Nome do Projeto
Formação de Recursos Humanos em Zootecnia de Precisão ZOOPREC/UFPEL
Ênfase
ENSINO
Data inicial - Data final
19/06/2015 - 19/05/2016
Unidade de Origem
Área CNPq
Ciências Agrárias - Zootecnia - Ecologia dos Animais Domésticos e Etologia
Resumo
Atualmente existe uma grande preocupação com o bem estra animal, tanto na área dos pets, quando na produção no agronegócio. Nessa última área a pressão do mercado econômico tem exigido cada vez mais maior produtividade o que em geral pode conflitar com o Bem-Estar Animal (BEA) e a Bioética associada a questão. Visando buscar soluções a essa dialética os Cursos de Graduação e Pós-Graduação das IFES incluíram em seus currículos a formação em BEA. Na UFPEL os Cursos de Zootecnia (Graduação e Pós-Graduação) da FAEM possuem a abordagem da questão em disciplinas e mesmo em Linhas de Pesquisa e Grupos de Trabalho. Nesse contexto está inserido o Grupo de Zootecnia de Precisão (ZOOPREC) que dentre suas ações em ensino prevê a formação de recursos humanos capazes de interagir nesse cenário buscando a produção associada ao bem-estar através de uma zootecnia de precisão. A presente proposição prevê a regularização das ações em ensino exercidas pelo ZOOPREC na PRG, uma vez que, as mesmas já estão credenciadas na pesquisa, extensão e prestação de serviços.

Objetivo Geral

O projeto tem o objetivo geral da formação, qualificação, reciclagem e educação continuada de recursos humanos para atuar na área de Zootencia de Precisão enfatizando o bem estar animal.

Justificativa

A pressão dos mercados consumidores por alimentos mais saudáveis, com menores concentrações de resíduos químicos e pelo maior bem-estar dos animais está fazendo com que os modelos tradicionais de produção sejam repensados em determinados aspectos. O objetivo deste trabalho foi identificar as principais linhas teóricas no contexto da Economia, que poderiam ser utilizadas para o desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao bem-estar animal em sistemas agroindustriais. Propõe-se que a teoria neoclássica do consumidor e da firma, e a nova economia institucional, com ênfase nos custos de transação, de mensuração e no papel do ambiente institucional podem, conjuntamente, proporcionar um arcabouço teórico bastante completo para a análise da questão.
(http://www.fatece.edu.br/arquivos/arquivos%20revistas/empreendedorismo/volume3/3.pdf )
Essa pressão primeiramente na Europa e, mais recentemente, em países emergentes, por alimentos mais saudáveis, com menores concentrações de resíduos químicos e pelo maior bem-estar dos animais (BEA), está fazendo com que os modelos tradicionais de produção sejam repensados em determinados aspectos. No caso das galinhas poedeiras para a produção de ovos, por exemplo, a preocupação com as condições em que esses animais vivem nos sistemas convencionais de criação é tamanha que a União Europeia criou uma série de medidas em relação ao seu bem-estar, como a proibição do uso de gaiolas convencionais que vem sendo aplicadas desde 2006. As poedeiras, juntamente com os bezerros criados para carne de vitela e os gansos para o patê de Fois Gras, foram considerados os animais que precisavam de mudanças mais urgentes em termos de bem-estar nos sistemas de criação europeus (PASIAN; GAMEIRO, 2007).
Devido à distância entre os setores produtores e os consumidores, muitas veze, é necessário o estabelecimento de mecanismos para amenizar a assimetria de informações entre os mesmos, de modo que, o consumidor possa tomar decisões de escolha baseados em informações relevantes, mas que não conseguiria processar sem a sinalização desses mecanismos. Trata-se, portanto, de iniciativas que garantam a qualidade (intrínseca, subjetiva) dos produtos, como a certificação, a rastreabilidade ou o apelo de uma marca, por exemplo. No que se refere à regulamentação pública, essa pode ser uma via importante para o desenvolvimento do bem-estar animal, pois, reflete os anseios da sociedade organizada e impõe de certa forma, padrões desejados a um sistema produtivo, independentemente de sua viabilidade econômica ou das preferências dos consumidores. Portanto, o conhecimento e a elaboração de leis e normas são fundamentais no contexto. Em síntese, Gameiro (2007) propôs quatro dimensões para a análise da concepção de bem-estar animal em sistemas produtivos: I) comportamento do consumidor; II) viabilidade técnico-econômica; III) políticas privadas de coordenação de sistemas; e IV) políticas públicas relacionadas à questão do bem-estar animal.
