O gênero Pythium compreende mais de 140 espécies de oomicetos termofílicos, ubíquos em ecossistemas lênticos e terrestres de regiões de clima temperado (Kageyama 2014). Enquanto alguns gêneros de oomicetos são sapróbios, outros são patógenos, podendo causar infecções em plantas (Pythium e Phytophthora), insetos (LagenidiumePythium), peixes (Achlya, SaprolegniaePythium) e mamíferos (LagenidiumePythium) (Mendoza; Villela, 2013). A espécie Pythium insidiosum é patógeno de mamíferos, causando a pitiose, uma doença grave, de rápida evolução e difícil tratamento (Gaastra et al., 2010). Embora a pitiose seja descrita em vários países (Mendoza et al., 1996), o maior número de casos é relatado na Tailândia em humanos (Krajaejun et al., 2006, Reanpang et al., 2015) e em equinos no Brasil, sendo que as regiões brasileiras de maior relevância incluem o Pantanal, o Sul do Rio Grande do Sul (RS) e o Nordeste brasileiro que são endêmicas para a infecção, com prevalências estimadas em 12,5% (Santos et al., 2014), 14,5% (Marcolongo-Pereira et al., 2012; Weiblen et al., 2015) e 15,17% (Souto et al., 2021), respectivamente.
Como típico oomiceto aquático, P. insidiosum realiza parte de seu ciclo biológico em águas de rios, lagoas e lagos. Dentro deste habitat são mais comumente encontrados nas águas rasas próximas às margens (Alexopoulos et al., 1996). O acúmulo de água estagnada e temperaturas ambientais entre 30℃ a 40℃ favorecem a reprodução assexuada que origina zoósporos móveis que constituem a forma infectante do micro-organismo. Esses zoósporos são atraídos para o pelo dos animais, penetram na pele e produzem a enfermidade (Mendoza et al., 1996). A presença de P. insidiosum em áreas alagadiças foi demonstrada por Miller (1983) em áreas pantanosas da Austrália; Supabandhu et al. (2008) em reservatórios de água utilizados para irrigação de lavouras na Tailândia; Presser&Goss (2015) nos EUA e por Zambrano et al. (2017) em ambientes pantanosos no estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Na pitiose em animais, comumente observa-se que as lesões cutâneas nas espécies afetadas ocorrem em regiões que estão em maior contato com a água (Mendoza et al., 1996), o que é justificado pelo ciclo biológico de P. insidiosum.
Pitiose merece destaque pela dificuldade de tratamento e letalidade nas espécies afetadas. Embora, nos últimos anos, os estudos envolvendo protocolos terapêuticos para o tratamento da enfermidade tenham avançado significativamente, a pitiose permanece sendo uma infecção difícil de tratar e muitos indivíduos afetados morrem em decorrência de complicações ligadas à enfermidade ou necessitam de eutanásia. Parte dos insucessos terapêuticos deve-se a deficiente resposta de P. insidiosum às terapias disponíveis, incluindo tratamento com fármacos antifúngicos, cirurgia e imunoterapia (Gaastra et al., 2010).
A cirurgia é o método mais antigo e comumente empregado no tratamento da pitiose em animais e no homem, todavia, taxas de recidiva em torno de 45% são relatadas (Gaastra et al., 2010). Além disso, este procedimento é muitas vezes impedido pelas estruturas anatômicas envolvidas, principalmente os membros na pitiose em equinos (Miller, 1981) e, em muitos casos, requer a amputação e/ou excisão da região afetada na doença em humanos (Krajaejun et al., 2006, Reanpang et al., 2015, Permpalung et al., 2019).
A imunoterapia surgiu em 1981 (Miller, 1981) como uma alternativa para o tratamento da pitiose equina e tem sido utilizada até os dias atuais. Embora seja considerada uma prática segura, com índices de cura de aproximadamente 60-70% em equinos e humanos, há muitos casos que não respondem ao imunoterápico (Mendoza; Newton, 2005).
As pesquisas avaliando opções terapêuticas com fármacos antimicrobianos, incluindo prospecção de fármacos empregando compostos antifúngicos, antibacterianos, óleos essenciais de plantas, entre outros, apresentou um incremento considerável nos últimos anos, mostrando resultados animadores in vitro. No entanto, quando aplicados na pitiose clínica ou experimental nem sempre os resultados foram satisfatórios (Pereira et al., 2007; Argenta et al., 2012; Fonseca et al., 2015; Zanette et al., 2014; Jesus et al., 2016). Recentemente, Ramappa et al. (2017), Ross Castelar (2017) e Bagga et al. (2018) relataram a cura da pitiose ocular em humanos com o uso de azitromicina, minociclina e linezolida. Todavia, em medicina veterinária e, particularmente na pitiose em equinos, o emprego desses fármacos torna-se inviável em função da alta dose a ser empregada o que torna oneroso os custos do tratamento. Desta forma, é imprescindível a continuidade de pesquisas que busquem outras terapias para o tratamento da enfermidade nos animais, principalmente em equinos.
