Nome do Projeto
Padrões de sono-vigília e cortisol capilar: evidências da Coorte de Nascimentos de Pelotas 2004.
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
03/07/2026 - 28/02/2028
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências da Saúde
Resumo
O sono, organizado pelo ritmo circadiano, desempenha papel central na regulação de processos cognitivos, emocionais e fisiológicos, influenciando a atividade do eixo hipotálamo–pituitária–adrenal e a secreção de cortisol. O cortisol, principal mediador hormonal da resposta ao estresse, está envolvido na regulação metabólica e em processos do sistema nervoso central, sendo consistentemente associado a desfechos metabólicos e psiquiátricos. Evidências sugerem que alterações no sono e no ritmo circadiano influenciam os níveis de cortisol, e vice-versa. No entanto, a maioria dos estudos baseia-se em autorrelatos de sono e em medidas plasmáticas ou salivares de cortisol, que refletem flutuações agudas. A incorporação de medidas objetivas de sono, como dados obtidos por acelerometria, e de marcadores cumulativos de cortisol, como o cortisol capilar, pode elucidar associações com exposição crônica ao estresse. Além disso, ainda são escassos os estudos que avaliam a direção dessas associações, especialmente em delineamentos longitudinais. O presente projeto tem como objetivo avaliar a relação entre padrões de sono-vigília (duração, eficiência e ritmo circadiano) e concentrações de cortisol, por meio de uma revisão sistemática da literatura e entre participantes da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004 durante a infância e a adolescência. No primeiro estudo, pretende-se avaliar a associação entre trajetória de duração, eficiência do sono e ritmo sono-vigília aos 6, 11, 15 e 18 anos, e concentrações de cortisol capilar aos 18 anos em um estudo longitudinal em participantes da coorte de nascimentos de Pelotas de 2004. O segundo estudo irá avaliar a relação bidirecional entre a medida de cortisol capilar e o padrão de sono e o ciclo circadiano nos adolescentes da coorte de nascimentos de Pelotas de 2004. Ambos os estudos originais serão de metodologia transversal. Por fim, também contemplará um estudo de revisão sistemática sobre a relação entre a alteração do sono e o cortisol durante a infância e a adolescência.

Objetivo Geral

Avaliar a relação entre padrões de sono-vigília (duração, eficiência e ritmo
circadiano) e concentrações de cortisol entre adolescentes participantes da
Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004 e por meio de uma revisão
sistemática da literatura.

