Nome do Projeto
Tradução e memória literária no extremo sul do Brasil: práticas culturais e circulação de saberes entre os séculos XIX e XX
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
03/03/2026 - 30/11/2026
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Linguística, Letras e Artes
Resumo
O presente projeto formaliza pesquisas que vêm sendo desenvolvidas em nível de pós-doutoramento pelo primeiro proponente sob supervisão da docente vinculada ao PPG Letras da UFPel, e propõe investigar as práticas editoriais e tradutórias desenvolvidas no extremo sul do Brasil, com ênfase na cidade de Pelotas, entre os séculos XIX e XX, compreendendo-as como espaços de produção cultural, circulação de saberes e constituição de memória literária regional. Parte-se da hipótese de que editoras, tipografias, livrarias e tradutores(as) atuaram como mediadores culturais fundamentais na inserção da região sul nas dinâmicas nacionais e internacionais do campo literário, contribuindo para a formação de um circuito editorial próprio e para a consolidação de identidades intelectuais locais. A pesquisa fundamenta-se nos princípios da História e da Historiografia da Tradução, conforme a perspectiva de Lieven D’hulst, articulados à perspectiva da História Cultural, conforme Roger Chartier. Assim, compreende os impressos como práticas sociais e os tradutores como agentes de mediação e produção de sentidos. Metodologicamente, prevê pesquisas bibliográficas e documentais em acervos físicos e digitais, com levantamento e análise de fontes primárias, como almanaques, jornais, periódicos e livros publicados no período e local do recorte, resultando na elaboração de um catálogo digital sobre editoras, traduções e tradutores(as) da região. Nesse sentido, partindo da lacuna historiográfica sobre a edição e a tradução no extremo sul do Brasil, o projeto articula diferentes etapas de investigação, análise e difusão do conhecimento produzido. Para tanto, prevê o levantamento bibliográfico e documental sobre editoras, tradutores(as) e tipografias atuantes na cidade de Pelotas e na região sul do estado entre os séculos XIX e XX, seguido da sistematização dessas informações em um banco de dados que reúna dados biográficos, espaços de atuação e registros iconográficos e geográficos. A partir desse corpus, serão desenvolvidas análises fundamentadas nos referenciais teórico-metodológicos adotados, bem como realizadas visitas de campo a prédios e locais que abrigaram atividades editoriais e tipográficas, registrando fotograficamente esses espaços como pontos de memória editorial e tradutória da cidade e da região.

Objetivo Geral

Inspirando-se nas questões formuladas por D’Hulst em "Por que e como escrever histórias da tradução?", publicado na revista Cadernos de Tradução da UFSC, em 2021, a pesquisa busca a realização de um levantamento documental, análise historiográfica e trabalho de campo. Nessa perspectiva, objetiva-se, também, responder às perguntas sobre "quem" traduzia, escrevia ou publicava "o que", "por que", de "que modo" e com "qual auxílio" no extremo sul do Brasil.

Justificativa

No século XIX, o extremo sul do Brasil, em especial a cidade de Pelotas, consolidou-se como um importante polo editorial e tipográfico, abrigando casas impressoras e livrarias que publicavam literatura original e traduzida em almanaques, jornais, revistas e livros. Esse circuito cultural promoveu uma circulação intensa de textos e traduções que ajudaram a conformar uma identidade intelectual e literária regional, aproximando os livros do público leitor, em constante diálogo com os movimentos culturais nacionais e internacionais. Quanto ao processo de modernização do mercado editorial em Pelotas, analisado por Arriada e Tambara (2014), os impressos, até o século XIX, chegavam ao sul do Brasil
através de contrabando marítimo, e frequentemente eram vendidos por mascates (Leite, 2022), passando a interessar as casas de comércio regulares. Arriada e Tambara (2014) contabilizaram 35 pequenas casas editoriais em atuação na cidade de Pelotas entre 1847 e 1880. Na transição da modernização que ocorreu na cultura gaúcha entre os séculos XIX e XX, as livrarias operavam como relevante espaço de socialização. A importação de livros e periódicos estrangeiros, sobretudo franceses, seguiria forte até as primeiras
décadas do século XX, o que não obstaculizou a produção local. Apesar dessa expressiva atividade editorial no país, sobretudo no Rio Grande do Sul, atualmente percebe-se uma escassez quanto aos estudos acadêmicos na área de Letras e Literatura que se dediquem à compreensão da história da edição e da tradução, além da mediação cultural no extremo sul do Brasil. A produção permanece fragmentada, com poucas iniciativas de mapeamento das editoras no que compete aos métodos de tradução, assim como das personagens que construíram e ajudaram na construção destes espaços editoriais. Soma-se a isso a ausência de políticas de preservação da memória literária na região – sinalizada pela ausência de iniciativas públicas que registrem a importância histórica das casas tipográficas e editoriais que contribuíram para a formação cultural da cidade de Pelotas e arredores. Diante desse cenário, o projeto de pós-doutorado propõe-se a investigar as práticas editoriais e tradutórias desenvolvidas no extremo sul do país, articulando-as à construção de novas memórias, sobretudo literárias e culturais, permitindo compreender a circulação de saberes e de obras traduzidas no território regional. A pesquisa parte da hipótese de que a atividade editorial e tradutória exerceu papel fundamental na constituição de redes intelectuais, mas sobretudo no fortalecimento de novas redes coletivas no funcionamento diário das cidades que potencializaram novos saberes através dos livros, jornais, almanaques dentre outros. Acredita-se que o estudo possa contribuir não só com o programa de pós-graduação, mas com a cidade de Pelotas, realizando um levantamento bibliográfico e documental de acervos e obras traduzidas, contribuindo efusivamente para a historiografia da tradução e da editoração brasileira e regional, oferecendo subsídios para o entendimento da literatura como construção social, mediado constantemente por agentes que ressignificam seus espaços e suas instituições em busca de uma nova paisagem cultural. O projeto busca, ainda, promover uma aproximação com a comunidade, evidenciando o papel da universidade pública com a população, através de grupos de estudos, eventos científicos e ações de extensão que envolvam a comunidade com os estudos abordados. Essas atividades buscam não apenas ressignificar, mas disseminar os resultados da pesquisa para a cidade, reativando memórias através da produção de um catálogo digital, caminhadas guiadas, registros fotográficos e sinalização de pontos de interesse histórico-literário. Por fim, justifica-se a relevância pois a proposta contribui para os avanços dos estudos literários e tradutórios, para a valorização do patrimônio local e para o fortalecimento das relações entre pesquisa, ensino e extensão. O projeto, portanto, buscará reconhecer as margens geográficas, literárias e tradutórias como espaços centrais na constituição da sua diversidade cultural no extremo sul do estado gaúcho.

