Nome do Projeto
Memorializações em tempos de pandemia do COVID19
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
12/05/2021 - 12/05/2022
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Sociais Aplicadas
Resumo
Este projeto tem por objetivo averiguar a formação de museus e memoriais associados à pandemia do coronavírus, buscando identificar quais elementos e narrativas expográficas e memoriais são utilizadas nestes espaços físicos ou virtuais, e o potencial que apresentam (ou não) como agenciadores da memória coletiva da pandemia e seus efeitos nos diferentes contextos locais e nacionais.

Objetivo Geral

Objetivo Geral
Este projeto tem por objetivo identificar os museus e memoriais que surgem em decorrência
da pandemia do COVID-19 em diferentes locais e suporter, analisando como podem ser
dotados, ou não, de uma capacidade de ação e estratégias discursivas que os convertam em
ativadores da memória coletiva.
Objetivos específicos
1- Verificar se os museus e memoriais do COVID-19 se converterão em experiências de
maior durabilidade, com potencial para converterem-se em formas de reparação simbólica
pela memória e garantia de transmissão da experiência pandêmica para gerações futuras.
2- Analisar a constituição, regulamentação e funcionamento destes museus e memoriais suas vidas ordinárias e os elevam a condição de acervo (BRULON, 2016).
3- Compreender como categorias como vítima e herói operam classificações na narrativa
museológica/memorial referente ao contexto de pandemia.
4- Analisar como ocorrem as relações do público com tais museus/memoriais, buscando
identificar os canais interativos disponíveis a integração.
5- Aferir o potencial de aderência do público observador-visitante frente aos modelos
tradicionais ou não tradicionais, analisando como os museus/memoriais físicos adotam ou
adotarão outras formas expográficas/discursivas frente a uma provável predominância do
modelo virtual.
6- Analisar o potencial transformador destes museus/memoriais na forma de gerir e
pensar os museus/memoriais para além da pandemia da COVID-19 como fator gerador
dessas novas experiências.
7- Verificar quais recursos e estratégias estéticas são utilizadas nos museus/memoriais da
COVID-19
8- Registrar e analisar os critérios de exposição e guarda dos materiais virtuais ou físicos,
que alimentam essas experiências museológicas/memoriais.
9- Através dos comentários disponibilizados nas plataformas digitais que acolhem esses
museus/memoriais, analisar as reações que imprimem nos visitantes-observadores.
10- Em relação aos museus físicos, verificar as formas de organização e disposição do
material relativo à pandemia da COVID-19, as formas de registro e catalogação desse
acervo e a externalização do mesmo.
virtuais, que apresentam peculiaridades no que se refere as normatizações e princípios
regulatórios da instituição museu no seu sentido mais restrito- o reconhecimento do valor
memorial do que ali é deposto seguindo um rito de passagem (documentação, registro,
catalogação), atravessado por práticas que removem objetos, narrativas, documentos, de
suas vidas ordinárias e os elevam a condição de acervo (BRULON, 2016).

