Nome do Projeto
Projeto de Pesquisa: Trabalho e trabalhadores da indústria de pescado no sul do Brasil
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
01/06/2020 - 13/07/2021
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Humanas
Resumo
A indústria pesqueira instalada na cidade de Rio Grande, litoral sul do estado gaúcho, desempenhou, até a década de 1980, um papel importante na economia regional e nacional. A partir dos anos 90, fatores como sobrepesca e ociosidade das instalações fabris, comprometeram as atividades do setor resultando em falências, desemprego e precarização do trabalho. O estudo pretende reconstituir aspectos da experiência, do cotidiano e das identidades dos trabalhadores da pesca de Rio Grande ao longo de um trajeto histórico que se estende desde a década de 1960, momento em que se deu a industrialização da atividade pesqueira no âmbito do Estado autoritário, até a década de 1990, quando, em meio ao avanço do processo democrático, desenhou-se uma situação de crise estrutural da pesca no Atlântico Sul. O recorte abarca as formas de dominação e resistência estabelecidas no contexto da Ditadura Civil-Militar, como também a atualização dessas relações na democracia liberal.

Objetivo Geral

O estudo tem por objetivo de descrever e analisar aspectos do cotidiano do trabalho e do modo de vida dos trabalhadores e trabalhadoras da pesca durante o boom do setor (1960 – 1980) e na década de 1990, momento de reconfiguração da pesca regional.
Nos limites desta pesquisa, a categoria “trabalhadores da pesca” engloba diferentes grupos de produtores diretos, comportando desde pescadores artesanais, cuja reprodução, material e simbólica, diz respeito a uma “produção simples”, mercantil e comunitária, até pescadores sujeitos a relações capitalistas de produção, isto é, cuja sobrevivência depende do trabalho nos barcos de arrasto e nas traineiras, passando pelos trabalhadores e trabalhadoras empregadas das unidades de beneficiamento de pescado.
No tocante a força de trabalho empregada nas industrias e unidades de beneficiamento de pescado, entre os aspectos abordados na investigação, cabe destacar: a origem e as formas de recrutamento dos trabalhadores, as relações familiares e de vizinhança, bem como a descrição, de acordo com os próprios produtores, das suas atividades econômicas. Neste caso, sobrelevando, na análise do processo produtivo, os vínculos entretecidos entre os diferentes segmentos de trabalhadores e destes com os patrões e seus prepostos.
Outrossim, procurar-se-á avançar na descrição das atividades econômicas dos pescadores, artesanais e assalariados, que labutavam nos botes na desembocadura da Laguna e na orla marítima da cidade, mas também dos pescadores empregados dos barcos que devassavam as águas do Atlântico Sul.
A partir da perspectiva dos pescadores será reconstituído o cotidiano nas embarcações, as relações entre tripulantes e destes com o ambiente natural. Procurar-se-á assinalar noções e valores mediante os quais os trabalhadores identificavam a si mesmos e aos seus outros.

