Nome do Projeto
Genética como Problema Geográfico: novos sensos comuns sobre a identidade brasileira
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
01/06/2026 - 30/04/2030
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Humanas
Resumo
A popularização de testes genéticos que reivindicam revelar a ancestralidade de seus consumidores tem transformado a forma como populações compreendem suas origens e suas identidades. No Brasil, tais dispositivos adquirem especial relevância por incidirem sobre uma arena pública historicamente marcada por disputas sobre raça, mestiçagem e identidade nacional. Esta pesquisa investiga como discursos genéticos participam da formação de novos sensos comuns acerca da identidade brasileira e podem articular de maneira problemática noções de DNA, território e raça. Parte-se da hipótese de que a popularização da genética no cotidiano reconfigura as formas de pertencimento e os modos de imaginar a si mesmo e a nação. O problema central consiste em compreender como esses discursos acionam perspectivas biologizantes sobre as identidades nacionais e raciais, desestabilizando avanços teóricos que procuram superar o paradigma ontológico da raça. A suposição de que é possível revelar uma origem geográfica a partir do código genético reforça ideias de designação natural entre corpos e espaços, descartando o caráter político e social do território e enfatizando racionalidades racistas. Tais proposições desfiguram a relação do brasileiro com sua própria nação ao identificar o povo brasileiro como uma “mistura recente e desigual” (Nunes et al., 2025) entre raças alheias ao território. Evidências recentes indicam que categorias como “mestiçagem” e “origem” continuam a operar como dispositivos de poder e diferenciação racial. A pesquisa adota abordagem qualitativa em três etapas: mapeamento de quadros discursivos sobre genética e identidade nacional; coleta e análise de manifestações em redes sociais; e sistematização de estruturas discursivas com auxílio do software Atlas.ti. Tais estratégias permitirão identificar efeitos dos discursos genéticos do Estado, da ciência, da imprensa e de outras instituições que atuam na produção de subjetividades nacionais.

Objetivo Geral

O objetivo geral deste projeto é entender os efeitos da genética na produção de novos sensos comuns sobre a identidade brasileira. Tal propósito apoia-se nos seguintes objetivos específicos:

a) Mapear quadros discursivos emergentes sobre raça, identidade e genética no Brasil contemporâneo;
b) Descrever meios, gêneros, interlocutores e alcances das mídias que propagam informações genéticas para o público leigo;
c) Reunir e analisar reações, comentários e manifestações senso comum sobre as relações propostas pelos recentes discursos genéticos;
d) Investigar o funcionamento das categorias “raça” e “mestiçagem” na formação de senso comum sobre a identidade nacional;
e) Identificar discursos sobre origens geográficas e designação territorial dos corpos na formação identitária brasileira.

Justificativa

No Brasil a definição de um perfil racial não tem apenas impacto sobre as formas de identificação e formação da subjetividade, mas efeito direto no acesso a políticas públicas. A consolidação das políticas afirmativas trouxe o debate da identificação racial à grande política, exigindo ferramentas de Estado que pudessem
aferir a racialidade para poder efetivar pautas de inclusão racial. Passou-se de estratégias de autoidentificação (entendimento de si) às bancas de heteroidentificação (auditoria social). As bancas de heteroidentificação focam-se na projeção social da raça, pois entendem a manifestação fenotípica do racismo
brasileiro (Abel, 2018).

Os testes genéticos, por sua vez, vislumbram dar uma resposta definitiva à pergunta racial, ao mesmo tempo em que colocam em suspensão a negritude dos brasileiros ao reafirmarem que “somos um povo mestiço geneticamente” (Genera, 2025). A afirmação dos autores do projeto “DNA do Brasil” de que somos uma “mistura recente” (Nunes et al., 2025) trabalha com a ideia de que há certo grau de estabilidade genética e biológica (seria uma tentativa de redefinir raça?) suficiente para rastrear uma homogeneidade pregressa, a qual permite definir geneticamente essa mistura (Moore et al., 2025).

