Nome do Projeto
Efeitos do composto CMI (3-[(4-clorofenil)selanil]-1-metil-1H-indol) sobre o eixo microbiota intestino-cérebro e o comportamento tipo depressivo em camundongos com colite induzida por sulfato de dextrana sódica (DSS
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
12/02/2026 - 01/12/2027
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Biológicas
Resumo
Um crescente corpo de evidências destaca a relação bidirecional entre colite, depressão e microbiota intestinal. Até 40% dos pacientes com doença inflamatória intestinal (DII), incluindo colite, frequentemente apresentam sintomas depressivos e de ansiedade, não totalmente explicados pela carga da doença (Hu et al., 2025). Em vez disso, a inflamação intestinal ativa respostas imunes sistêmicas, rompe a barreira intestinal e promove a sinalização neuroinflamatória por meio do eixo intestino-cérebro (Cryan et al., 2019). Essa cascata pode perturbar a homeostase do sistema nervoso central e contribuir para transtornos de humor (Hu et al., 2025). Ao mesmo tempo, a disbiose intestinal contribui para a inflamação local e sistêmica, impactando ainda mais a função cerebral (Hu et al., 2025; Mauro et al., 2025). Esses mecanismos posicionam o eixo intestino-cérebro-microbiota como um alvo terapêutico promissor em transtornos que envolvem disfunção intestinal e afetiva (Hu et al., 2025; Mauro et al., 2025). O selênio, um micronutriente essencial com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, surgiu como um modulador da saúde intestinal, influenciando a integridade da barreira, a composição da microbiota e a resposta imune (Kudva et al., 2015). Nosso grupo de pesquisa na Universidade Federal de Pelotas (Brasil) tem investigado o CMI (3-[(4- clorofenil) selanil ]-1-metil-1H-indol), um composto contendo selênio com eficácia demonstrada na reversão de comportamentos depressivos e ansiosos em múltiplos modelos pré-clínicos (Casaril et al., 2019; Casaril et al., 2020). Apesar de sua eficácia neuroprotetora, o impacto do CMI na fisiologia intestinal, na imunidade da mucosa e na microbiota permanece inexplorado.

Objetivo Geral

Investigar se o composto CMI é capaz de modular o eixo MIC e atenuar o comportamento do tipo depressivo em camundongos C57BL/6 com colite induzida por DSS, por meio da avaliação integrada de parâmetros comportamentais, bioquímicos, moleculares, histológicos e microbianos.