Justificativa

A heterogeneidade que caracteriza as relações de produção e trabalho na sociedade brasileira depende, em grande parte, das modalidades regionais, e mesmo particulares, dos empreendimentos econômicos ensejando situações que podem comportar desde o trabalho assalariado, tal como se vê nos grandes centros industriais, mas também recriando modalidades mistas de dominação capitalista. Não se trata de desconsiderar a experiência do trabalho nos centros urbano-industriais, mas, simplesmente, de chamar a atenção para o fato de que tal centralidade não justifica o apagamento de outras trajetórias. Afinal, o reconhecimento da diversidade das relações de produção e trabalho e dos modos de dominação de classe, em diferentes contextos espaço-temporais, constitui um momento necessário para a construção de interpretações históricas mais ricas e complexas dos mundos do trabalho (PETERSEN, 1995; COSTA, 2001; BATALHA, 2006).
Neste sentido, o estudo pretende valorizar a memória de grupos de produtores diretos ligados a pesca com vistas à escritura de uma história social do trabalho ancorada na experiência de segmentos de trabalhadores que, apesar de importantes na composição da classe trabalhadora regional e nacional, permanecem desprovidos da cidadania historiográfica.
Interpelado pelo meu tempo, “surpreendido”, como tantos outros, pela escalada do autoritarismo, cujo avanço - pari passu a dilapidação das forças produtivas (meio ambiente e trabalho) - ameaça nossa capacidade de, como coletividade, projetar um futuro, decidi retomar o estudo sobre os mundos do trabalho mediante uma revisão/ampliação de um Projeto de Pesquisa sobre os Trabalhadores da Pesca iniciado durante estágio pós-doutoral no PPGANT da UFRGS. O diálogo com o presente se dá através da tentativa de compreender, de um lado, como, no passado recente, trabalho e natureza foram capturados por sistemas de dominação repressivos, consoantes com modalidades de exploração predatórias, particularizados, entre outras coisas, por estabelecer pontes com a matriz colonial e escravocrata do país. Não obstante, de outro lado, busca-se entender como esse arcaísmo, presente nos espaços de trabalho, cedia lugar ao "imaginário do progresso" que, de modo indireto, ou apropriado como propaganda pelo regime autoritário, conferia legitimidade a Ditadura Civil-Militar.