Justificativa

No dia 11 de março de 2020, em reunião na Suiça, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geralda Organização Mundial da Saúde, anunciou que a COVID-19, doença causada pelonovo coronavírus, ficava caracterizada como uma pandemia1. Naquela data, já 114 países atestavam a existência do vírus com um número de 118 mil casos e 4,2 mil mortos, conforme dados da OMS. Inúmeras medidas sanitárias são instituídas nos países afetados, dentre elas o uso de dispositivos de proteção e higienização e o distanciamento social, que em alguns locais se caracterizou por um confinamento prolongado e, no limite, medidas de bloqueio absoluto da circulação de pessoas no espaço social.
Ao mesmo tempo em que medidas restritivas eram adotadas pelo poder público (não sem contradições e descumprimentos, como no caso brasileiro), crescia exponencialmente o número de contaminados e vítimas fatais do COVID-19. A velocidade com que o vírus se propaga se fez sentir nas mudanças bruscas que se impuseram (e ainda se impõem) aos indivíduos em suas vidas cotidianas, na organização dos espaços coletivos, na morte como uma realidade devastadora e na ruptura com as formas sociais de lidar com ela. A morte pelo COVID-19 ocorre em geral no anonimato do ambiente hospitalar, sem presença dos próximos, sem rituais fúnebres, sem os gestos que declaram socialmente a despedida e
instauram o tempo do luto.
Quase imediatamente à instituição de um ordenamento social pautado pelo medo do contagio, por quarentenas prolongadas e estatísticas aterradoras, os meios de comunicação passaram a registrar obituários de mortos pelo COVID-19, memoriais virtuais se proliferam no mundo todo e, já em março do corrente ano, ainda nos primeiros momentos do confinamento na Espanha, surge o Covid Art Museum, um museu virtual criado por três publicitários na cidade de Barcelona, que se utiliza de uma rede social- Instagram- local onde artistas e pessoas
comuns podem “partilhar canções, desenhos e pinturas, versos ou fotografias, inspiradas na pandemia e no seu impacto.
No Brasil uma iniciativa semelhante é o Museu do Isolamento Brasileiro com a finalidade de difundir trabalhos de artistas brasileiros produzidos durante o isolamento. Em ambos os casos, o papel dos agenciadores da experiência museal virtual é o de fazer a curadoria do material recebido, tornando-o público no espaço virtual que se converte numa galeria, na qual espacialidade e temporalidade não são delimitadores do fazer museológico.
outra expressão dessa percepção da pandemia e seus efeitos surgem, em grande número e dimensão, os memoriais virtuais, alguns com formatos de obituários, outros como formas de homenagem, outros ainda como projetos nacionais. O fio condutor de todas essa experiências, no entanto, é o estabelecimento de uma economia representacional da memória que, tal como os museus acima mencionados, apresentam-se como projetos inéditos pelo contexto que os justifica. Nesse sentido multiplicam-se memoriais cuja ênfase é o registro dos
mortos pela COVID-19, retirando-os do anonimato através da inserção de dados biográficos que singularizam cada nome integrante das intermináveis listas. Estas iniciativas, que constituem uma economia representacional da memória, apresentam-se como originalmente associadas à movimentos voluntários, uma “memorialização imediata” de acontecimentos recém ocorridos ou ainda em fase de acontecimento, ou seja, seus efeitos não cessaram ainda de se fazer sentir no momento quando são comemorados (TRUC, 2017). A instituição de formas memoriais que derivam de acontecimentos traumáticos não são inéditas
na história da humanidade, sendo que elementos contemporâneos como a edificação de memoriais, a inclusão de nominatas de mortos no espaço público, os museus que acolhem elementos da cultura material associada aos combates,etc., surgem, tal como afirmam Smith et al. (2003), durante e após o cessar fogo da Primeira Guerra Mundial.entendemos como a premissa básica que envolve os memoriais e museus virtuais da COVID- 19, entendendo, tal como afirma o autor, que tais formas visam não apenas comemorar as vítimas, mas conservar seus traços, que nos casos que serão aqui analisados se configuram,
por exemplo, como narrativas biográficas, imagens fotográficas que remetem à vítima, inscrição do nome em um monumento virtual público. Três chaves interpretativas levantadas por Truc podem ser aplicadas aos museus e memoriais do COVID-19, objetos deste projeto de pesquisa. A primeira delas diz respeito à natureza dos fatos geradores de tais iniciativas. Falamos aqui de uma pandemia que impôs um cotidiano fragmentado, regido por uma nova
ordem de convivência social e constituindo assim uma memória fundada no trauma instituído pelo medo e pela morte. A segunda chave é a que diz respeito aos gestores desses museus e memoriais, eles próprios imersos e envolvidos no relato traumático. A terceira é a conexão entre memória individual e memória coletiva, e no caso em questão desse projeto, a dificuldade em transpor o relato individual da perda e da doença, para um registro coletivo que, em tese, anularia as particularidades e individualidades.
As formas museológicas e memoriais relacionadas à pandemia e seus efeitos nas sociedades contemporâneas, traduzem o que Marianne Hirsch (2014) denomina como um “tempo de vulnerabilidade”, que se alastra em escala planetária mas com diferenças, como por exemplo, as disparidades socioeconômicas entre países e grupos. Importante destacar a dificuldade em organizar a memória desse “tempo de vulnerabilidade”, uma memória que começa na contemporaneidade do acontecimento e que vai evoluir com o passar do tempo. Como afirma Peschanski (2020), para narrar e representar esse momento, ainda em curso, é preciso entender as condições de elaboração de uma narrativa memorial que não pode prescindir de um sentido, da utilidade social e da participação na construção identitária de um grupo. Em relação ao COVID-19, as perguntas que se deve fazer a essas formas museológicas e memoriais são: qual dimensão desse acontecimento em curso será privilegiada, escolhida para
se converter em uma memória coletiva da pandemia? Quais experiências se constituirão em narrativa? Como a experiência individual da doença e do luto se converterá em acervo testemunhal? Podemos atribuir a estas experiências uma forma de interpretação do trauma, uma transferência de sacralidade da morte à sua representação? (BECKER, 2019).