Metodologia

A pesquisa será desenvolvida a partir de alguns princípios da História e da Historiografia da Tradução (D’hulst, 2021), assim como da História Cultural (Chartier 1990; 2010). Essa base teórico-metodológica vai permitir com que seja possível compreender as práticas editoriais e tradutórias não apenas como registros textuais, mas como manifestaões culturais e sociais, que acompanhavam os adventos que construíram
redes culturais entre os séculos XIX e XX. De acordo com Chartier (1990), a História Cultural busca elucidar práticas, representações e costumes que se contextualizam nas sociedades, permitindo compreender, por meio da leitura e da análise documental, as condutas, escolhas e valores que orientavam os agentes e seus pares. Nesse contexto, os procedimentos metodológicos, adotados aqui neste projeto, consideram a leitura de documentos históricos e literários como um ato interpretativo e social, elevando a possibilidade de revelar as relações entre a linguagem, a memória e a identidade cultural e literária. Ainda, inspirando-se nas questões formuladas por D’hulst em "Por que e como escrever histórias da tradução?", publicado na revista Cadernos de Tradução da UFSC, em 2021, a pesquisa combinará levantamento documental, análise historiográfica e trabalho de campo, articulando a investigação científica com o ensino e as práticas
extensionistas. Nessa perspectiva, objetiva-se, também, responder às perguntas sobre "quem" traduzia, escrevia ou publicava "o que", "por que", de "que modo" e com "qual auxílio" no extremo sul do Brasil. Para tanto, será realizado um mapeamento em revistas acadêmicas, catálogos, periódicos, almanaques, livros e acervos digitais que circulavam no extremo sul do estado do Rio Grande do Sul a fim de identificar tradutores(as) que atuavam na região sul do Brasil entre os séculos XIX e XX. A pesquisa incluirá consultas em bibliotecas, Institutos, entre outros. Os dados obtidos vão compor um banco de informações sistematizado, que vai servir de base para análises posteriores, além de produtos de divulgação científica dentro da Universidade, assim como para a cidade de Pelotas. As análises irão, além de articular novos conhecimentos, possibilitar novas compreensões sobre como se configuravam as práticas editoriais e tradutórias, quem foram seus principais agentes e como essas práticas contribuíram para o universo livreiro na constituição da memória tradutória e cultural na região sul. Após o mapeamento e análise, será possível realizar visitas de campo com grupos que estejam participando dos grupos de leitura e estudos. Esses locais serão documentados fotograficamente e georreferenciados, a fim de subsidiar a criação de um roteiro cultural que integre futuras caminhadas e atividades extensionistas. Por fim, entende-se que o percurso proposto permitirá compreender as práticas editoriais e tradutórias como possibilidades discursivas de intersecção entre cultura, memória e sociedade, reafirmando o papel da pesquisa com a extensão. Além disso, busca-se reconhecer essa relação como um espaço de leitura, criação e produção de sentidos, no qual a história da tradução e a ação extensionista se encontram para reavivar a memória literária do extremo sul do Brasil.

Indicadores, Metas e Resultados

Para além do campo acadêmico, o projeto busca articular-se diretamente com a extensão universitária, convertendo os resultados da pesquisa em ações voltadas à comunidade pelotense e regional. Nesse sentido, espera-se produzir e difundir conhecimento sobre a história da tradução e da edição no extremo sul do Brasil, ampliando o acesso público à memória literária local e fortalecendo o diálogo entre universidade, patrimônio cultural e sociedade. Entre os resultados esperados, prevê-se a produção de ao menos uma publicação acadêmica em periódico científico, bem como a organização de um evento acadêmico-cultural que integre pesquisa, extensão e difusão do conhecimento. No âmbito extensionista, propõe-se a criação de um perfil em rede social dedicado à divulgação histórica e cultural do material pesquisado, além da elaboração de um roteiro de “Caminhada guiada pela história tradutória e editorial de Pelotas”, atividade que permitirá aproximar a comunidade dos espaços urbanos vinculados à memória editorial e tipográfica da cidade. Dessa forma, o projeto pretende contribuir para a valorização e a difusão do patrimônio cultural e literário da região, promovendo a integração entre pesquisa, ensino e extensão.

Como metas e indicadores específicos, destacam-se: (1) elaboração de um roteiro de “Caminhada guiada pela história tradutória e editorial de Pelotas”; (2) submissão de, no mínimo, um artigo científico a periódico da área; (3) organização de um evento acadêmico-cultural voltado à socialização dos resultados da pesquisa e à difusão da memória literária local; e (4) Catálogo digital sobre tradutores e tradutoras do extremo sul do país.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ANDREA CRISTIANE KAHMANN2
ANDRÉ RODRIGUES DA SILVA4

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