Metodologia

Procedimentos
A escassez de fontes escritas sobre o trabalho do setor pesqueiro riograndino e gaúcho e, principalmente, a possibilidade de escrever a história dos trabalhadores a partir dos seus próprios termos, explicam a opção pela metodologia da história oral. Neste ponto, os documentos oficiais, apesar da sua importância, tendo em vista que permitem confrontar e ou completar as informações e representações obtidas nas entrevistas, apresentam um papel complementar. Para contatar as pessoas que trabalharam ou trabalham nas indústrias de pescado, além da mediação do Sindicato dos Alimentos da cidade de Rio Grande, será possível contar com o apoio de familiares, amigos e vizinhos e, a partir desses contatos, espera-se criar e expandir uma rede de colaboradores. Em relação aos pescadores embarcados vale ressaltar o estabelecimento de contatos, desde dezembro de 2019, com antigos pescadores da Vila da Barra, tradicional comunidade pesqueira da cidade, em particular com o senhor “Guizo”, hoje aposentado, que pescou em bote, em barcos de malha, traineiras e atuneiros, foi pescador de convés, gelador e contramestre. Seu Guizo, além das memórias sobre a pesca, constitui um importante colaborador, legitimando minha presença na comunidade e facilitando a interação com outros pescadores.
Outrossim, foi de suma importância o estabelecimento de conversas com o presidente da Associação dos Pescadores Artesanais da Colônia Z 3, localizada na Ilha dos Marinheiros, tradicional comunidade de pescadores artesanais do estado sulino. Graças a mediação da associação, através de seu presidente, Nilton Machado - ele próprio pescador artesanal, filho e neto de pescadores - será possível contatar outros pescadores, inclusive os mais velhos, portadores de uma memória que remonta ao passado colonial, mas também participar da vida cotidiana da comunidade e, através da observação direta, conhecer aspectos de seu modo de vida. Tal proximidade será fundamental na elaboração de vínculos afetivos e de confiança que, certamente, qualificaram a pesquisa.
Ao longo da pesquisa, durante as situações caracterizadas pela interação entre pesquisador e sujeitos da pesquisa, o método mobilizado será da “observação direta” completada por questionamentos imediatos, isto é, a participação nos eventos será, sempre que possível, acompanhada de perguntas relativas aos detalhes, variações, comparações com outros acontecimentos etc.. As informações e representações obtidas no campo - acontecimentos observados, informações dadas, relatos de atividades ou cerimônias - serão registradas num caderno de notas. Outrossim, será utilizado um diário. Redigido dia a dia, o diário, além de ajudar no exame das notas, permitirá registrar as rotinas que organizam o cotidiano, mas também acontecimentos notáveis, contribuindo para pôr em perspectiva a vida social dos sujeitos. Além de ser fonte de informações e de representações apropriadas para a pesquisa, a observação direta “pavimenta” o caminho para a realização das entrevistas.
Neste estudo optou-se pela realização de entrevistas temáticas e semiestruturadas cujo roteiro, embora sujeito a alterações, aborda tópicos como: origens sócio/espaciais, relações familiares, mobilidade geográfica e social, educação formal e informal, sociabilidade, moradia, formas de contratação/recrutamento, práticas econômicas, regime de trabalho, direitos trabalhistas, relações com patrões, sindicato e partidos políticos. Assim como a observação direta, a entrevista constitui um procedimento dialógico e, portanto, apto a incorporar assuntos, noções e questões introduzidas pelos próprios entrevistados.
A centralidade conferida a metodologia da história oral, apoiada na observação direta, não significa o abandono de outros procedimentos. Neste sentido, cabe destacar o levantamento e análise de documentos - escritos e imagens - realizado junto aos arquivos do Núcleo de Memória da Universidade Federal do Rio Grande (NUME/FURG). Tais materiais serão utilizados com vistas à obtenção de representações, patronais e governamentais, acerca de noções como trabalho, progresso, natureza e crise. Em se tratando das coleções fotográficas do NUME, por exemplo, foi possível perceber que, ligado à celebração de obras e realizações públicas, é recorrente uma visão de progresso que enaltece os feitos da técnica e concebe a natureza como recurso ou matéria passiva. As imagens e documentos, inclusive os jornais, possibilitam confrontar e/ou completar as informações e representações (orais e imagens) obtidas junto aos trabalhadores. Outrossim, operando numa escala mais ampla, a análise deste material permitirá avançar na compreensão das concepções e valores que a sociedade produziu em relação ao mar-oceano, trabalho, técnica e indústria. Neste sentido, dentre os documentos já examinados, cabe destacar o projeto “Atlântico Sul”, texto produzido por técnicos da Universidade do Rio Grande, no inicio dos anos 1970, com o objetivo de dar suporte científico para a atividade pesqueira nos mares austrais. O referido projeto é sintomático de uma concepção de desenvolvimento unilateral, isto é, marcada por um viés economicista. Por um lado, valoriza, sobremodo, os aspectos técnicos e de mercado e, de outro, apresenta pouca, ou nenhuma, sensibilidade para questões relacionadas ao meio ambiente e as condições de trabalho da cadeia do pecado. Pode-se dizer que o projeto “Atlântico Sul” reforçava a política governamental para o setor oferecendo um aporte técnico com vistas a maximizar a produção/lucratividade das empresas, mas também, à medida que produzia um discurso afinado com os interesses dos donos de frotas e/ou instalações fabris, conferia legitimidade à economia predatória e concentradora de renda. A redução do ambiente natural a simples condição de matéria-prima guarda correspondência com uma visão conservadora acerca das relações de trabalho, revelada pelo silêncio do texto em relação àqueles que, com seu trabalho, sustentavam a cadeia do pescado.