Metodologia

Considerando que o objeto dessa pesquisa é analisar o surgimento e instituição dos museus e
memoriais associados à pandemia da COVID-19 em sua globalização, entende-se necessário
adotar um “olhar a partir do interior”, ou seja, priorizar a identificação de práticas
museológicas, bem como as formas narrativas implementadas na expografia e os espaços e
estratégias comunicacionais adotados pela instituição. De outra parte, para aferir as relações
do museu com o exterior, serão utilizados diferentes recursos metodológicos como a análise
de opiniões e comentários suscitados pela exposição, entrevistas com os organizadores e
curadores, análise de material de divulgação e registro nos meios de comunicação como as
redes sociais e a imprensa. Também, como recurso metodológico fundamental se buscará
analisar como as formas de mostrar os sentimentos e experiências pessoais e coletivas limites,
decorrentes da pandemia, aparecem sob o registro do pathos, na qual o trauma e sofrimento
são utilizados como pontos fundamentais da comunicação, ou do documental e informativo,
que recupera a historicidade e potencial explicativo, utilizando o método proposto por
Philippe Mesnard (2012).
Para tanto serão colocados em prática as seguintes linhas operacionais:
-Identificar os museus/ memoriais já instituídos e os em processo de implantação.
- Selecionar estratégias comunicativas e formas narrativas com as quais se apresentam os
museus/ memoriais, analisando-as em seus princípios e objetivos.
- Criar instrumento de coleta de informações junto às equipes coordenadoras e executivas,
bem como ao público visitante nas experiências não virtuais.
- Utilizar-se de categorias fundadas na análise de discurso para fazer a leitura dos
comentários/avaliações deixadas pelos visitantes virtuais dos referidos museus/memoriais.
- Igualmente serão utilizados como fontes de pesquisa os livros de registros de visitantes dos
museus físicos e o website norteamericano Tripadvisor como fontes para a aferição da
opinião de visitantes.
-Analisar materiais elaborados por pelos museus/memoriais sob o ponto de vista de
estratégias comunicacionais.

Indicadores, Metas e Resultados

1.Aprofundamento e atualização de reflexões e leituras sobre Museus, representação do
sofrimento, expografia e ética.
2. A pesquisa resultará em um aporte de conhecimentos sobre as possibilidades de interação
museu/sociedade/memória, o que deverá servir como base de reflexão para experiências
museológicas relativas a processos de sofrimento coletivo e turistificação de lugares que
sediaram estes processos. Orientações de dissertação e teses em curso poderão vir a ser
beneficiadas diretamente com a pesquisa, a exemplo da tese doutoral de Jaime Bertoncelli
sobre memórias transicionais na Colômbia e a pesquisa de dissertação de Mestrado de
Carolina Nogueira sobre museus e Direitos Humanos, ambas em curso no Programa de Pós-
Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural (PPGMP) no qual atua a proponente
deste projeto.
3. Da mesma forma os dados obtidos na pesquisa deverão servir como referência para
colaborações que já vêm sendo mantidas através do PPGMP e do Bacharelado em
Museologia com a Universidade Federal de Santa Maria, a Universidad Nacional de Rosario
(Argentina), a Universidad de Antioquia (Colombia), com a Associação de Vítimas de Santa
Maria, para a organização e implementação do memorial virtual (já disponível) e o memorial
físico referente à tragédia da Boate Kiss.
4. Possibilidade de converter os dados obtidos na pesquisa em novos seminários junto aos
Bacharelados em Museologia, Conservação e Restauro e Mestrado e Doutorado em Memória
Social e Patrimônio Cultural.
5.Fortalecimento da linha de pesquisa Memória e Identidade e organização de Seminário com
o tema de Memórias de um tempo em curso: pandemia do COVID-19, em organização para segundo semestre de 2021
6- Elaboração de novos objetos de pesquisa associados ao tema e que serão associados ao
NEMPLUS (Núcleo de Estudos em Memória e Patrimônio associados ao sofrimento) do qual
a proponente deste projeto é fundadora e participante: https://wp.ufpel.edu.br/nemplus/

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
CAROLINA GOMES NOGUEIRA
JAIME ALBERTO BORNACELLY CASTRO
MARIA LETICIA MAZZUCCHI FERREIRA13
PRISCILA CHAGAS OLIVEIRA

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