Sobre a questão do bem-estar animal - A definição de bem-estar animal adotada no contexto é aquela proposta por Broom (1986), segundo a qual “bem-estar de um indivíduo é seu estado em relação às suas tentativas de se adaptar ao seu ambiente”. Na literatura em Português tem-se a referência de Broom e Molento (2004). Rahmann (2003) sugere que a discussão sobre o bem-estar animal deve iniciar pelo esclarecimento da questão “Why do humans keep animals?” Segundo ele o estabelecimento de padrões de criações deve considerar as diferentes funções, os valores éticos e as percepções das pessoas envolvidas. No último século, os animais domésticos foram alterados de seu múltiplo propósito para um único propósito. A maioria dos sistemas de produção modernos é de alta produtividade e especializados na produção de um único produto. Isso foi possível devido ao avanço tecnológico proporcionado pela ciência. Mas os custos de controlar os fatores limitantes só podem ser pagos com a elevada produtividade. Segundo McGlone (2001), é inegável a importância que bem-estar animal vem ganhando ultimamente. Porém, para o autor, há dois problemas que surgem no contexto: 1) como definir e mensurar quando o bem-estar animal é adequado; e 2) como tratar o assunto do bem-estar animal quando o mesmo compete com outras questões, tais como as econômicas, as de comércio internacional, as ambientais, de segurança de alimentos, dentre outras. O autor, objetivando responder à primeira pergunta, apresenta uma lista de atributos que fazem parte do que considera “bem-estar animal”. Seu artigo é importante no sentido de apresentar uma visão completa acerca do que a sociedade deveria entender tecnicamente por bem-estar animal. De uma forma geral, o autor afirma que o conceito de bem-estar animal deve estar ajustado ao de sustentabilidade. Assim, o sistema de produção deve estar em harmonia com o ambiente, com os animais, com os trabalhadores e com a comunidade, e ainda ser economicamente competitivo.
Webster (2001) apresenta uma completa visão sobre a questão do bem-estar animal à luz da Economia na atualidade: “It will be my argument that a similar approach to living with the free market can be applied to promote the welfare of farm animals by promoting their value”. A responsabilidade dos consumidores estaria na necessidade de conversão de um desejo expresso de melhorar o bem-estar animal em uma demanda efetiva pelos produtos de sistemas que o consideram. Um caminho importante nesse sentido é o de definição de esquemas de controle de qualidade que garantam auditoria independente para a verificação das efetivas práticas de bem-estar animal. Este autor aborda o tripé que representa com bastante propriedade a importância da multidisciplinaridade do bem-estar animal: fatores científicos, éticos e econômicos. Observa-se, portanto, que assim como McGlone (2001), Webster também defende a questão da multidisciplinaridade.
No Brasil, o trabalho de Molento (2005) apresenta-se como o percussor no que se refere ao assunto do bem-estar animal à luz da Teoria Econômica. Baseada em grande parte no completo trabalho de McInerney (2004) a autora aborda questões como o conceito de bem-estar animal, sua visão do ponto de vista econômico e sua inserção no mundo e no Brasil.
De uma forma geral, os produtores reconhecem que sistemas de produção que contemplam o bem-estar dos animais apresentam custos de produção mais elevados. Essa conclusão foi obtida, por exemplo, pelo estudo minucioso de Stott et al. (2005) junto à produção ovina na Grã-Bretanha. Goddard et al. (2006), também analisando o sistema de produção ovina na Grã-Bretanha, ratificam a ideia de que os sistemas de produção que visam ao bem-estar animal devem ser mais intensos em fatores de produção cujos preços são mais elevados, o que implicará em custos adicionais.
