Nome do Projeto
Narrativas do Movimento: pesquisa-formação em educação física e dança
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
01/10/2025 - 30/09/2029
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Linguística, Letras e Artes
Resumo
Este projeto de pesquisa-formação propõe investigar a interface entre a dança e a formação de professores/profissionais de Educação Física (EF), com foco nas experiências e vivências dos estudantes. A justificativa central reside na compreensão da EF como área que tem o movimento humano (“se-movimentar”) como centralidade, e da dança como uma forma de arte e de “ser-no-mundo” fundamental para a formação humana e profissional (Garaudy, 1980; Kunz, 2017). O projeto argumenta que a arte, e em especial a dança, oferece um espaço para a experiência estética e o saber sensível, elementos cruciais em um contexto social de fragmentação e aceleração (Bondía, 2002; Petit, 2024). Embora a EF não vise formar bailarinos, ela historicamente serve como principal via de acesso à dança na escola (Strazzacappa, 2007), tornando essencial a tematização desse conteúdo na formação inicial. O foco é a formação humana, que transcende a técnica e se baseia na construção de saberes plurais, incluindo os saberes da experiência (Tardif, 1991). O objetivo geral é investigar como a dança contribui para a formação em EF a partir das trajetórias de vida dos estudantes. A metodologia se ancora na pesquisa-ação (Barbier, 2002; Thiollent, 2009) e na pesquisa-formação narrativa (Josso, 1999; Abrahão, 2003), utilizando narrativas (auto)biográficas, diários de campo e registros audiovisuais para a coleta de dados. Os resultados esperados incluem a consolidação de um grupo de estudos em dança e a produção de conhecimento teórico-reflexivo e estratégias formativas para o ensino da dança na EF.

Objetivo Geral

Objetivo
O projeto tem por objetivo geral investigar as interfaces entre dança e a formação dos professores/profissionais de educação física a partir das experiências e vivências dos estudantes.

Objetivos Específicos

investigar as trajetórias de vida de estudantes do curso de educação física que tenham experiências e/ou relação com dança;
pesquisar como a dança pode contribuir na formação dos futuros professores/Profissionais;
desenvolver ações e estratégias formativas para o ensino da dança a partir das experiências dos investigados;