Justificativa

O selênio é um micronutriente essencial com reconhecidas propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e imunomoduladoras, desempenhando papel central na manutenção da homeostase intestinal e cerebral. Evidências demonstram que a suplementação ou o uso de compostos contendo selênio pode modular a resposta imune intestinal, a integridade da barreira epitelial e a composição da microbiota, interferindo positivamente em condições inflamatórias intestinais, como a colite (Kudva et al., 2015; Zhao et al., 2023; Zhao et al., 2024).
De acordo com isso, nosso grupo de pesquisa desenvolveu e caracterizou o composto CMI, uma molécula sintética contendo selênio, com comprovada atividade neuroprotetora e tipo antidepressiva em diferentes modelos pré-clínicos. Estudos prévios demonstraram que o CMI reverte comportamentos do tipo depressivo e ansioso em camundongos submetidos ao estresse agudo de restrição (Casaril et al., 2019) e em modelos de inflamação sistêmica e tumoral (Casaril et al., 2020). Esses efeitos foram associados à redução da neuroinflamação, modulação das vias BDNF/mTOR e serotoninérgica, e diminuição do estresse nitro-oxidativo, indicando um amplo espectro de ação neuroimune. Além disso, o CMI demonstrou perfil de segurança favorável, uma vez que doses de até 50 mg/kg não induziram toxicidade hepática ou renal (Casaril et al., 2019; 2020), reforçando sua adequação para o uso em modelos experimentais. Entretanto, até o momento, nenhum estudo avaliou se o CMI é capaz de modular o eixo MIC e influenciar o comportamento do tipo depressivo em camundongos com colite induzida por DSS, lacuna que este projeto pretende preencher.
A colite induzida por DSS é um modelo experimental amplamente validado para investigar os mecanismos da doença inflamatória intestinal e suas repercussões sistêmicas. Além de reproduzir características histopatológicas e imunológicas observadas em pacientes com esta doença, o modelo também leva ao desenvolvimento de alterações comportamentais associados à depressão, permitindo o estudo integrado do eixo MIC (Cryan et al., 2019; Hu et al., 2025). Considerando que cerca de 40% dos pacientes com doença inflamatória intestinal apresentam sintomas de depressão (Hu et al., 2025), o modelo DSS se mostra altamente adequado para explorar o potencial terapêutico do CMI na modulação desse eixo.
A escolha da linhagem dos camundongo C57BL/6 neste estudo baseia-se em sua ampla utilização em modelos de colite e neurocomportamentais, apresentando respostas imunológicas, inflamatórias e oxidativas bem caracterizadas, além de ampla disponibilidade de dados comparativos na literatura (Lee et al., 2021). Essa linhagem demonstra alta sensibilidade à indução de colite por DSS, exibindo perda de peso, encurtamento do cólon, infiltração inflamatória, alterações na microbiota intestinal e aumento de citocinas pró-inflamatórias — condições que replicam aspectos da colite humana (Lee et al., 2021; Rana et al., 2025).
É importante ressaltar que a concentração de 2% de DSS é adequada para induzir colite moderada em camundongos C57BL/6, evitando mortalidade elevada e permitindo a investigação integrada de parâmetros comportamentais e microbianos sem comprometimento severo do estado geral dos animais. Ademais, está descrito na literatura que o tratamento com 2% de DSS em camundongos C57BL/6 provoca uma resposta inflamatória significativa, porém moderada, associada a baixa mortalidade dos animais (Kim et al., 2021).
Além disso, modelos de colite em camundongos C57BL/6 induzem alterações comportamentais análogas à depressão, caracterizadas por aumento de imobilidade no TNF e TSC, bem como redução da exploração no campo aberto (Yu et al., 2021; Huang et al., 2023). Essa combinação de reatividade inflamatória intestinal e vulnerabilidade comportamental torna a linhagem ideal para investigar a interface entre inflamação intestinal e distúrbios de humor.
Serão utilizados camundongos C57BL/6 machos e fêmeas para contemplar possíveis diferenças sexuais nas respostas neuroimunes e comportamentais, visto que a prevalência de depressão é significativamente maior em fêmeas, e há evidências de dimorfismo sexual na resposta inflamatória intestinal e na composição da microbiota (Yu et al., 2021;). É importante destacar que machos e fêmeas C57BL/6 apresentam diferenças sexuais nas respostas neuroimunes e comportamentais frente à inflamação intestinal, com fêmeas frequentemente exibindo maior suscetibilidade à alterações da microbiota intestinal (Tse et al., 2018). Assim, a inclusão de ambos os sexos neste projeto é essencial para ampliar a relevância translacional dos resultados e compreender possíveis mecanismos de ação diferenciados do CMI.
Dessa forma, este projeto se justifica por integrar evidências robustas de eficácia neuroprotetora do CMI com a necessidade de explorar seus efeitos sobre a homeostase intestinal e a microbiota, em um modelo pré-clínico relevante para a interface entre inflamação intestinal e transtornos de humor. A abordagem proposta é inovadora e contribui para o avanço do conhecimento sobre terapias baseadas em selênio voltadas ao eixo MIC.