Segundo Spedding (1994), os custos geralmente mais elevados são um dos principais entraves ao desenvolvimento de sistemas de produção que contemple o bem-estar animal. Estudos mais recentes, tanto no exterior quanto no Brasil, vem sendo desenvolvidos no sentido de fornecer subsídios para a questão da viabilidade econômica dos sistemas de produção alternativos. Há como referência de pesquisas que contemplam os custos de sistemas de bem-estar animal, os trabalhos de Dallacosta (2004) com suínos criados ao ar livre, e de Paranhos da Costa e Chiquitelli Neto (2003), relacionado ao manejo de bovinos de corte. Ambos destacam os ganhos econômicos com tais sistemas.
Raineri et al. (2012) apresentam uma ampla revisão sobre as pesquisas em BEA na Zootecnia que se preocuparam em considerar aspectos econômicos em suas análises. Tem-se observado na literatura que, sob a ótica da produção, outras questões além do custo técnico de produção são fundamentais no contexto, tais como o estabelecimento de estratégias empresariais e mercadológicas.
Outro assunto relacionado ao estudo do bem-estar animal refere-se ao comportamento do consumidor. Este desempenha papel central no contexto. Diante do suposto custo mais elevado de produção, devido aos investimentos em bem-estar animal, o consumidor precisa estar disposto a arcar com parte desses investimentos, via a aceitação de preços mais elevados para os produtos finais, como já foi mencionado.
Bennet et al. (2002), utilizando-se de ferramentas de Psicologia, dedicaram-se ao estudo da propensão das pessoas a pagarem por questões relacionadas ao bem-estar animal. Segundo os autores, a influência da percepção moral das pessoas apresenta forte relação com sua propensão a pagar. As pesquisas de Pasian (2007) e Tavares (2007) analisaram a variação de preços entre produtos animais originados dos sistemas convencionais vis-a-vis aqueles originados de sistemas que consideram o bem-estar animal. Ambas consideraram o Empreendedorismo, Gestão e Negócios (Empreendedorismo, Gestão e Negócios, v. 3, n. 3, Mar. 2014, p. 49-66 mercado varejista na cidade de São Paulo). A primeira autora estudou os preços de ovos e concluiu que aqueles originados de sistemas de criação diferenciados (caipira e orgânico) foram até 126% superiores aos dos sistemas convencionais. A segunda estudou os preços da carne bovina orgânica e concluiu que esses podem ser até 160% superiores ao da carne convencional, considerando os mesmos cortes.
Como já comentado, a questão da coordenação dos sistemas produtivos, via certificação, por exemplo, é fundamental no contexto, uma vez que é ela que deve garantir aos consumidores o acesso às informações necessárias e pertinentes para a tomada de decisão pela escolha ou não de determinado produto, em especial quando as características de qualidade são subjetivas.
Noordhuizen e Metz (2005) analisaram o conceito de “qualidade” englobando a questão do bem-estar animal. Conceição et al. (2005) apresentam um completo estudo sobre a certificação e a rastreabilidade no agronegócio brasileiro. Pitelli et al. (2005) identificam problemas evidentes na certificação de carne bovina e açúcar no Brasil. Segundo os autores, a fiscalização das certificadoras tem sido esporádica, gerando uma fonte de incerteza quanto à origem dos produtos. Além da tradicional “certificação auditada” – aquela na qual há instituições devidamente regularizadas para garantir a origem dos produtos –, Brancher (2005) trabalha com uma nova forma de certificação, denominada “certificação participativa”. São certificações que surgem dos processos participativos, a partir do que se chama de redes de credibilidade ou de geração de confiança. Estas redes se estabelecem fundamentalmente em mercados locais e regionais (BRANCHER, 2005).