Muitos historiadores, de variados campos historiográficos, têm recorrido aos periódicos para suas pesquisas. Tal comportamento resulta da recepção das propostas teóricas e metodológicas identificadas a chamada “Nova História” (LUCA, 2008). O vínculo entre mídia e poder é constitutivo da sociedade moderno-contemporânea, aliás, não é incomum que governos de diferentes matizes políticos procurem estreitar e ou controlar as mídias tendo em vista a produção da opinião pública. De modo mais específico, ao analisar os jornais será levado em conta uma série de aspectos externo ou materiais: tais como: aparência física (formato, tipo de papel), qualidade da impressão, capa, presença ou ausência de ilustrações, a estruturação dos conteúdos, as relações com com o mercado, a publicidade e o público visado (LUCA, 2008; CAPELATO, 2015). Complementar a análise externa, a análise interna ou simbólica prioriza o posicionamento ideológico dos jornais. Neste sentido, é possível conceder certa prioridade, mas não exclusividade, aos editorais dos jornais tendo em vista apreender as ideias defendidas pelos proprietários do veículo de comunicação (CAPELATO, 2015, p. 131).
Em relação ao uso de imagens para fins de pesquisa histórica, atualmente, fala-se de uma “revisão definitiva da definição de documento e da revalorização das imagens como fontes de representações sociais e culturais” (KNAUSS, 2006, p.102). Essa guinada pictográfica ou visual, que vai pari passu com a afirmação da história das representações, com a história, do imaginário, com a antropologia histórica e outras tendências da historiográfica contemporânea, promove, em certa medida, um reencontro do historiador com as imagens:
A “história com imagens” é consentânea com o interesse pelas várias dimensões sociais, reflete uma atitude de abertura diante da diversidade humana favorecendo abordagens histórico-antropológicas voltadas para a reconstituição dos modos de vida dos grupos sociais. Tal argumento ganha importância, principalmente, quando se leva em conta que “a imagem se identifica com uma variedade de grupos sociais que nem sempre se identificam pela palavra escrita” (KNAUSS, 2006, p. 100).
Enquanto representações de um real imaginado por um sujeito histórico num contexto espaço-temporal particular, a imagem, através de uma linguagem própria, mobiliza e remete a significados que participam da construção do universo social. Á media que:
[...] os significados não são tomados como dados, mas como construção cultural. Isso abre um campo para o estudo dos diversos textos e práticas culturais, admitindo que a sociedade se organiza, também, a partir do confronto de discursos e leituras de textos de qualquer natureza — verbal escrito, oral ou visual (KNAUSS, 2006).
Pode-se dizer que, as representações visuais participam de um conjunto entrelaçado de práticas e discursos de modo que a experiência visual não se realiza, e não pode ser compreendida, de modo isolado. A partir das propostas de Knauss (2006, p.114), a análise das imagens, empreendida nos limites dessa pesquisa, compreenderá, entre outras coisas, o exame do “registro visual em que imagem e significado visual operam”, dos “aparatos” ou “meios de expressão que condicionam a produção e a circulação de imagens”, dos discursos que educam ou condicionam o olhar, das instituições que organizam o espaço da produção e da circulação de imagens”, do observador, ou espectador, “como um outro necessário nos circuitos da promoção do significado visual” e, por fim, aos processo de figuração, isto é, “papel privilegiado” que a imagem tem de “representar ou figurar o mundo em formas visuais”. a análise avançará mediante a descrição das práticas através das quais cada um desses aspectos concorre na produção da imagem e de sua capacidade de produzir sentido. A atenção conferida ao papel de cada elemento será acompanhada de um esforço com vistas a apreensão das relações estabelecidas entre os termos no âmbito do conjunto.

Indicadores, Metas e Resultados

No âmbito do Projeto de Pesquisa Trabalho e Trabalhadores da Indústria de Pescado no Sul do Brasil espera-se:

Formar um grupo de estudos, composta por professores e alunos (graduação e de pós-graduação), voltado para a leitura e discussões relacionadas ao campo da História do Trabalho;

Propiciar a realização de pesquisas contemplando desde a Iniciação científica, passando pela produção de monografias e trabalhos de conclusão de curso de graduação, até a realização de pesquisas na pós-graduação.
Entre os resultados esperados é possível destacar:
A produção de um número considerável de artigos científicos, livros ou de capítulos de livros.
Outrossim, espera-se desenvolver iniciativas em parceria com as comunidades abarcadas na pesquisa, notadamente pescadores artesanais, visando a valorização das memórias desses grupos.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ANA INEZ KLEIN42
ASSUCENA SALDANHA MAIA SILVANO
EDGAR AVILA GANDRA44
MARCOS CESAR BORGES DA SILVEIRA4
MÔNICA RENATA SCHMIDT
MÔNICA RENATA SCHMIDT
PAULO CESAR POSSAMAI42
SINARA VEIGA FAUSTINO

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