Nome do Projeto
DO NEOLIBERALISMO ÀS PLATAFORMAS E REDES DIGITAIS: PROCESSOS EDUCATIVOS, APRENDIZAGENS E DOCÊNCIA NAS TRAMAS DA CULTURA DIGITAL
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
03/04/2023 - 30/12/2024
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Humanas
Resumo
Partindo dos Estudos Foucaultianos, da vertente pós-estruturalista dos Estudos Culturais em Educação e da ideia de Plataformização da Sociedade (VAN DIJCK, POELL e WAAL, 2018) como elemento de análise, este projeto de pesquisa tem por objetivo investigar os modos pelos quais a Cultura Digital, inscrita na racionalidade neoliberal e ratificada pelo crescente e constante uso de redes sociais, plataformas e aplicativos digitais, vem operando pedagogicamente, no sentido de regular as condutas e guiar as práticas cotidianas: no campo da saúde ao entretenimento, da segurança à educação. Assim, dentro do escopo teórico e metodológico, três movimentos de investigação estão previstos. No primeiro, adota-se a revisão bibliográfica de natureza exploratória, problematizando a Cultura Digital (GERE, 2008; LISTER et.al, 2009; STALDER, 2018) e a Plataformização da Sociedade como estruturas envolvidas na produção de sentidos. O segundo movimento, apoiado na análise documental, segue autores como Brown (2019), Dardot et.al (2021), Ball (2014), Foucault (1987; 2005, 2006, 2007, 2008), e explora as implicações da articulação entre “tecnologias digitais” e “racionalidade neoliberal”, sobretudo no âmbito dos processos educativos (institucionalizados ou não), cujos sinais indicam características instigadas nos sujeitos, tais como flexibilidade, adaptabilidade, mobilidade, conectividade, personalização e individualização. Essas particularidades, voláteis e efêmeras, de conduzir a vida, representam a base de um tipo de “gestão social” centrada na performance, na competitividade, na concorrência e nos incentivos às iniciativas e esforços individuais. O neoliberalismo é político, econômico, cultural e social, o que acaba ensejando valores, produzindo subjetividades e sensibilidades. O terceiro movimento, amparado nos métodos digitais (ROGERS, 2013;2015;2019; D’ANDREA, 2020) e nos estudos de caso, analisa de que forma as redes sociais, plataformas e aplicativos vêm operando pedagogicamente. Trata-se de conjeturar a existência de Pedagogias Digitais (BORTOLAZZO, 2021), ou seja, outros tipos de pedagogias que possam responder às demandas e contingências da sociedade contemporânea. As Pedagogias Digitais são pensadas para além dos processos pedagógicos, instituídos em escolas e universidades, que se utilizam de recursos tecnológicos e mídias digitais, mas o conceito está situado como expressão de um conjunto de transformações culturais – visíveis a partir do amplo uso do digital – que envolvem espaços, artefatos, mecanismos e procedimentos que vão instituindo certas práticas e, por assim dizer, também governando a conduta dos sujeitos. Na mesma vertente, outros modos de olhar e compreender a educação, a pedagogia, os processos formativos, o ensino, a aprendizagem, o currículo, a docência, etc., ganham visibilidade e entram em circulação. Portanto, questionar as controvérsias e a hierarquia de poder protagonizada pelas plataformas digitais (violação de privacidade; manipulação algorítmica; produção de fake news; acesso às informações, serviços e bens; renovadas formas de produção de conhecimento etc. ) significa assumir que aplicativos móveis e empresas como Google, Facebook, Amazon, entre outras, estão entrelaçadas às dinâmicas sociais e, por isso, vão conduzindo, interferindo e penetrando, de forma cada vez mais veemente, nas várias esferas da vida cotidiana. Palavras-chave: Estudos Culturais; Estudos Foucaultianos; Cultura Digital; Plataformização da Sociedade; Educação; Processos Formativos; Docência.