Segundo Zylbersztajn (2000), o consumidor é o ponto focal para onde converge o fluxo dos produtos de um sistema agroindustrial (SAG). O produto final é adquirido pelo consumidor para satisfazer as suas necessidades alimentares, que variam de acordo com a renda, preferências, faixa etária e expectativas entre outros aspectos. O autor salienta que o consumidor moderno vem apresentando algumas mudanças que são fruto da globalização dos hábitos e padrões, preocupação com a qualidade e aspectos de saúde, valorização do seu tempo, o que tem implicações na valorização dos atributos que caracterizam um certo produto e que determine a decisão final do consumidor. Os consumidores urbanos geralmente estão distantes da etapa de produção, uma vez que, boa parte das grandes redes de supermercados os abastece nacionalmente. Assim, a informação deve estar plenamente coordenada, caso ela seja demandada pelo consumidor final. Isto pode exigir relações muito complexas entre os agentes (Empreendedorismo, Gestão e Negócios 55 Empreendedorismo, Gestão e Negócios, v. 3, n. 3, Mar. 2014, p. 49-66) produtivos, que extrapolam aquelas transações típicas de mercado, onde apenas preços e quantidades são as variáveis de decisão (ZYLBERSZTAJN, 2000).
Na pesquisa de Tavares (2007) foi evidenciado que 74% dos consumidores entrevistados alegaram não consumir carne bovina orgânica por falta de oportunidade, 11% alegaram falta de condições financeiras para arcar com os custos mais elevados e 5% alegaram falta de informação. Apenas 11% justificou o não-consumo pela falta de interesse. Essas informações mostram que há potencial para o aumento no consumo do produto, desde que: 1) mais oportunidades lhes sejam dadas (em especial o aumento na oferta do produto); 2) que suas rendas sejam mais elevadas; 3) e que mais informações lhes sejam disponibilizadas. A possibilidade no aumento do consumo do produto orgânico ficou ainda mais evidente quando os consumidores foram questionados se teriam interesse nesse consumo: 85% dos entrevistados afirmaram que sim.
Pasian (2007) estudou o comportamento do consumidor de ovos e concluiu que a maior preocupação dos consumidores, no que se refere à forma de criação das galinhas, é se as mesmas receberam antibióticos e outros aditivos (hormônios etc.), sendo que essa foi preocupação de 57% dos entrevistados. Outros 49% afirmaram se preocupar se os animais foram criados de forma cruel; 23% dos consumidores disseram que não têm mecanismos para saber como foi o sistema de criação das aves. Finalmente, 36% afirmaram não se importar com o sistema de criação das aves. Portanto, a questão do acesso à informação sobre cada produto e sistema de produção envolvido acaba sendo bastante relevante para o adequado funcionamento dos mercados. Dessa forma, surge como aspecto central, a coordenação dos sistemas produtivos. Tal coordenação é necessária para que a assimetria de informações seja adequadamente tratada no contexto.
Comportamento do consumidor - A pergunta chave é: O consumidor deseja produtos derivados de animais que foram tratados sob determinadas condições mínimas de bem-estar?
Considerando a proposição de resposta “não”: Consumidores cujas respectivas funções de utilidade não incluem a preocupação ética com os animais, simplesmente não desejam consumir os produtos com BEA; ou, pelo menos, são indiferentes em relação à questão. Por conseguinte, não há justificativa para a oferta (produção) de tais produtos. Como resultado, inexistiria mercado para esses produtos, desestimulando o estabelecimento desses sistemas produtivos. Em assim sendo, a única possibilidade de se alterar a situação seria influenciar diretamente às funções de utilidade dos consumidores, que só poderia acontecer em decorrência de alguma mudança social.
Considerando a proposição de resposta “sim”: Consumidores que não são indiferentes em relação ao BEA estão dispostos a demandarem os produtos em questão. Em existindo a demanda, deve-se identificar a disponibilidade de os consumidores pagarem por tais produtos. Entende-se que esta é a dimensão básica da temática sobre o bem-estar animal em sistemas produtivos. Desejar que os animais tivessem sido criados sob condições que garantam uma razoável qualidade de vida é claramente uma questão ética e, como tal, inerente a cada ser humano. É este desejo que condiciona o clássico willingness to pay (disponibilidade a pagar) de cada consumidor. A Economia Neoclássica apresentou significativos avanços no entendimento do consumidor, muito embora o tratamento empírico da função de utilidade individual ainda é um desafio, uma vez que o tratamento objetivo dos desejos pessoais é algo inerentemente complexo para tratamento formal. Em termos empíricos, conhecer os desejos dos consumidores e sua disponibilidade a pagar (mais) por produtos originados de sistemas que respeitem os animais apresentam-se como suas principais linhas para uma agenda de pesquisa.
