Nome do Projeto
Arqueologia na Tríplice Fronteira: O Povoamento Original do Sul do Brasil
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
10/01/2022 - 10/01/2024
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Humanas
Resumo
O Projeto “Povoamento Original do Sul do Brasil: Arqueologia na Tríplice Fronteira” tem por objetivo compreender o processo de colonização inicial do Rio Grande do Sul pelas populações caçadoras e coletoras na transição Pleistoceno-Holoceno (entre 12.000 e 9.000 anos AP). Entre as décadas de 1960 e 1970 foram encontrados nos contextos sedimentares do médio rio Uruguai artefatos arqueológicos em associação a ossos de megafauna pleistocênica extinta (Miller, 1969, 1976, 1987). Fato inédito até então para o sul do Brasil, isto justificou a implantação do Programa Internacional de Pesquisas Paleoindígenas (PROPA), custeado pela National Geographic Society e Smithsonian Institution (Washington, D.C.) e destinado a estudar os sítios iniciais do povoamento do cone sul do continente sulamericano. Uma série de datações radiocarbônicas foram realizadas a partir deste projeto indicando que o povoamento inicial do território rio-grandense teria se dado entre 12.700 e 10.800 anos AP. Tais sítios, localizados nos municípios de Uruguaiana, Alegrete, Santana do Livramento e Quaraí, possuem indústrias líticas com características tecnológicas que apontam para uma unidade cultural entre os contextos brasileiros e os primeiros povoadores pré-históricos do Uruguai e da Argentina. As recentes descobertas nos países vizinhos reacendem as dúvidas acerca da natureza sedimentar dos sítios gaúchos e seus contextos culturais, conferindo à arqueologia da região do extremo sul do Brasil contornos de incerteza. Portanto, necessária é a retomada das pesquisas na área buscando uma abordagem integrada, principalmente, às pesquisas que vêm sendo realizadas de forma continuada no território uruguaio. A retomada dos principais sítios escavados pelo PROPA, a partir de cortes estratigráficos pontuais e coleta de amostras para definição de cronologias através de técnicas modernas, associada ao mapeamento georeferenciado e à análise geoarqueológica para posicionamento dos contextos culturais e paleontológicos na estratigrafia regional é do que trata o escopo da presente proposta.

Objetivo Geral

O objetivo geral desta proposta é a caracterização do povoamento do sul do Brasil em contexto com as regiões Norte e Nordeste dos países vizinhos como Argentina e, em especial, o Uruguai, onde pesquisas recentes com técnicas modernas de análise e interpretação têm oferecido cronologias contextos culturais de grande antiguidade.
De forma esquemática os objetivos específicos são:
1) Prospectar novos sítios de caçadores coletores na região do médio Rio Uruguai;
2) Realizar novas escavações no sítio Milton Almeida, em função da sua relevância cronológica e considerável grau de preservação evidenciados pelos trabalhos de sondagem anteriores.
3) Estabelecer cronologias seguras para os principais sítios conhecidos no Arroio Touro Passo através de técnicas modernas de datação das amostras e calibração dos resultados;
4) Caracterizar a sequência estratigráfica e a contextualização cultural das indústrias líticas locais;
5) Estabelecer um modelo para a gênese do processo de povoamento e dispersão dos caçadores coletores no extremo Sul do Brasil.