Objetivo Geral

O projeto de pesquisa intitulado “Do Neoliberalismo às Plataformas e Redes Digitais: processos educativos, aprendizagens e docência nas tramas da Cultura Digital” tem como objetivo geral investigar os modos pelos quais a Cultura Digital, inscrita na racionalidade neoliberal e ratificada pelo crescente e constante uso de redes sociais, plataformas e aplicativos digitais, vem operando pedagogicamente, no sentido de regular as condutas e guiar as práticas cotidianas: no campo da saúde ao entretenimento, da segurança à educação.
Assim, dentro do escopo teórico e metodológico, este projeto de pesquisa foi pensado a partir de três movimentos de investigação que constituem os objetivos específicos. Eles estão descritos a seguir:
- Partindo dos Estudos Foucaultianos (FOUCAULT, 1987; 2005;2006;2007;2008) e da vertente pós-estruturalista dos Estudos Culturais em Educação (DERRIDA, 1995; SILVA, 2004, 2011; COSTA, SILVEIRA e SOMMER, 2004; 2005; HALL, 1997, 2011; VEIGA-NETO, 1995; 2004; 2007; 2009) problematiza-se a Cultura Digital (GERE, 2008; LISTER et.al, 2009; STALDER, 2018; GREEBER e MARTIN, 2009) e a Plataformização da Sociedade (VAN DIJCK, POELL e WAAL, 2018) como estruturas envolvidas na produção de sentidos.
- Explorar as implicações da articulação entre “tecnologias digitais” e “racionalidade neoliberal”, sobretudo no âmbito dos processos educativos (institucionalizados ou não), analisando sinais e características instigadas nos sujeitos, tais como flexibilidade, adaptabilidade, mobilidade, conectividade, personalização e individualização. Aqui, alguns autores são acionados como Brown (2019), Dardot et.al (2021), Ball (2014), Couldry e Mejias (2019), Laval (2004), entre outros
- Amparado nos métodos digitais (ROGERS, 2013;2015;2019; D’ANDREA, 2020) e nos estudos de caso, analisa-se de que forma as redes sociais, plataformas e aplicativos vêm operando pedagogicamente. Trata-se de conjeturar a existência de Pedagogias Digitais (BORTOLAZZO, 2021; 2022), ou seja, outros tipos de pedagogias que possam responder às demandas e contingências da sociedade contemporânea. Nesta mesma vertente, investiga-se as implicações pedagógicas (relação professor-aluno; transformações no acesso ao conhecimento e na produção de saberes; outros processos de aprendizagem etc.) diante dos usos das tecnologias digitais (computadores, smartphones, aplicativos, entre outros).