Políticas públicas relacionadas à questão do bem-estar animal - A pergunta chave é: Há mecanismos públicos para garantir a adoção de sistemas que respeitam o bem-estar animal?
Considerando a proposição de resposta “sim”: O estabelecimento de um ambiente institucional público (leis, normas, decretos, órgãos de fiscalização) que reflita os anseios da sociedade por tecnologias que respeitem os preceitos do BEA objetivaria reduzir custos de transação/mensuração, de modo a tornar economicamente viável esses sistemas produtivos. A regulamentação desses sistemas criaria um mercado para seus produtos, visto que a oferta dentro dos padrões desejados estaria garantida mediante definição de padrões e de sua devida fiscalização (enforcement). A demanda existente, portanto, poderia ser atendida em um mercado regulamentado.
No Brasil pode-se dizer que os primeiros passos nesse sentido já foram dados, como detalhado em Pasian e Gameiro (2007). Já há normas que regem alguns dos sistemas alternativos de produção. Na Europa, a regulação em prol do bem-estar animal encontra-se bastante avançada. Um artigo referencial nesse assunto é o de Bennett (1997). No artigo, o autor procura mensurar a disponibilidade da sociedade britânica em pagar por políticas que defendam o bem-estar animal, especialmente para a proibição de ovos em gaiolas sobrepostas (battery cages) na União Europeia. Broom (2006) também aborda amplamente a questão das políticas públicas europeias. No Brasil, devido à incipiência das leis, os artigos relacionados ainda são raros (ZANELLA, 2000; MOLENTO, 2003; MOLENTO, 2005).
Conclui-se que a teoria econômica neoclássica do consumidor e da firma, e a nova economia institucional, com ênfase nos custos de transação, de mensuração e no papel do ambiente institucional podem, conjuntamente, proporcionarem um arcabouço teórico bastante completo para a análise da questão do bem-estar dos animais de produção nos sistemas agroindustriais.
As questões relativas ao bem-estar animal precisam ocupar lugar de destaque nos debates éticos, com vistas a se evitar dor e sofrimento desnecessários as espécies de interesse zootécnico, bem como índices de morbidade e mortalidade elevados oriundos das "doenças de produção” presentes nos sistemas intensivos de criação.

Neste contexto, surgiram posicionamentos abalizados que coincidem ou conflitam quanto a questão central em conceituar bem-estar animal. Compulsando os trabalhos sobre o tema constata-se que geralmente os autores incluem em suas definições parâmetros biológicos e físicos, além de aspectos emocionais subjetivos. Um conceito clássico foi formulado pelo professor Donald Broom, da Universidade de Cambridge, em 1986: ''bem-estar de um indivíduo e seu estado em relação as suas tentativas de adaptar-se ao seu ambiente” (in Frazer e Broom, 1997). Quando as condições são difíceis, os indivíduos usam vários métodos para tentar reagir aos efeitos adversos que lhes são impostos; o comportamento pode ser usado para alterar o estado motivacional e assim aliviar distúrbios psicológicos extremos, como durante a dor ou outras condições desagradáveis, onde os opióides peptídicos no cérebro exercem um efeito analgésico, fazendo o animal reduzir a aversão através da auto narcotização (Frazer e Broom, 1997).