Justificativa

O Projeto “Povoamento Original do Sul do Brasil: Arqueologia na Tríplice Fronteira” tem por objetivo compreender o processo de colonização inicial do Rio Grande do Sul pelas populações caçadoras e coletoras na transição Pleistoceno-Holoceno (entre 12.000 e 9.000 anos AP). Entre as décadas de 1960 e 1970 foram encontrados nos contextos sedimentares do médio rio Uruguai artefatos arqueológicos em associação a ossos de megafauna pleistocênica extinta (Miller, 1969, 1976, 1987). Fato inédito até então para o sul do Brasil, isto justificou a implantação do Programa Internacional de Pesquisas Paleoindígenas (PROPA), custeado pela National Geographic Society e Smithsonian Institution (Washington, D.C.) e destinado a estudar os sítios iniciais do povoamento do cone sul do continente sulamericano. Uma série de datações radiocarbônicas foram realizadas a partir deste projeto indicando que o povoamento inicial do território rio-grandense teria se dado entre 12.700 e 10.800 anos AP. Tais sítios, localizados nos municípios de Uruguaiana, Alegrete, Santana do Livramento e Quaraí, possuem indústrias líticas com características tecnológicas que apontam para uma unidade cultural entre os contextos brasileiros e os primeiros povoadores pré-históricos do Uruguai e da Argentina. Recentes descobertas nos países vizinhos reacendem as dúvidas acerca da natureza sedimentar dos sítios gaúchos e seus contextos culturais, conferindo à arqueologia da região do extremo sul do Brasil contornos de incerteza. Portanto, necessária é a retomada das pesquisas na área buscando uma abordagem integrada, principalmente, às pesquisas que vêm sendo realizadas de forma continuada no território uruguaio. A retomada dos principais sítios escavados pelo PROPA, a partir de cortes estratigráficos pontuais e coleta de amostras para definição de cronologias através de técnicas modernas, associada ao mapeamento georeferenciado e à análise geoarqueológica para posicionamento dos contextos culturais e paleontológicos na estratigrafia regional é do que trata o escopo da presente proposta.

Metodologia

As pesquisas arqueológicas no cone sul da América indicam um povoamennto extremamente antigo para os caçadores coletores da região em estudo, nos limites entre o pleisctoceno final e holoceno inicial. As pesquisas das últimas duas décadas no Uruguai (López Mazz, 2013, Suárez, 2015) e Argentina (Politis 2008, Prates, Politis, Steele 2013) têm oferecido datas que remontam a 12.000 anos AP. Nos municípios alvo desta proposta foram encontradas cronologias que atingiram 12.770 AP, hoje desacreditadas (cf., Milder 1995, 2000). Ainda se concebe um povoamento com cerca de 10.800 anos AP, contextos estes que propomos reavaliar a luz de técnicas geocronológicas modernas. Entre o Rio Grande do Sul e o extremo Oeste de Santa Catarina, na Foz do Rio Chapecó, as pesquisas desenvolvidas por Lourdeau, Hoeltz e Viana (2014) e Hoeltz, Loudeau, Viana (2015) sugerem uma indústria lítica laminar com cronologias de 9.500 anos AP para contexto caçador coletor no sítio LP1. Os trabalhos de Dias (2003, 2009) para o Nordeste do Rio Grande do Sul apresentam um conjunto consolidado de datações (a exemplo do contexto internacional vizinho), apontando para ocupações entre 9.430 AP (sítio Garivaldino RS-TQ-58), 8.790 AP (sítio Sangão RS-S-327) e 8.030 AP (sítio Adelar Pilger RS-C-61). No atual estágio das pesquisas, a tríplice fronteira caracteriza um vácuo informativo, cujos dados disponíveis não dialogam com as pesquisas recentes desenvolvidas como que em um cinturão nas fronteiras da área de pesquisa proposta aqui. A estratégia de parametrização dos dados e a análise interligada das pesquisas consonantes descritas acima permitirá a integração do processo de povoamento local aos processos de dispersão indígena caçadora e coletora no cone sul, validando os dados da parte brasileira da triplice fronteira, hoje dissonantes.
A presente proposta de pesquisa caracteriza-se por investidas pontuais priorizando baixo custo, fácil implementação e alto impacto. Esta proposta prevê 36 meses de execução.
De forma esquemática, a sequência das estratégias metodológicas propostas se dará como segue:
1) O mapeamento dos sítios depende de duas estratégias de pesquisa interligadas. Primeiramente a relocalização dos sítios conhecidos através das pesquisas de Miller (1969, 1976, 1987), Vidal (2018, 2019) e Gomes (2016) e Viana, Peixoto (2016). Esta estratégia permitirá a reunião de dados parametrizados para o mapeamento em SIG para que a Arqueologia da Tríplice Fronteira seja acessível e com dados validados para comparação com os contextos internacionais vizinhos. O passo seguinte é a prospecção em áreas potenciais novas, orientando a escolha das unidades amostrais aos contextos deposicionais preservados já identificados nas pesquisas de Suárez (2015, 2017, 2018). Através destas duas estratégias será criado um banco de dados integrados, validados e parametrizados com mapeamento em SIG com utilização do software Arcgis Pro para mapeamento profissional em 2d e 3d para que percebamos os sítios em sua dispersão espacial (2d) e inserção topográfica (3d).
2) As técnicas de datação por radiocarbono passaram por uma série de aferições desde os anos 1960 e 1970 (período em que foram datados os sítios que compõe esta proposta). Hoje dispomos de curvas de variação de radioatividade atmosférica de alta precisão, condicionando à constante calibração dos resultados obtidos. Amostras tão antigas já não se submetem mais aos métodos atuais de medição e aferição apresentando margens de erro largas demais, comprometendo sua validade. Retomar os dois principais sítios (Milton Almeida e Laranjito) e redatá-los é estratégia básica para a disponibilização marcadores cronológicos parametrizados aos recentes avanços vivenciados nas pesquisas na Argentina e, principalmente, no Uruguai. Naqueles países o espectro das datações sugere ocupações indígenas 2.000 anos mais antigas do que o que se conhecia até então.
3) Novas escavações no sítio RS-I-66: Milton Almeida tornam-se necessário para elucidação dos contextos culturais associados às ocupações em questão. Esta estratégia busca preencher a principal lacuna existente para a arqueologia da região: a associação segura entre os contextos culturais (sincrônicos) e as sequencias estratigráficas (diacrônicas). O sítio Milton Almeida, pesquisado originalmente por Miller (1969,1987) durante o PROPA e recentemente por Vidal (2018, 2019) possui melhor preservação esratigráfica, tendo em vista sua relativa distância do curso meandrante do Arroio Touro Passo, bem como uma coleção lítica significativa (cf. demonstrado acima). Este é o sítio que precisa ser escavado no intuito de validar os dados cronológicos e geoarqueológicos disponíveis, parametrizando-os aos dados oferecidos pelas recentes pesquisas sobre o povoamento caçador coletor no cone sul.