Justificativa

Este projeto de pesquisa investiga a emergência da Cultura Digital em operação nas várias esferas da vida cotidiana, sobretudo, no campo dos processos educativos e de formação dos sujeitos. Assim, problematiza-se como as relações com as tecnologias digitais (redes sociais, plataformas e aplicativos digitais) vêm alocando, produzindo e disseminando certos tipos de saberes, assim como regulando a conduta dos sujeitos.
A importância de expressões e conceitos como Cultura Digital, Pedagogias Digitais, Neoliberalismo, Plataformização da Sociedade, entre outros, não é simplesmente uma justificativa. Considera-se tais denominações como constitutivas de saberes que pretendem, segundo Rose (1998), produzir conhecimento sobre os sujeitos e instituir modos de ser sujeito na contemporaneidade.
O horizonte teórico de movimentação do projeto está inscrito na vertente pós-estruturalista dos Estudos Culturais. O pós-estruturalismo rejeita a ideia de estruturas estáveis que conferem significados a partir de binarismos (preto-branco; bom-mau). Na perspectiva pós-estruturalista, os significados são instáveis, negociáveis, estão sempre em processo, e a realidade é analisada como uma construção social, histórica e subjetiva.
Haja vista certas mudanças a partir de meados do século XX, o objeto “cultura” vai adquirindo novos significados nos Estudos Culturais. Ela vai deixando de ser apenas um conjunto de valores, normas e costumes ligados a uma tradição particular ou a um território, e converte-se em um repertório de signos e símbolos difundidos globalmente. Os Estudos Culturais, nesse sentido, procuram vislumbrar o campo da cultura não como um espaço pronto, definido, com sistemas de ideias dominantes e inflexíveis, mas como um espaço de lutas e desencaixes. Inspirado em Hall (1997, p.23), “a cultura (...) não pode mais ser estudada como uma variável sem importância, secundária e dependente em relação ao que faz o mundo mover-se; tem de ser vista como algo fundamental, constitutivo, determinando tanto a forma como o caráter deste movimento, bem como a sua vida interior”. Ademais, ao abrigo do referencial teórico dos Estudos Culturais, Willians (1975) considera que a cultura é material, ou seja, o plano cultural não está circunscrito apenas a valores, comportamentos, tradições, sistemas simbólicos e relação sociais. Os produtos materiais utilizados na vida cotidiana, a exemplo da televisão, dos computadores e smartphones, representam maneiras pelas quais o mundo vem sendo experimentado. Essas materialidades constituem produtos culturais e acabam produzindo as sociedades.
Dentro de um conjunto de justificativas, é possível afirmar que redes sociais, plataformas e aplicativos digitais, de alguma forma, têm alterado as formas de comunicação, assim como os diversos modelos de negócios, a exemplo da música (Spotify), do entretenimento (NetFlix), do comércio (Amazon), do transporte (Uber, Google Maps, Waze), do turismo (Airbnb, Booking), da educação (MOOCS), etc. Redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, os milhares aplicativos para smartphones e tablets, os canais do YouTube, a enciclopédia online Wikipédia, as plataformas e modalidades de educação à distância, entre inúmeros espaços, artefatos e dispositivos ligados ao universo digital, estimulam outras sensibilidades e maneiras de aprender, de compreender e de se relacionar com os outros e com si mesmos.
Esse debate a respeito de uma Cultura Digital como imperativa só pode ser reconhecido à luz dos recentes progressos no campo das tecnologias. O digital não se refere apenas aos efeitos e possibilidades de uma determinada tecnologia ou artefato, mas abrange formas de pensar e de desenvolver certas atividades que são incorporadas pelo uso das tecnologias. Toma-se como exemplo os aplicativos para telefones celulares e tablets, produtos para serem carregáveis e de fácil acesso. O consumo desse tipo de tecnologia se ajusta aos modos de vida flexíveis e se afina a uma espécie de mobilidade contínua. As funcionalidades carregadas por esses aparatos representam parte do kit de sobrevivência dos sujeitos que vivem sob a tutela da racionalidade neoliberal.
O neoliberalismo, de acordo com Ball (2014), é um conjunto complexo de práticas organizadas em torno de um “mercado” com penetração em quase todos os aspectos da vida, ou seja, não é apenas uma doutrina econômica ou projeto político. O neoliberalismo abrange “[…] tanto as relações materiais quanto as sociais envolvidas” (BALL, 2014, p. 25), bem como, em uma perspectiva foucaultiana de governamentalidade, envolve o “[...] governo das populações por meio da produção de seres empreendedores “dispostos”, “auto-governamentáveis” (BALL, 2014, p. 26, grifos do autor).
Este tempo instantâneo, cambiante, efêmero e tecnológico exige um tipo de comunicação e de pedagogia que compreenda as dinâmicas sociais, e que possa dialogar com a provisoriedade do contemporâneo. Este projeto questiona a profusão de práticas culturais que vem se desenvolvendo com as tecnologias e que tem feito com que os sujeitos aprendam com a Cultura Digital. Quer dizer, é dentro dessa matriz de inteligibilidade que dispara-se a ideia de Pedagogia Digital, ou seja, um tipo de pedagogia não centrada simplesmente na utilidade e usabilidade de hardware e software, mas pensada sob uma perspectiva ampliada, aquela das telas dos telefones celulares, dos aplicativos, da convergência, da integração das linguagens, mas, sobretudo, das formas como tais mecanismos digitais têm invadido o cotidiano, moldado práticas, instituído modos de viver, de se relacionar, de construir narrativas. Dessa forma, outros processos (estratégias, abordagens, perspectivas etc.) pedagógicos precisam ser pensados, problematizados, indagados e inventados diante de uma sociedade atravessada pelo digital.
Portanto, um projeto de pesquisa que contemple e examine a temática do digital – inteligência artificial, internet das coisas, big data, algoritmos, redes sociais, plataformas de ensino on-line etc. – e os deslocamentos (alargamento, ampliação etc.) nos conceitos de pedagogia possibilitam refletir sobre as implicações das tecnologias digitais nos diversos espaços de sociabilidade.
Sinalizando uma última justificativa, vale ressaltar que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – documento de referência para o desenvolvimento curricular e que define, para cada etapa e nível, as aprendizagens essenciais aos alunos brasileiros da Educação Básica – trabalha com 10 competências, sendo uma delas é a da Cultura Digital. Segundo a BNCC (2017, p.474), o desenvolvimento desta competência gira em torno das aprendizagens relativas às “formas de processar, transmitir e distribuir a informação de maneira segura e confiável em diferentes artefatos digitais – tanto físicos (computadores, celulares, tablets etc.) quanto virtuais (internet, redes sociais e nuvens de dados, entre outros)”. A Cultura Digital envolve igualmente aprendizagens voltadas à “participação mais consciente e democrática por meio das tecnologias digitais” (idem, p.474).
A ideia de uma competência atrelada ao digital significa compreender e utilizar as tecnologias digitais de forma crítica, reflexiva e ética. Quer dizer, a BNCC não apenas reconhece o papel das tecnologias na vida em sociedade, mas estabelece que o estudante deve ser capaz de dominar o universo digital e fazer uso qualificado e adequado das ferramentas existentes.