Por sua vez, Broom e Molento (2004) sugeriram que uma definição deve permitir um vínculo imediato com outros conceitos, tais como: necessidades, liberdade, felicidade, adaptação, controle, capacidade de previsão, sentimentos, sofrimento, dor, ansiedade, medo, tedio, estresse e saúde. Na visão de Hotzel e Pinheiro Machado Filho (2004), o bem-estar pode variar de muito ruim a muito bom e pode ser avaliado cientificamente a partir do estado biológico do animal e de suas preferências. Eles avaliaram que quando os animais são submetidos a um estresse prolongado ou crônico, ocorrem efeitos adversos no sistema imunológico, na reprodução e no crescimento. De acordo com Duncan (2005) uma ampla descrição de bem-estar deverá incluir noções do animal em completa saúde mental e física, o animal em harmonia com seu ambiente e estando apto a adaptar-se sem sofrimento a um ambiente artificial provido pelo homem, e que de alguma forma os sentimentos do animal sejam levados em consideração. Em suma, Webster (2005) já enfatizava que o bem-estar de um ser senciente e determinado pela sua capacidade de evitar sofrimento e manter-se saudável, que significa bem-estar físico (livre de doença, injuria e incapacidade), sendo isto relevante quando tais problemas podem ser atribuídos diretamente a maneira como os animais são reproduzidos e as condições nas quais são criados (ex.: laminite em frangos e gado leiteiro pode resultar do fenótipo ou de instalações inadequadas, bem como da combinações de ambos).
As estatísticas de organismos oficiais sempre invocam a necessidade de se incrementar a oferta de proteína animal para suprir a fome no mundo, particularmente nos países pobres, contudo pouco se tem a comemorar no que tange as questões de cunho ético envolvendo a produção animal, uma vez que boa parte dos técnicos, produtores e consumidores ainda relegam a um plano secundário o status moral dos animais de produção destinados ao abate, mesmo sendo eles considerados por muitos estudiosos como seres sencientes. Em suma, toma-se imperioso um diálogo ameno entre os atores soc1ms envolvidos, onde a ética reformule seus postulados com vistas a uma melhor aceitação das recentes conquistas científicas e a ciência reconheça os seus limites rumo aos novos paradigmas impostos pela biologia molecular, engenharia genética e biotecnias reprodutivas em sua aplicação a ciência animal. (Costa, 2015)
Nesse contexto foi criado o projeto Conceitos em Bem-Estar Animal Subprojeto: Contribuição à Literatura Portuguesa sobre Bem-Estar Animal onde as Universidades que possuem Cursos da área de Agronomia, Zootecnia e Medicina Veterinária de todos continentes sensibilizadas com essa realidade e mesmo com a legislação referente a área introduziram informações, rotinas, disciplinas curriculares e criaram grupos de estudos dentro dessa área de Bem-Estar Animal (BEA). Um exemplo da ação globalizada desse projeto está no estudo traduzido por Hewson et al. (2007) onde docentes de 13 escolas de Medicina Veterinária na Europa, América do Norte, América do Sul e Australásia resumem como o bem-estar animal é ensinado aos estudantes em suas respectivas faculdades e como os estudantes são avaliados. Nessa mesma tradução outros três artigos no volume traduzido descrevem o ensino de bem-estar animal na Universidade de Sidney, Austrália (1), na Escola de Veterinária de Ontário, Canadá (2) e no Reino Unido (3). Um quarto artigo delineia um curso de bem-estar animal e ética desenvolvido para escolas de veterinária pela Sociedade Mundial de Proteção Animal (World Society for the Protection of Animals - WSPA) (4). Os cursos descritos fazem referência a bem-estar animal em sentido mais amplo que somente saúde e produção. Por ser parte do programa das respectivas faculdades, o treinamento em bem-estar animal é obrigatório para graduação em todas estas faculdades. Entretanto, os requerimentos curriculares são mais extensos em algumas escolas que em outras, geralmente refletindo as variações nos requerimentos dos órgãos regulamentadores em regiões diferentes.
Nessa mesma direção foi elaborada a Dissertação de Mestrado normas de bem-estar animal da academia aos agentes sanitaristas (IMPROTA, 2007) de onde extraímos o resumo a seguir que sintetiza a problemática do Bem-Estar Animal na produção Zootécnica.