Indicadores, Metas e Resultados

Os resultados esperados para a presente proposta de pesquisa são, de forma geral, estabelecer um quadro seguro para o povoamento inicial do extremo sul do Brasil, reavaliando uma importante e complexa temática com impacto para a arqueologia continental. Embora as cronologias e modelos de povoamento tenham avançado bastante no Uruguai e Argentina, bem como nas regiões limítrofes do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, pouco se avançou na tríplice fronteira, região que foi palco do mais importante projeto de pesquisa paleoindígena do Brasil, há 40 anos atrás. Atualmente, aqueles dados geocronológicos não são parametrizáveis aos dados regionais e a importante região arqueológica compreendida pelos municípios de Uruguaiana, Santana do Livramento, Quaraí e Alegrete passou a configurar um vácuo informativo, cujos dados disponíveis não dialogam com os métodos modernos de medição e calibração geocronológicos.
Esta proposta permitirá ainda o intercâmbio de conhecimentos e experiências entre pesquisadores do Brasil e Uruguai, bem como a qualificação e capacitação de discentes participantes no projeto, através da participação nas atividades de campo e laboratório de alunos da graduação e pós-graduação dos cursos de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas, de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Antropologia da Universidad de la República (Uruguai).
As principais contribuições científicas e educacionais desta proposta são:
1. Contribuição para a arqueologia da transição Pleistoceno-Holoceno no sudoeste do Brasil Meridional, revendo e ampliando as cronologias atualmente disponíveis.
2. Desenvolvimento de pesquisas inéditas em âmbito nacional quanto aos padrões de adaptação caçadoras coletoras na transição Pleistoceno-Holoceno refletidas nas formas de ocupação do espaço regional e na organização tecnológica.
3. Desenvolvimento de abordagens multi-disciplinares associadas a estudos geoarqueológicos, paleoclimáticos e paleoambientais em função dos resultados das pesquisas de campo.
4. Possibilidade de intercâmbios acadêmicos internacionais e de formação e capacitação de profissionais na área de arqueologia no nível de graduação e pós-graduação.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
GUSTAVO PERETTI WAGNER7
ÍTALO MARQUES DE CASTRO

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