Metodologia

A proposta deste projeto de pesquisa é desenvolver um tipo de análise, inscrita no campo dos Estudos Foucaultianos e dos Estudos Culturais em Educação, que atribui à linguagem e à produção de subjetividades um lugar central. Para Barker (2011, p.8), a linguagem não pode ser tomada como um meio neutro para a produção de significados. “As representações e os significados culturais apresentam certa materialidade. Ou seja, estão incorporados em sons, inscrições, objetos, imagens, livros, revistas e programas de televisão”.
Imerso em um cenário marcado pelo consumo de artefatos digitais, o plano metodológico do projeto foi sistematizado de acordo com os três movimentos investigativos. Na sequência, outras atividades, de caráter prático e metodológico, também são apresentadas como parte do projeto.
No intuito de construir um percurso investigativo que envolva neoliberalismo, plataformas web, redes digitais, processos educativos, aprendizagens, docência e cultura digital, leva-se em consideração o caminho exposto por Edward Said no texto “O Mundo, o Texto e o Crítico” (2004). Said propõe um roteiro, a seguir numerado:
1) Localização do ponto de origem: conjunto de circunstâncias em que se verifica a emergência dos conceitos e de ideias;
2) Distância percorrida: caminho entre a saída do ponto de origem até outro tempo, ou seja, como os conceitos/ideias se transformaram e de que forma são apreendidos no presente;
3) O conceito incorporado: as condições de possibilidade para emergência de conceitos/ideias, assim como suas respectivas aceitações e resistências.
Transpondo o roteiro de Said (2004) para o campo metodológico, foi elaborado um possível caminho baseado nos três movimentos de investigação .
Primeiro movimento investigativo (localização do ponto de origem): problematizar a Cultura Digital (GERE, 2008; LISTER et.al, 2009; STALDER, 2018; GREEBER e MARTIN, 2009) e a Plataformização da Sociedade (VAN DIJCK, POELL e WAAL, 2018) como estruturas envolvidas na produção de sentidos. Neste primeiro movimento, o objetivo é desenvolver um estudo sobre os(as) seguintes elementos, conceitos, termos, expressões e ideias: cultura digital; tecnologias digitais; redes sociais; plataformas digitais; plataformização da sociedade; smartphones; algoritmicidade, aplicativos digitais etc. Para isso utiliza-se a revisão bibliográfica de natureza exploratória, recorrendo a livros, teses, dissertações e artigos científicos.
Para tal movimentação, parte-se da análise discursiva, compreendendo como os conceitos pertencem a uma determinada época, e não são naturais e a-históricos. Eles foram constituídos historicamente e passaram a compor a agenda social, econômica e política que institui, a cada época, determinados regimes discursivos. Segundo Foucault (2010), esses regimes seriam aquilo que define, é aquilo que estabelece o regime de verdade. Desse modo, talvez seja possível, ao utilizar tal perspectiva, compreender que o modo como os conceitos entram em operação e ganharam visibilidade faz parte de um conjunto de práticas que se desenvolvem com o uso das tecnologias digitais.
Segundo movimento investigativo (distância percorrida): explorar as implicações da articulação entre “tecnologias digitais” e “racionalidade neoliberal”, sobretudo, no âmbito dos processos educativos (institucionalizados ou não). Para tal intento, além de acionar autores como Brown (2019), Dardot et.al (2021), Ball (2014), Laval (2004), Couldry e Mejias (2019), entre outros, utiliza-se a análise documental como recurso metodológico.
A análise documental permite problematizar a dimensão histórica e temporal com vistas à compreensão de determinado fenômeno. Isso significa analisar o processo de maturação e de transformação dos indivíduos, grupos, conceitos, conhecimentos, comportamentos, mentalidades, subjetividades, práticas, e assim por diante (CELLARD, 2008). Tanto a pesquisa documental quanto a pesquisa bibliográfica têm o documento como objeto de estudo. Contudo, neste projeto, o conceito de documento ultrapassa o texto escrito, envolvendo, dessa maneira, outras fontes de pesquisas, a exemplo de filmes, fotografias, postagens em redes sociais, vídeos no YouTube etc. Talvez a diferença entre a pesquisa bibliográfica (primeiro movimento de investigação) e a documental seja a busca por informações em documentos que ainda não receberam tratamento científico, tais como relatórios, documentos jurídicos, reportagens de jornais e revistas, filmes, documentários, entre outras publicações.