As questões relativas às condições de bem-estar dos animais, durante os últimos anos, vêm sendo abordadas com mais intensidade graças ao questionamento da sociedade em relação às formas de exploração animal dentro da visão industrial que busca o máximo de produtividade das espécies exploradas. Este posicionamento levou a Organização Mundial de Saúde Animal - OIE a assumir, em seu papel de organismo normatizador internacional para as questões de saúde animal, a responsabilidade de organizar as normas de bem-estar animal para os 167 países membros. Inicialmente foram aprovadas, por unanimidade, diretrizes sobre o transporte e o abate de animais. Este trabalho teve como objetivo levantar a percepção que a academia e os médicos veterinários sanitaristas têm em relação às citadas normas. A metodologia utilizada foi quali-quantitativa, com ênfase qualitativa, através da aplicação da técnica da Análise do Discurso do Sujeito Coletivo. Foi feito um resgate histórico dessa legislação, desde a história antiga até a atual. O trabalho mostra que os países se apresentam em estágios díspares. No caso do Brasil, a legislação ainda é insuficiente para atender as diretrizes recentemente aprovadas em âmbito internacional. Resgatou-se através dos tempos o papel do médico veterinário, bem como do ensino profissional, e sua relação com a produção e o bem-estar dos animais. Foram estudados aspectos sócio profissionais dos médicos veterinários e dos docentes de cursos de Medicina Veterinária de Santa Catarina. A ausência de renovação de pessoal por 20 anos, entre os profissionais sanitaristas, refletiu significativamente na caracterização sócio profissional entre os subgrupos, influenciando as suas percepções. Entre os profissionais de ensino constatou-se uma relação direta entre a idade média do grupo e o tempo de existência do curso, demonstrando a abertura de um campo novo de trabalho para os jovens profissionais. Os docentes percebem a importância do ensino de etologia e BEA, como temas que devem ser ministrados de forma obrigatória e interdisciplinar. Eles reconhecem a importância da OIE como entidade normatizadora, a valorização das normas, a necessidade de seu cumprimento, porém divergem quanto à sua aplicabilidade, com enfoques pedagógicos, produtivistas ou céticos. A carência de uma legislação nacional específica tem levado ao estudo de legislações paralelas e estrangeiras. A necessidade do engajamento dos órgãos de classe e governamentais, da academia, da pesquisa, da defesa sanitária, dos setores produtivos e associativos comunitários e da sociedade em geral ficou evidente nos vários discursos. As percepções dos coordenadores são coincidentes com as dos docentes, de uma forma geral. Em relação aos profissionais sanitaristas, estes percebem que há necessidade de uma legislação específica que respalde as suas ações, bem como uma formação profissional, tanto na graduação como na pós-graduação, sobre o tema. O manejo preconizado pela OIE para o transporte e a estabulação pré-abate é considerado como ideal pelo grupo e, em relação ao sacrifício, percebe-se uma tendência mais humanitária e outra mais sanitarista. Em relação a BEA, de uma forma geral, evidenciaram-se três perfis básicos: os humanitários, os fisiologistas e os produtivistas, de forma distinta ou mesclada.
Na área de Zootecnia, outro exemplo que podemos apresentar é o estudo de Costa e Nogueira (2012) que consideraram essencial que profissionais cuja atividade esteja diretamente relacionada à exploração animal aprendam durante a graduação as bases conceituais do Bem-Estar Animal (BEA) e suas principais aplicações. Existe uma demanda crescente da atuação do Zootecnista que leve em consideração o bem-estar dos animais de produção e em alguns países existe legislação específica para de animais de produção. Isso cria uma exigência de que a produção animal leve em conta a qualidade de vida dos animais utilizados. Os autores desenvolveram um trabalho cujo objetivo foi fazer um diagnóstico do grau de conhecimento dos alunos do curso de Zootecnia do IFCE – Campus Crato sobre os conceitos atuais de BEA. Através de uma pesquisa quali-quantitativa observaram que ainda há uma grande deficiência com relação aos conceitos relacionados ao bem-estar animal e praticamente nenhum reconhecimento do Bem-Estar animal como uma Ciência. Os autores concluíram que há a necessidade urgente em se introduzir de alguma forma, de preferência como disciplina curricular, a discussão do Bem-Estar animal na formação do Zootecnista do IFCE – Campus Crato como Ciência, tendo em vista os benefícios ao profissional como conhecedor e disseminador da ciência.