Justificativa

Distúrbios do sono e alterações do ritmo circadiano constituem
importantes problemas de saúde pública, especialmente durante a adolescência.
Evidências recentes indicam elevada prevalência de privação de sono nessa
faixa etária, particularmente em países de renda média, onde fatores sociais,
escolares e ambientais frequentemente dificultam a manutenção de padrões
adequados de sono. No Brasil, mais de 60% dos adolescentes relatam dormir
menos horas do que o recomendado em dias de aula (HALAL; NUNES, 2021;
ALMEIDA; NUNES, 2022). Essas alterações têm sido associadas a prejuízos
cognitivos, pior desempenho acadêmico, sonolência diurna, dificuldades de
regulação emocional e maior risco de sintomas ansiosos e depressivos (OWENS
et al., 2014; SHORT et al., 2020), configurando um problema de grande
relevância para a saúde pública.
Os efeitos do sono sobre a saúde física e mental são mediados, em parte,
por mecanismos neuroendócrinos. Entre eles, destaca-se o eixo HPA, principal
sistema envolvido na resposta fisiológica ao estresse. O sono e o ritmo
circadiano exercem papel fundamental na regulação da secreção de cortisol,
enquanto alterações persistentes na atividade desse hormônio podem
comprometer a arquitetura, a duração e a regularidade do sono. Dessa forma,
sono e cortisol parecem integrar um sistema dinâmico de regulação recíproca,
no qual perturbações em um componente podem amplificar alterações no outro
(GOOLEY, 2021; LEVINE et al., 2022).
Apesar da plausibilidade biológica dessa relação, importantes limitações
permanecem na literatura. A revisão sistemática realizada no âmbito deste
projeto demonstrou que, embora medidas objetivas de sono, especialmente
actigrafia e polissonografia, tenham sido amplamente utilizadas, a avaliação da
atividade do eixo HPA concentrou-se predominantemente em medidas salivares
de cortisol. Essas abordagens são particularmente úteis para caracterizar
respostas agudas ao estresse e padrões diurnos de secreção hormonal, mas
apresentam limitações para a investigação da exposição crônica ao estresse.
Em contraste, o cortisol capilar permite estimar a exposição acumulada ao
cortisol ao longo de semanas ou meses, constituindo um biomarcador
especialmente relevante para o estudo de alterações persistentes do sono e do
ritmo circadiano (STALDER et al., 2017). No entanto, apenas uma pequena
parcela dos estudos identificados empregou essa metodologia, e menos ainda a
combinou com medidas objetivas do comportamento do sono.
A revisão também evidenciou outras lacunas importantes. A maior parte
dos estudos foi conduzida em adultos, enquanto crianças e adolescentes
permaneceram relativamente sub-representados. Essa limitação é
particularmente relevante porque a adolescência corresponde a um período de
profundas transformações biológicas, hormonais e comportamentais, marcado
por mudanças nos padrões de sono, no ritmo circadiano e na atividade do eixo
HPA. Além disso, poucos estudos avaliaram simultaneamente múltiplas
dimensões do sono, como duração, qualidade, eficiência e regularidade
circadiana, apesar de essas características serem interdependentes e
potencialmente exercerem efeitos distintos sobre a regulação neuroendócrina.
Outra lacuna importante refere-se à natureza potencialmente bidirecional
da relação entre sono e cortisol. Embora a maioria dos estudos tenha
considerado o sono como exposição e o cortisol como desfecho, evidências
crescentes sugerem que níveis persistentemente elevados de cortisol também
podem contribuir para alterações subsequentes da duração, da qualidade e da
regularidade do sono. A compreensão dessa dinâmica requer estudos
longitudinais capazes de avaliar repetidamente ambos os fenômenos ao longo
do tempo, permitindo esclarecer a temporalidade e os mecanismos envolvidos
nessa relação.
Essas lacunas tornam-se ainda mais relevantes em países de renda
média, como o Brasil, onde desigualdades socioeconômicas, insegurança
alimentar, violência, eventos climáticos extremos e outros estressores
psicossociais podem influenciar simultaneamente os padrões de sono e a
atividade neuroendócrina. Apesar desse contexto, ainda são escassos os
estudos populacionais brasileiros que integrem medidas objetivas do sono e
biomarcadores de estresse crônico durante a adolescência. Essa ausência de
evidências limita a compreensão dos mecanismos pelos quais condições sociais
adversas podem influenciar a saúde por meio de alterações neurobiológicas e
comportamentais.
Nesse contexto, a Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004 oferece
uma oportunidade única para avançar o conhecimento nessa área. Ao combinar
medidas objetivas de sono obtidas por acelerometria com dosagens de cortisol
capilar em uma grande amostra populacional de adolescentes, o presente
projeto permitirá investigar diferentes dimensões do sono e sua relação com a
atividade do eixo HPA. Além disso, a disponibilidade de dados longitudinais
possibilitará explorar a potencial bidirecionalidade dessas associações,
contribuindo para esclarecer mecanismos biológicos ainda pouco
compreendidos.

Ao integrar medidas objetivas do comportamento do sono com um
biomarcador de estresse crônico em uma das maiores coortes de nascimento de
países de renda média, este projeto apresenta elevado potencial de inovação e
impacto científico. Seus resultados poderão contribuir para a compreensão dos
mecanismos que conectam estresse, sono e saúde durante um período crítico
do desenvolvimento humano, além de subsidiar estratégias de prevenção,
intervenções precoces e políticas públicas voltadas à promoção da saúde do
sono e à redução dos efeitos do estresse crônico na adolescência.

Metodologia

A apresentação da metodologia dos três estudos planejados foi dividida
em três itens. No primeiro item (8.1), será descrita a metodologia utilizada no
primeiro artigo (Artigo 1: Duração e eficiência do sono e ritmo sono-vigília por
acelerometria e sua relação com cortisol capilar em participantes da coorte de
nascimentos de Pelotas de 2004, aos 15 anos do participante). Em seguida na
sessão 8.2, será descrita a metodologia do segundo estudo original também
utilizando dados da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004 (Artigo 2:
Avaliação da relação bidirecional da medida de cortisol capilar e padrão de sono
e ciclo circadiano nos adolescentes da coorte de 2004. A Coorte de Nascimentos
de Pelotas de 2004, de onde serão utilizados os dados para condução no artigo
1 e artigo 2 será apresentada logo abaixo. Na seção seguinte, no terceiro e último
item (8.3), será descrita a metodologia do estudo de revisão sistemática (Artigo
3: Avaliação da relação entre alteração de sono e cortisol durante a infância e
adolescência: Uma revisão sistemática).
O Estudo de Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004:
A Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004 é um estudo longitudinal de
base populacional que incluiu todos os nascidos vivos ocorridos na cidade de
Pelotas (RS) entre janeiro e dezembro de 2004, cujas famílias residiam na área
urbana do município. Das 4.263 crianças identificadas, as mães de 4.231
(99,2%) aceitaram participar, constituindo o estudo perinatal e a linha de base
da coorte. O objetivo geral do estudo é acompanhar o crescimento,
desenvolvimento e condições de saúde dos participantes ao longo da infância,
adolescência e vida adulta.