Portanto, neste segundo movimento de investigação, além dos autores citados, tem-se como material documental a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LEI nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996) o Plano Nacional de Educação (PNE), bem como programas que circundam o meio educacional e se encontram afinados às políticas neoliberais. Ball (2014) lista uma série de projetos ditos educacionais que, imbuídos de intenções “salvacionistas”, colocam em evidência empresas e instituições financeiras (Banco Mundial, OCDE etc.) que investem em programas na área da educação, a exemplo do “Todos pela Educação” e de movimentos filantrópicos similares. Empresas e programas se engendram às políticas de educação e acabam funcionando como “braços” da racionalidade neoliberal, não se limitando aos aspectos econômicos. Trata-se de um projeto de pesquisa cuja premissa é a de que a racionalidade neoliberal e o ingresso/consumo das tecnologias digitais na vida em sociedade têm transformado o universo da educação escolar, dos processos de formação dos sujeitos, das aprendizagens e da docência em um investimento individual e privatizado.
Terceiro movimento investigativo (conceito incorporado): analisar como as redes sociais, plataformas e aplicativos digitais vêm operando pedagogicamente. Trata-se de conjeturar a emergência e existência de Pedagogias Digitais (BORTOLAZZO, 2021), ou seja, outros tipos de pedagogias que possam responder às demandas e contingências da sociedade contemporânea.
Diante da expansão de práticas mediadas pelo digital, os sujeitos se encontram epistemologicamente expostos a uma racionalidade que tem nos aparatos tecnológicos uma de suas ancoragens. Episteme, seguindo a linha de entendimento de Foucault (2007), não é simplesmente uma forma de conhecimento, mas uma racionalidade que compreende um conjunto de relações, designando as condições de possibilidade a partir da filosofia, da empiria, dos saberes científicos ou não, produzidas numa dada época e apreensíveis ao conhecimento.
Este terceiro movimento se encontra amparado nos métodos digitais (ROGERS, 2013;2015;2019; D’ANDREA, 2020) e nos estudos de caso. Para Rogers (2013), os métodos digitais nos convidam a observar o redirecionamento dos mecanismos presentes nas plataformas, artefatos e aplicativos como objetos de estudo. Trata-se, sobretudo, de um processo de alfabetização digital que requer uma nova cultura de conhecimento. De forma objetiva, segundo Rogers (2013), os métodos digitais são compreendidos como prática de pesquisa (qualitativa, quantitativa ou quali/quanti), que tem como objeto os mecanismos e os dados nativos digitais. A arena investigativa dos métodos digitais é a internet e todo o ambiente online. A dinâmica dos métodos digitais está em seguir o meio (médium), já que as lógicas das redes sociais, plataformas e aplicativos digitais estão em mudanças e adaptações contínuas. Quer dizer, estudar o digital é também sinônimo de tentar compreender o transitório, o passageiro e o efêmero. Os mecanismos – sistemas de organização e extração de dados feito pelas plataformas, ou seja, os sistemas algorítmicos de personalização, recomendação, etc. –interferem, moldam e organizam a forma como os sujeitos se relacionam, se comunicam e compreendem o mundo ao redor.
É partir dos métodos digitais e de estudos de caso que se interpõe pensar nas Pedagogias Digitais enquanto espaços, artefatos e procedimentos que vão instituindo certas práticas e, por assim dizer, também governando a conduta dos sujeitos. Na mesma vertente epistemológica, outros modos de olhar e de compreender a educação, a pedagogia, os processos formativos, o ensino, a aprendizagem, o currículo, a docência, etc., entram em circulação.
Outras atividades, de caráter prático e metodológico, são parte do projeto e estão descritas a seguir: Reuniões periódicas (quinzenais) com os integrantes do Projeto de Ensino denominado “Entre Pedagogias e o Digital: deslocamentos, trajetórias e aprendizagens”; Reuniões periódicas com os integrantes do Projeto de Ensino (organizado enquanto grupo de estudo e em vias de ser cadastrado junto ao Cobalto/UFPel), prevendo o desenvolvimento de seminários e de leituras dirigidas inscritas no referencial dos Estudos Foucaultianos. O projeto, com ênfase no ensino, deverá iniciar no primeiro semestre de 2023 em parceria com o Prof. Dr. Fernando Cezar Ripe da Cruz (FAE/UFPel); A proposta é que este projeto de pesquisa se encontre vinculado a um evento que iniciou em abril de 2022 denominado de Jornadas de Estudos Culturais em Educação (JECE). As informações sobre essas Jornadas estão disponíveis em: jece.com.br; Internacionalização da pesquisa junto ao Instituto de Cultura e Sociedade (Institute for Culture and Society/ ICS) da Universidade de Western Sydney (UWS), na Austrália; O projeto de pesquisa se vincula ao Grupo de Pesquisa GPCC (Grupo de Estudos e Pesquisas em Currículo e Contemporaneidade), e está registrado na base do CNPQ através do endereço: dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/9837425627547599; Integração Pesquisa e Extensão: no escopo do projeto está prevista a incorporação de uma ação de extensão já em andamento na UFPel e intitulada “Diálogos Pedagógicos: questões emergentes na educação escolar”.