Na UFPEL essa necessidade de estudos relacionados ao Bem-Estar Animal está atendida por disciplinas ministradas na grade Curricular da Graduação e Pós-Graduação em Zootecnia da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel. Reforçando o atendimento a essa necessidade foi criado o ZOOPREC, Grupo de Zootecnia de Precisão da UFPEL onde existe um ambiente de discussão e qualificação de discentes, requalificação e educação continuada de profissionais da área e produção técnico-científica de materiais em BEA na produção Zootecnica de ruminantes, não ruminantes e na apicultura. Buscando registrar e regularizar na área de ensino as ações executadas pelo grupo de estudos é proposta a implantação do presente projeto de Ensino.

Metodologia

As atividades do ZOOPREC serão realizadas semanalmente através das seguintes ações:
1) Reuniões de estudos onde ocorrerão leituras de manuais, protocolos e similares,
2) Seminários apresentados pelos Colaboradores e participantes abrangendo temas sobre bem estar animal;
3) Palestras com especialistas da área da UFPEL e de outras IFES abordando temas atuais sobre a área;
4) Elaboração de protocolos e outros produtos que possam ser utilizados nas atividades de pesquisa e extensão, assim como, prestação de serviços;
5) Redação de projetos, resumos, resenhas e outros documentos para publicação e disseminação dos conhecimentos apropriados nas atividades do ZOOPREC;
6) Outras atividades e ações compatíveis com os objetivos do presente projeto e com a política de atuação e formação do ZOOPREC.

Resultados Esperados

Como resultados espera-se que os participantes:
1) Frequentem pelo menos 75% das reuniões;
2) Sejam capazes de apropriar-se dos conhecimentos e filosofia da área tornando-se multiplicadores da área;
3) Produzam materiais para divulgação das ações do grupo permitindo a disseminação dos saberes por meios eletrônico, impresso, vídeos e, mesmo, oralidade;
4) Contribuam a expansão da área.

Em relação aos impactos espera-se que a formação inicial, requalificação ou reciclagem continuada permita o desenvolvimento de ações e posturas que auxiliem na solução da dicotomia produção x bem estra animal da melhor maneira possível oportunizando a produtividade com a qualidade, como diz a lema do grupo "Do pasto ao prato",

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ADROALDO JOSE ZANELLA1
ANA PAULA NEUSCHRANK ALBANO219/06/201519/05/2016
BIANCA PETER GONÇALVES319/06/201519/05/2016
CARLA COMERLATO JARDIM319/06/201519/05/2016
CAROLINE GONÇALVES LOTUFO319/06/201519/05/2016
CRISTIANO HAETINGER HUBNER319/06/201519/05/2016
ERICK TONELLO BARRETO506/07/201519/05/2016
FERNANDA CAROLINE BALLEJO RIBEIRO319/06/201519/05/2016
GLADIS FERREIRA CORREA2
ISABEL LENZ FONSECA319/06/201519/05/2016
ISABELLA DIAS BARBOSA SILVEIRA319/06/201519/05/2016
JERRI TEIXEIRA ZANUSSO219/06/201519/05/2016
JOANE POTTES TREBIEN319/06/201519/05/2016
JOICE DA SILVA RAMSON319/06/201519/05/2016
LUANA GOES FERREIRA BOTELHO319/06/201519/05/2016
LUIZ FERNANDO MINELLO219/06/201519/05/2016
MABEL MASCARENHAS WIEGAND219/06/201519/05/2016
MARCO ANTONIO AFONSO COIMBRA219/06/201519/05/2016
NIEDI HAX FRANZ ZAUK219/06/201519/05/2016
PAULO MOTA BANDARRA219/06/201519/05/2016
RENATA ESPÍNDOLA DE MORAES319/06/201519/05/2016
ROBERTA VÖLZ KRAUSE319/06/201519/05/2016
RUTIELE NOLASCO RICKES319/06/201519/05/2016

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