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Até 2022, a coorte realizou múltiplos acompanhamentos, nos seguintes
períodos: 3, 12, 24 e 48 meses, e aos 6, 11, 15 e 18 anos de idade. No perinatal,
as mães foram entrevistadas nas maternidades e forneceram informações
socioeconômicas, demográficas, comportamentais e reprodutivas, bem como
sobre uso de serviços de saúde, práticas de amamentação e morbidades. Os
recém-nascidos passaram por avaliações clínicas padronizadas.
Os acompanhamentos dos 3, 12, 24 e 48 meses foram realizados no
domicílio, com entrevistas às mães e exames físicos nas crianças. Foram
coletados dados sobre condições socioeconômicas e demográficas, utilização
de serviços de saúde, padrões alimentares, estilo de vida, crescimento,
desenvolvimento infantil e morbidade desde o nascimento.
O acompanhamento dos 6 anos (2010/2011) ocorreu na clínica do Centro
de Pesquisas Epidemiológicas (CPE) da Universidade Federal de Pelotas.
Incluiu avaliação detalhada da saúde infantil e materna, dieta, estilo de vida,
condições de moradia, comportamentos de saúde e qualidade de vida. Foram
realizadas medidas antropométricas, composição corporal, pressão arterial,
espirometria, atividade física por acelerometria e testes cognitivos e de saúde
mental.
Aos 11 anos (2015), as crianças e suas mães retornaram à clínica do
CPE. As mães responderam questionários sobre saúde e cuidados com a
criança, características familiares e maternas, saúde e qualidade de vida. As
crianças responderam questionários sobre rotina escolar, sono, atividade física,
alimentação, eventos estressores, uso de telas, percepção corporal, lócus de
controle, saúde bucal, menstruação (quando aplicável) e um módulo
confidencial. Também foram realizadas avaliações antropométricas, composição
corporal, pressão arterial, espirometria e aplicação de testes cognitivos e de
saúde mental.
O acompanhamento dos 15 anos (2019–2020), realizado presencialmente
antes do início da pandemia de COVID-19, seguiu protocolo semelhante. Foram
aplicados questionários à mãe e ao adolescente, incluindo informações sobre
saúde, eventos estressores, qualidade de vida, escolaridade, trabalho, lazer,
comportamentos, saúde bucal, menstruação e gravidez (para meninas), namoro

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e saúde mental. Além disso, foram coletadas medidas antropométricas,
composição corporal, pressão arterial e amostras biológicas, incluindo cortisol
capilar. Testes cognitivos e de saúde mental foram aplicados tanto aos
adolescentes quanto às mães ou responsáveis.
O acompanhamento dos 18 anos foi realizado de maneira presencial entre
21 de fevereiro de 2022 e 30 de dezembro de 2022, dividido em duas etapas:(1)
entrevistas com aplicação de questionário do jovem e da mãe na residência do
participante e (2) medidas e avaliações complementares no Centro de Pesquisas
Epidemiológicas (CPE) Dr. Amilcar Gigante da UFPel. Ao todo, foram coletados
dados referentes a 3.489 jovens, correspondendo a uma taxa de
acompanhamento de 85,0%.
Detalhes completos dos métodos da coorte estão descritos em
publicações prévias (SANTOS et al., 2011; SANTOS et al., 2014). A Tabela 1
apresenta o número de participantes e taxas de seguimento em cada uma das
ondas, incluindo os acompanhamentos dos 15 e 18 anos.

Indicadores, Metas e Resultados

Este projeto de tese, intitulado: Padrões de sono-vigília e cortisol capilar:
evidências da Coorte de Nascimentos de Pelotas 2004.foi elaborado conforme
as normas do regimento do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia
(PPGEpi) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Durante o período de
doutorado serão desenvolvidos três artigos:

Artigo 1: Associação entre trajetória de duração, eficiência do sono e ritmo
sono-vigília aos 6, 11, 15 e 18 anos, e concentrações de cortisol capilar aos 18
anos em um estudo longitudinal em participantes da coorte de nascimentos de
Pelotas de 2004
Artigo 2: Avaliação da relação bidirecional da medida de cortisol capilar e
padrão de sono e ciclo circadiano nos adolescentes da coorte de nascimentos
de Pelotas de 2004
Artigo 3: Avaliação da relação entre alteração de sono e cortisol durante a
infância e adolescência: Uma revisão sistemática

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
BÁRBARA BERRUTTI
LUCIANA TOVO RODRIGUES1
MARINA XAVIER CARPENA

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