Indicadores, Metas e Resultados

Entende-se que os indicadores são elementos importantes que competem à produção, divulgação e comunicação das pesquisas. Dessa forma, com o objetivo de mensurar os resultados, relatórios parciais de acompanhamento e de desempenho, quando solicitados, serão fornecidos. Considera-se, assim, os seguintes indicadores, metas, expectativas de resultado e métricas descritos a seguir:
1) Primeiro Movimento de Investigação: problematizar a Cultura Digital e a Plataformização da Sociedade como estruturas envolvidas na produção de sentidos.
Meta 1: produzir e publicar estudos sobre a emergência da Cultura Digital operando nas várias esferas da vida cotidiana, sobretudo, no campo dos processos educativos e de formação dos sujeitos.
Meta 2: problematizar – inicialmente, junto aos grupos de estudo e, depois, pensando estratégias de expansão – como as relações com as tecnologias digitais vêm disseminando certos tipos de saberes, assim como regulando a conduta dos sujeitos.
Meta 3: desenvolver e ampliar os estudos sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no que diz respeito ao papel da competência denominada Cultura Digital.
Prazo: até o final do projeto
Resultados esperados:
Meta 1: publicação de artigos científicos e capítulos de livros.
Meta2: apresentações em eventos acadêmicos
Meta 3: a ideia é a de que o relatório sobre BNCC e Cultura Digital possa ser transformado em material didático destinado aos professores da educação básica.
Métricas: número de publicações produzidas pelo coordenador do projeto ou pelo grupo de pesquisadores; impacto de diversidade do portfólio de publicações e contagem de visualizações por publicação.

