na saúde do indivíduo ao longo prazo, estando relacionada com o desenvolvimento de psicopatologias (como estresse pós-traumático, ansiedade generalizada e depressão), doenças cardiovasculares, obesidade, diabete mellitus, entre outras doenças crônicas não transmissíveis (DANESE et al., 2009; HAKAMATA et al., 2022). A exposição aguda também possui efeitos a curto prazo de ativação da resposta fisiológica inflamatória, aumentando os níveis de marcadores de inflamação (como PCR e IL-6), e desencadeia semelhantes efeitos de alterações fisiológicas da resposta do eixo HPA e desdobramentos de níveis elevados de substâncias pró-inflamatórias. Em indivíduos já predispostos (que já são cronicamente expostos ao estresse e já possuem alterações no sistema de inflamação) a resposta a estressores agudos é maior e pode acarretar em maiores efeitos negativos (DEMPSTER et al., 2021). A relação de tais eventos estressores com desfechos negativos têm o mecanismo de explicação apontado na literatura ...

Objetivo Geral

Avaliar a relação entre a exposição a eventos estressores e os níveis de biomarcadores de inflamação até início da vida adulta, em pertencentes ao estudo de Coorte de Nascimentos de 1993, Pelotas, RS

Justificativa

Dado o exposto, entende-se que a longo e curto prazo o estresse poderá levar a desfechos negativos em saúde, como maior prevalência de doenças cardiovasculares, transtornos psicológicos, obesidade, diabetes e outras condições na vida adulta (COOKE et al., 2023; DANESE et al., 2007; MORRIS et al., 2019). Ainda, os efeitos da exposição a eventos estressores estão associados com maiores níveis de inflamação tanto na infância quanto na vida adulta (BROWN; WORRELL; PARIANTE, 2021; IOB; STEPTOE, 2019). Portanto, o caminho de associação proposto na literatura entre a ocorrência de eventos estressores e desfechos patológicos é plausível biologicamente pela via da inflamação de baixo grau.
A análise conjunta de eventos estressores e biomarcadores inflamatórios em estudos epidemiológicos pode ajudar a identificar os eventos estressores específicos que estão mais associados à inflamação e ao desenvolvimento de doenças crônicas. Essa abordagem pode fornecer uma visão mais completa da relação entre estresse e inflamação. Os estudos epidemiológicos, geralmente, se concentram em um único evento estressor ou em um único biomarcador inflamatório. A análise conjunta de múltiplos eventos estressores e biomarcadores inflamatórios pode ajudar a identificar padrões que não seriam evidentes com uma abordagem mais limitada.
Este estudo pode ajudar a identificar os eventos estressores que estão associados à inflamação, mas que não foram reconhecidos anteriormente pela inexistência de artigos no Brasil na faixa etária aqui proposta e por sexo. A análise conjunta de eventos estressores e dos dois biomarcadores inflamatórios é uma ferramenta promissora para a investigação da relação entre estresse e inflamação. Essa abordagem pode fornecer informações importantes para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamento de doenças crônicas.
Aponta-se para o pequeno corpo de evidências da associação de eventos estressores ocorridos no limite de transição de uma fase a outra de vida, entre o final da adolescência e início da vida adulta, e de evidências mais sólidas dos efeitos crônicos e agudos da exposição e os biomarcadores. Tal limitação, indica uma lacuna no entendimento de quando esse tipo de exposição é mais prejudicial e qual o tempo de latência dos efeitos da exposição nos biomarcadores de inflamação.
Ainda, por conta do caráter subjetivo da exposição, existem diferenças de efeito de determinados eventos em culturas e populações diversas. Apenas dois artigos (AUGUSTINE et al., 2014; MCDADE et al., 2013) demonstraram evidências em populações de países classificados como de média e baixa renda, caracterizados por alta desigualdade social e maiores prevalências de violência e insegurança social. Um deles demonstrou associação de eventos estressores e IL-6 apenas em homens (AUGUSTINE et al., 2014) e outro de apenas um tipo de evento estressor (negligência) associado a maiores níveis de PCR (MCDADE et al., 2013), evidenciando uma lacuna de exploração das associações em países de similar contexto. No Brasil não foram encontrados estudos publicados sobre essa relação, reforçando a necessidade de estudos em contexto desigual.
Consequentemente, o presente projeto se dispõe a estudar a associação de eventos estressores e inflamação no início da fase adulta em uma amostra de indivíduos provinda de um país latino-americano com grandes desigualdades sociais, bem como explorar o período de entrada na vida adulta para sanar o entendimento de se eventos ocorridos nessa fase ainda são capazes de gerar efeitos nos níveis de inflamação e se quatro anos são suficientes para produzir efeitos de caráter crônico.

Metodologia

Delineamento e justificativa para sua escolha
Serão utilizados dados do estudo de Coorte de Nascimentos de 1993 de Pelotas (RS), de natureza observacional, com delineamento longitudinal. Este delineamento é adequado para responder ao objetivo proposto, pois é possível identificar as exposições precoces e um desfecho na vida adulta (fato que remete ao atendimento da temporalidade), assim como com ele é possível avaliá-las em um mesmo momento.
A Coorte de Nascimentos de 1993 de Pelotas é um estudo promovido pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas que, juntamente com outras três coortes (de 1982, de 2004 e de 2015), acompanham nascimentos de cidadãos pelotenses (BARROS et al., 2008; GONÇALVES et al., 2018; HALLAL et al., 2018). O estudo iniciou-se pela busca nos hospitais dos nascidos na cidade, na zona urbana, durante o período de 01 de janeiro de 1993 a 31 de dezembro do mesmo ano, quando todas as mães foram convidadas a participar do estudo e 5.249 mães (99,7%) consentiram a participação e tiveram seus dados e dos filhos coletados. Esse primeiro acompanhamento (baseline) é chamado de perinatal e constitui a amostra original da coorte.
Os acompanhamentos dessa coorte ocorreram, após o perinatal, aos 1, 3, 6 e 12 meses de vida e aos 4, 6, 9, 11, 15, 18 e 22 anos. Devido às limitações de financiamentos, foram utilizadas subamostras da coorte para os acompanhamentos após o perinatal e até os 9 anos (VICTORA et al., 2006). Já nos acompanhamentos posteriores, todos os membros da coorte original foram localizados e as taxas de acompanhamento estão descritas na Figura 3, descritas em publicações anteriores (GONÇALVES et al., 2018; VICTORA et al., 2008). Mais detalhes metodológicos do estudo de Coorte de Nascimentos de 1993 de Pelotas, RS, podem ser acessados em publicações (GONÇALVES et al., 2014, 2018).

Indicadores, Metas e Resultados

A divulgação dos resultados deste projeto será feita na publicação de artigo científico em periódico indexado nacional e/ou internacional. Também será realizada a divulgação dos resultados em Congressos, mídia local (nota à imprensa) e em redes sociais como o Instagram da Coorte de 1993 e/ou site oficial do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
BRUNA GONÇALVES CORDEIRO DA SILVA1
HELEN DENISE GONCALVES DA SILVA2
Hellena Storch Vieira

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