A ozonioterapia é uma técnica da medicina integrativa que agrega a utilização de 95% de O2 e 5% de O3, podendo ser o gás empregado na forma sistêmica (insuflação retal, auto-hemoterapia maior, auto-hemoterapia menor, auto-hemoterapia intermediária e fluidoterapia ozonizada); local (infusão perilesional, cupping, bagging e água ozonizada) e tópica quando utilizado o óleo ozonizado. O óleo ozonizado tem vantagem sobre a forma gasosa e líquida de ozônio, pois o veículo se mantém em contato com as superfícies, exercendo suas funções por um período superior (López et al., 2003; Bocci, 2005). Além disso, enquanto a meia vida do ozônio sob a forma gasosa é efêmera, sob a forma de óleo pode ser estocado por vários meses, dispensando a necessidade de gerador, o que reduz custos (Bocci, 2005, Jorge et al., 2006).
Relata-se que o ozônio ativa o sistema antioxidante do organismo, aumenta a imunidade e melhora a perfusão sanguínea, o que explica sua ação antimicrobiana, antineoplásica, anti-inflamatória e analgésica (Rodríguez et al., 2018). Estudos sugerem que o ozônio causa lesões na parede celular das bactérias, o que leva a morte desses procariotos (Dähnhardtet al., 2006). Adicionalmente, acredita-se que a sua difusão para o interior das células causa a oxidação de aminoácidos e ácidos nucleicos, impedindo a replicação celular e síntese de aminoácidos, levando à desnaturação e morte dos micro-organismos (Sunnen, 1998; Velano et al., 2001).
Em medicina veterinária, a ozonioterapia tem sido empregada para o tratamento de diversas enfermidades incluindo infecções bacterianas, fúngicas, virais, parasitárias, entre outras (Rodríguez et al., 2018, Quintana et al., 2019). Zambrano et al. (2019) evidenciaram a atividade in vitro anti-P. insidiosum do óleo de girassol ozonizado, bem como demonstraram que o crescimento do oomiceto foi inibido após a exposição de kunker com óleo ozonizado. Adicionalmente, Ferreira et al. (2021) relataram a ação antimicrobiana in vitro de diferentes preparações do gás ozônio sobre P. insidiosum.
Acreditamos que a ozonioterapia pode ser empregada na terapia integrativa da pitiose equina, bem como de outras enfermidades causadas por fungos e bactérias, reduzindo o curso clínico da doença. Estudos preliminares desenvolvidos por nosso grupo de pesquisa têm evidenciado os benefícios da ozonioterapia sistêmica e tópica no tratamento de equinos com pitiose cutânea (Zambrano et al., 2020). Contudo, o ozônio não deve constar apenas como uma medida paliativa ou inespecífica de tratamento, devendo ser profundamente estudado os seus mecanismos de ação e doses terapêuticas compreendidas cientificamente, para que aliado às terapias convencionais possibilite resultados clínicos expressivos em menor tempo, diminuindo custos e representando uma alternativa terapêutica a ser empregada na prática clínica.
O crescente aumento do número de casos de pitiose em animais e no homem e as dificuldades encontradas para a cura da doença têm impulsionado muitas pesquisas em pitiose; especialmente, direcionadas para o desenvolvimento de novas tecnologias que buscam maior eficácia e ao mesmo tempo sejam economicamente viáveis e ambientalmente comprometidas. Como pesquisadores engajados na área de micologia veterinária, a equipe que propõe o presente estudo, visa corroborar na produção de novos conhecimentos científicos e na busca de tecnologias viáveis que possam ser aplicadas ao tratamento e controle da pitiose em medicina veterinária, podendo ser também aplicada à pitiose em humanos. As informações originadas neste trabalho poderão ser utilizadas na clínica veterinária como uma terapia combinada e auxiliar à pitiose, proporcionando benefícios ao setor produtivo do País, especialmente à equinocultura. Os resultados gerados ao final deste trabalho servirão de sustentação para o desenvolvimento de outros estudos nesta linha de pesquisa podendo contribuir expressivamente para o desenvolvimento técnico-científico do Brasil.