Justificativa

Este projeto visa investigar como a dança pode fazer parte da formação em Educação Física a partir das seguintes questões: Por que devemos trabalhar a dança, ou a arte na formação de futuros professores/profissionais de Educação Física? O que devemos trabalhar no campo da dança com os estudantes? Quais as contribuições da arte e da dança na formação? Quais as experiências e vivências relacionadas à dança os estudantes trazem ao ingressar no curso? Quais as dificuldades e possibilidades de se trabalhar com esse tema na formação?
Estas perguntas provocativas nos levaram a escrever este projeto, porque corroboramos com Garaudy (1980):
a dança não é apenas uma arte, é uma forma de viver! A dança é um modo de existir. Não apenas jogo, mas celebração, participação e não espetáculo, a dança está presa à magia e à religião, ao trabalho e à festa, ao amor e à morte. Os homens dançaram todos os momentos solenes de sua existência: a guerra e a paz, o casamento e os funerais, a semeadura e a colheita. (GARAUDY, 1980, p.13)
Garaudy (1980, p.13) inicia seu livro, com a seguinte pergunta: Que aconteceria se, em vez de apenas construirmos nossa vida, tivéssemos a loucura ou a sabedoria de dançá-la? Essa é uma pergunta provocativa, o que seria de nós se ao invés de simplesmente vivermos, dançassemos a nossa vida? O que o autor quer dizer com isso?
Segundo o autor:
a palavra dança, em todas as línguas européias — danza, dance, tanz —, deriva da raiz tan que, em sânscrito, significa "tensão". Dançar é vivenciar e exprimir, com o máximo de intensidade, a relação do homem com a natureza, com a sociedade, com o futuro e com seus deuses. Dançar é, antes de tudo, estabelecer uma relação ativa entre o homem e a natureza, é participar no movimento cósmico e do domínio sobre ele. (GARAUDY, 1980, p. 14)
Este pode ser o primeiro motivo, a educação física enquanto área do conhecimento e campo de atuação profissional tem como centralidade o movimento humano, ou o se-movimentar (KUNZ, 2017) no mundo, o movimento do sujeito em sua completude, repleto de sentidos e significados, a totalidade do ser humano na ação: sua sensibilidade, percepção, intuição, criatividade e liberdade. Sendo assim, a dança como forma de existir, de ser-no mundo e a arte tornam-se fundamentais na formação profissional e humana de todos nós, e em especial, dos professores/profissionais de educação física que irão mediar o envolvimento (BISPO, 2023) dos seus alunos com o se-movimentar no mundo.
Petit (2024), em seu livro Somos Animais Poéticos: a arte, os livros e a beleza em tempos de crise, nos provoca a pensar sobre a necessidade humana da arte e nossa, talvez inata, condição de animais poéticos. Segundo a autora, o utilitário nunca basta, pois, como sabemos através de nossa história, a mais de quarenta mil anos criamos obras de arte, bem antes de inventarmos a moeda ou até mesmo a agricultura, o ser humano já produzia objetos e práticas artísticas, para recordar, marcar eventos, celebrar, desejar, comunicar-se. Potes ornados, pinturas em paredes de cavernas, ritos, danças, são exemplos de quanto o ser humano precisa da arte em sua vida.
Com o passar do tempo e o advento dos processos civilizatórios, em especial, a partir da industrialização e mais recentemente, na modernidade, com a revolução tecnológica e a informatização, as sociedades mudam, ao mesmo tempo que tivemos uma transformação significativa nas formas de ser e estar no mundo, ampliamos a exploração dos recursos naturais, tivemos um crescimento das grandes cidades e transformações nas formas de produção. Esse quadro em certa medida possibilitou, a um maior número de pessoas, o acesso a um conjunto de bens materiais e imateriais, entre eles, o acesso à arte, mas não sem uma contradição, fomos passando cada vez mais de produtores para consumidores, não vivenciamos, consumimos a arte.
Na medida que as sociedades se desenvolvem, as formas de produzir a vida e o viver cotidiano vão se fragmentando, somos obrigados a acelerar nossa forma de viver, de ser, tornando nossa existência muitas vezes uma forma constante somente de consumir. Para Petit (2024), necessitamos da arte, da beleza, o ser humano precisa, para lidar com a crueza da realidade, do que Caferte (citado por Petit, pg.12, 2024), chama de inútil essencial, pois somos seres de desejo não só de necessidade. O ser humano precisa desejar, experienciar, viver de forma intensa, algo que cada vez temos menos tempo para acontecer, como afirma Bondía (p. 21, 2002), a cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. Assim, a arte, neste contexto torna-se o espaço/tempo do deleite, do prazer, de experimentar o corpo, o movimento, seus sentidos, em um mundo cada vez mais digital, mais individual e virtual.
E a dança como arte do corpo, talvez seja uma das formas mais intensas de vivermos, pois concordando com Maldonato (2023), o corpo é, campo de eterna luta de pulsões e desejos encarnados no pensamento, no humor, na moral (p. 22), e também nos gestos e movimentos.
A educação física não busca formar bailarinos, dançarinos, ou profissionais da dança, mas, não podemos negar a dança na sua constituição, considerando que historicamente um dos principais caminhos para se ter contato com o movimento e com a dança, é/foi a escola, em especial através da educação física. Neste sentido Strazzacappa (2007) destaca que:
não é à toa que em estados nos quais não existem cursos superiores de dança aconteça um movimento quase natural daqueles que começam a estudar dança nas academias e estúdios de dança optarem pelo curso de Educação Física, pois não apenas seu contato com o universo da dança se deu dentro do ambiente escolar junto ao(à) professor(a) desta disciplina, como, numa primeira vista, os conteúdos do curso de Educação Física são os que aparentemente mais se aproximam do universo da dança. (STRAZZACAPPA, 2007, p. 18).
Dentro da educação física é importante tematizarmos e vivenciarmos a dança, ou as danças, por ser ainda esse um espaço de formação de sujeitos que veem da dança ou que se identificam com a dança, por ser a dança ainda trabalhada nas escolas por muitos professores de educação física, mas principalmente, porque dentro da formação profissional e humana de quem passa por um curso de educação física a dança é a maior possibilidade de experienciar a arte no seu próprio corpo, de vivenciar um saber sensível e estético que difere dos demais saberes, em geral, trabalhados no curso.
Este projeto busca investigar a formação humana, para além da formação técnica pois na formação de professores, ou de qualquer profissional que atue com outros seres humanos, é fundamental considerarmos que o mundo da ação pedagógica não é o mesmo da técnica (techne), no qual regras fixas regulam ações para conseguir metas, tampouco pertence a um mundo totalmente determinado por leis e estruturas externas (Sacristán, 1999, p. 59).
Sacristán (1999), chama a atenção para o fato de que, nós que atuamos na formação de outras pessoas, não temos o controle prévio da experiência e o conhecimento sobre nossas ações, pois estas se realizam entre seres com liberdade, com experiências e trajetórias diversas, além de se darem em um contexto que não é neutro, portanto, fruto de um processo de construção.
Construção esta, que em nossa perspectiva passa pela busca de uma experiência, no sentido que Bondía (2002) defende, como sendo algo que realmente nos atravesse, que nos acontece, que nos toca. A experiência está ligada a emoção e a razão, ao sensorial e ao fazer, a participação nos processos criativos coletivos, as apresentações, a experiência estética, as elaborações racionais e intuitivas ligadas a criação, ensaios, apresentações, que possibilitam aos estudantes uma experiência no campo da arte, pois como afirma Petit (p. 23, 2024), a arte é a vida transfigurada, que impede a dissolução do ser.
Considerando que o saber dos professores é, na verdade, composto de vários saberes provenientes de diferentes fontes e esses saberes são: saberes das disciplinas, saberes curriculares, saberes da formação profissional e saberes da experiência (Tardif, 1991, p.216). A existência desses múltiplos saberes dão origem a um saber plural, o saber do professor, nos interessa saber como o conteúdo dança, dialoga com esses saberes presentes na formação em educação física para pensarmos atividade formativa significativas para os estudantes.
Assim, este projeto justifica-se pela necessidade de investigações e ações articuladas que potencializem a formação a partir dos diferentes componentes e conteúdos que perpassam a educação física e seu objeto de conhecimento.