Metodologia

Para este estudo, serão utilizados camundongos C57BL/6 (8 semanas de idade), machos e fêmeas. A colite será induzida nos animais com 2% de sulfato de dextrana sódica (DSS) diluído em água potável, oferecida ad libitum entre os dias 1 e 5 do protocolo experimental, de acordo com Chassaing et al., (2014). Os animais dos grupos controle e per se receberão apenas água durante o mesmo período. Entre os dias 4 e 8 do protocolo experimental, os animais serão tratados com CMI (10 mg/kg, i.g.) ou óleo de canola (10 mL/kg, i.g., veículo), de acordo com o grupo experimental.
Os grupos experimentais serão:
Machos:
1) Grupo Controle: Água + Óleo de canola (10mL/kg, i.g.);
2) Grupo Per se: Água + CMI (10mg/kg, i.g.);
3) Grupo Induzido: DSS (2% em água) + óleo de canola (10mL/kg, i.g.);
4) Grupo Tratado: DSS (2% em água) + CMI (10mg/kg, i.g.).
Fêmeas:
5) Grupo Controle: Água + Óleo de canola (10mL/kg, i.g.);
6) Grupo Per se: Água + CMI (10mg/kg, i.g.);
7) Grupo Induzido: DSS (2% em água) + óleo de canola (10mL/kg, i.g.);
8) Grupo Tratado: DSS (2% em água) + CMI (10mg/kg, i.g.).

A dose de 10 mg/kg de CMI foi selecionada com base em estudos prévios do grupo (Casaril et al., 2019; Casaril et al., 2020), nos quais essa concentração administrada por via i.g. apresentou efeito tipo antidepressiva e anti-inflamatória significativo. Nesses estudos, a dose mostrou-se segura, sem causar efeitos tóxicos aparentes ou alterações comportamentais inespecíficas.
O início do tratamento no dia 5 foi definido para coincidir com o término da fase de indução da colite (dias 1–5 com DSS 2%), permitindo avaliar o potencial terapêutico do CMI na fase inflamatória ativa, sem interferir no estabelecimento do modelo. O tratamento foi mantido até o dia 8 para abranger o período de manifestação clínica da colite e viabilizar a análise integrada dos efeitos comportamentais, inflamatórios e microbianos.
Após o período de indução e tratamento (dia 8, 30 minutos após o último tratamento), os animais serão submetidos aos testes comportamentais, incluindo o TCA, TSC e TNF, com o objetivo de avaliar a atividade locomotora e exploratória, bem como o comportamento do tipo depressivo (conforme descrito no item 14 – Resumo dos procedimentos).
Em seguida, os animais serão eutanasiados por superdosagem de isoflurano, seguida de confirmação por deslocamento cervical, conforme as normas éticas vigentes. Serão coletadas amostras de sangue, hipocampo, córtex pré-frontal e intestino para análises bioquímicas, moleculares e histopatológicas.
Além disso, amostras fecais serão coletadas individualmente nos dias 1 (basal), 5 (antes do início do tratamento) e 8 (final do protocolo experimental) para análises de microbioma, pH e teor de água. Essa estratégia permitirá avaliar as alterações na composição microbiana ao longo do experimento, em especial em resposta ao tratamento, além de possibilitar uma caracterização abrangente da resposta intestinal e microbiana dos animais.
Cabe salientar, que os animais serão monitorados diariamente quanto ao peso corporal, comportamento geral, consumo de água e ração, aparência física e presença de sinais clínicos de colite (diarreia, sangue nas fezes, piloereção, apatia). O Índice de Atividade da Doença (DAI) será utilizado para quantificação da severidade dos sintomas e critérios de endpoint humanitário (perda de peso ≥ 20%, prostração, dor intensa ou sangramento persistente) serão aplicados conforme descrito no item 14 (Chassaing et al. 2014).

Indicadores, Metas e Resultados

Este projeto visa preencher essa lacuna investigando se o CMI pode modular o eixo intestino-cérebro-microbiota em um modelo murino de colite com comportamento comórbido do tipo depressivo. Nossa hipótese é que o CMI pode restaurar a homeostase intestinal – melhorando a função de barreira, reduzindo a inflamação intestinal e remodelando a microbiota – o que, por sua vez, atenuaria a neuroinflamação e melhoraria os desfechos relacionados ao humor.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
CRISTIANE LUCHESE
LAUREN NETTO PUJOL
LUCIELLI SAVEGNAGO25
RAFAELA XAVIER DE MORAES
RENATA LEIVAS DE OLIVEIRA

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