2)Segundo Movimento de Investigação: explorar as implicações da articulação entre “tecnologias digitais” e “racionalidade neoliberal”, particularmente, no âmbito dos processos educativos (institucionalizados ou não).
Meta 1: mapear os documentos normativos da Educação Brasileira, tais como LDB, BNCC, PNE, entre outros, com o intuito de produzir e divulgar relatórios em eventos acadêmicos, com vistas a analisar em que medida o digital se encontra incutido nos programas educacionais.
Meta 2: listar e inventariar, a partir de análise documental, os vários projetos ditos educacionais, financiados por empresas e instituições (Banco Mundial, OCDE etc.) que investem em programas na área da educação, se engendram às políticas e acabam funcionando como “braços” da racionalidade neoliberal.
Meta 3: alocar a temática “docência, racionalidade neoliberal e cultura digital” em ações de extensão, sobretudo, aquelas voltadas à formação inicial e continuada de professores.
Prazo: até o final do projeto
Resultados esperados:
Meta 1: produção de relatório e posterior apresentação em eventos acadêmicos; transformação do relatório em material de consulta para toda a comunidade acadêmica.
Meta2: produzir estudos de caso e análise documental; apresentar resultados em eventos acadêmicos; publicar resultados em periódicos científicos
Meta 3: a ideia é trazer a temática para ações e eventos de extensão, a exemplo do já citado “Diálogos Pedagógicos: questões emergentes na educação escolar”.
Métricas: número de participantes nos eventos de extensão; feedback do público das ações de extensão; impacto da temática na comunidade acadêmica; proeminência do tópico para a universidade e para a comunidade em geral;

3)Terceiro Movimento de Investigação: examinar quais são os recursos e as estratégias utilizadas por redes sociais, plataformas e aplicativos digitais, no sentido de operar pedagogicamente. Trata-se de conjeturar a emergência de Pedagogias Digitais.
Meta 1: publicar pesquisas teórico-empíricas sobre métodos digitais, contemplando as principais abordagens, os instrumentos para coleta e análise de dados e as indicações das melhores práticas de pesquisa com redes sociais, plataformas e aplicativos digitais.
Meta 2: utilizar de estudos de caso, a partir de redes sociais (Instagram, Twitter, Facebook etc.), plataformas web (Amazon, Google, Microsoft etc.) e aplicativos digitais (Uber, Waze, iFood, AirBnb, WhatsApp etc.) e produzir um compilado sobre Pedagogias Digitais.
Prazo: até o final do projeto
Resultados esperados:
Meta 1: publicação de artigos em periódicos científicos e capítulos de livros; proposição de uma disciplina a nível de graduação ou pós-graduação sobre métodos digitais .
Meta2: apresentar resultados em eventos acadêmicos; publicação de livro; apresentação da pesquisa junto ao JECE (Jornada de Estudos Culturais em Educação).
Métricas: número de publicações produzidas pelo coordenador do projeto ou pelo grupo de pesquisadores; número de citações; impacto de adesão a outras pesquisas; impacto de internacionalização; impacto das colaborações; contagem de visualizações por publicação.

Outras metas do projeto envolvem:
•Fomentar o diálogo entre as pesquisas acadêmicas e os discentes universitários, refletindo sobre as possibilidades de uma docência mais afinada às demandas da sociedade contemporânea.
·Instigar o debate sobre questões emergentes na educação escolar, convidando os docentes e futuros docentes a uma compreensão mais significativa e diversa sobre as práticas pedagógicas
·Melhorar a qualidade da formação docente inicial e continuada
·Consolidar uma rede de pesquisadores praticantes dos Estudos Foucaultianos e dos Estudos Culturais em Educação
·Organização e participação em seminários (nacionais e internacionais) e eventos acadêmicos

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
CAROLINA LESSA VIEGAS
Carla Simone Corrêa Marcon
DEISY JAQUES RIBEIRO
DENISE MACEDO ZILIOTTO
Daiete Toledo de Moraes
Eloenes Lima da Silva
FERNANDO CEZAR RIPE DA CRUZ
FRANCISCO ROBLEDO DE LIRA
GABRIEL FERNANDO PIRES LOFFHAGEN
GLADEMIR CALDERIPE DE VASCONCELOS
Isabela Dutra Corrêa da Silva
MARIANE INES OHLWEILER
NELSON DE OLIVEIRA SIMOES
SANDRO FACCIN BORTOLAZZO

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