Metodologia

Metodologicamente o projeto se caracteriza, principalmente, como uma pesquisa-ação (BARBIER, 2002), e como uma pesquisa-formação (JOSSO, 1999). Nossas metodologias estarão ancoradas em paradigma emergente onde o conhecimento é total, mas sendo total, é também local (Sousa Santos, 1995), constitui-se ao redor de temas que, em dado momento, são adaptados por grupos sociais concretos como projetos de vida locais. Cada ação, cada estudo, em diferentes dimensões demandará escolhas de estratégias metodológicas que serão definidas em conjunto pelo grupo, ao longo da construção contínua do projeto.
Como bases para nossas abordagens metodológicas podemos destacar estudos de cunho qualitativos, através da pesquisa-formação narrativa (JOSSO, 1999; ABRAHÃO, 2003), pesquisa-ação (THIOLLENT, 2009; BARBIER 2002), A pesquisa (auto)biográfica utiliza mecanismos de rememoração, que são essenciais ao narrador na construção/reconstrução da sua subjetividade (Abrahão, 2003), fundamental há reabilitação progressiva do sujeito e do ator enquanto centralidade da pesquisa (Josso, 1999).
A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e na qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (THIOLLENT, 2009, p.16).
As estratégias para coleta e produção dos dados se dará através de narrativas (auto)biográficas dos participantes, registros fotográficos e de vídeo, diários de campo das experiências vividas, bem como poderão ser utilizadas entrevistas, observações, questionários ou outra forma de registro que seja adequada aos objetivos da pesquisa.
Procedimentos da pesquisa
Organização e divulgação da pesquisa e seus objetivos para os estudantes do curso de Educação Física;
Definição de um grupo inicial de trabalho;
Elaboração de um roteiro para coleta das narrativas (auto)biográficas dos estudantes da disciplina Práticas Corporais Dança;
Análise das narrativas dos estudantes;
Construção de estratégias de ensino voltadas à potencialização da dança enquanto conteúdo da formação inicial em educação física.
Elaboração de relatórios de pesquisa e publicação em revistas acadêmicas.
Avaliação ao final de cada semestre dos procedimentos e instrumento de coleta, para reelaboração e qualificação do processo para aplicação nas turmas seguintes.

Indicadores, Metas e Resultados

Espera-se que ao longos dos 4 anos de projeto possamos:
Criar, organizar e consolidar um grupo de estudos e práticas em dança na ESEF;
Produzir estudos teórico-reflexivos, pesquisas, relatórios de pesquisa, relacionados com a prática da dança no curso de EF;
Produzir e submeter artigos em periódicos, livros, ebooks, apresentação de trabalhos em eventos acadêmicos e científicos locais, regionais, nacionais e internacionais;
Desenvolver e registrar metodologias de ensino da dança para estudantes de Educação Física;
Produzir e apresentar trabalhos em eventos artístico-científicos.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ANA BEATRIZ SCHNEIDER OLIVEIRA
ANA CAROLINA FREITAS SILVA
MARCELO SILVA DA SILVA10
NATHANAEL PERES MARTINS
VITORIA BARBOSA CORREA GALLO PESTANO

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