Muitos autores, inclusive geneticistas como Kampourakis et al. (2023b), argumentam que a noção de mistura3 supõe implicitamente a noção de degeneração de um estado original de pureza. Nesse sentido, adota-se a perspectiva de Ahmed (2006) de considerar a mestiçagem (inclusive, a mestiçagem genética) como uma tecnologia de governo e uma estratégia de invisibilização das relações raciais de
poder, pois ela aparecerá como figura reconciliatória, mas não reparativa, das explícitas iniquidades raciais do Brasil.

Ao divulgarem os resultados, os testes de ancestralidade não somente elencam as “populações de origem” de seus consumidores, mas atribuem a cada uma dessas populações um território ou uma região. Mencionam-se ambos os conceitos geográficos porque, do ponto de vista metodológico, a atribuição de uma área de ocorrência a um fenômeno a partir de critérios definidos pelo observador é uma regionalização. Contudo, ao oferecer a leitura de que essas “populações” também seriam “povos fundadores”4, atribui-se um caráter político, cultural e étnico a esses espaços, conferindo-lhes o estatuto de território e presumindo a existência de uma conexão identitária.

Todas as empresas que realizam os testes de ancestralidade materializam os resultados em um mapa. À cartografia é dado o papel de legitimar as “fantasias genéticas” (Nunes, 2025). A geógrafa Catherine Nash vem, ao longo das últimas duas décadas, interrogando os pressupostos geográficos que subjazem os novos
imaginários genéticos. Para a autora (2015, p. 47), a busca de relações entre grupos étnicos, composição genética e território não escapa de pressupostos nacionalistas eugênicos, cujas designações naturais entre os corpos e os territórios reforçam a racialização das identidades espaciais e, em particular, da nacional.

Ao seguir a análise de Anderson (2019, p. 215-216), pode-se pensar que o racismo também cria um problema à identidade nacional, pois a equiparação entre raça e nação gera, consequentemente, uma exclusão de muitos de seus membros que não estão previstos no projeto racial de cidadania. Trabalhos como os de Kilomba (2008) e Garcia (2025) mostram que a relação entre raça e identidade nacional não raramente é utilizada para acionar privilégios e estrangeirizar o Outro racializado. No caso de descendentes brancos de comunidades de imigrantes italianos e alemães do Sul do Brasil, por exemplo, a raça é usada como estratégia para estrangeirizar-se, associando-se a um país europeu estereotipicamente branco e dissociando-se do
Brasil racializado. No caso de pessoas negras na Europa, por exemplo, a raça vem acompanhada de interpelações de estrangeirização, produzindo uma incompatibilidade política entre fenótipo e território.

Como podemos notar na formulação dessa proposta, imaginários genéticos de população e território difundem-se de maneira crescente com a propagação de novos dispositivos para imaginar raça e identidade. Presume-se que esse recente quadro discursivo consolida a produção de novos sensos comuns sobre si e sobre as identificações com o território. A noção aqui utilizada de senso comum dialoga com a conceituação de Dan et al. (2014, p. 32, tradução própria) que prevê “um nível reduzido da abstração de modo a fazer inferências gerais aceitáveis ao não especialista”.

Metodologia

Este projeto oferece uma abordagem qualitativa de caráter exploratório e explicativo sobre a temática da identidade nacional a partir de dispositivos genéticos e raciais. A organização do desenho metodológico está estruturada em três etapas: (1) o mapeamento dos quadros discursivos (Imprensa, Estado, Ciência, Medicina etc.) sobre genética e identificação nacional; (2) a coleta de dados públicos em redes sociais e; (3) a identificação e análises de discursos de senso comum sobre a identidade nacional.

A noção de estruturas discursivas (Hay, 2016) será mobilizada para compreender as manifestações do senso comum — como vídeos, comentários e reportagens — enquanto racionalidades que produzem realidades socioespaciais. Essas racionalidades, por sua vez, derivam da constituição social do poder e do
saber, conforme propõe Foucault (2008). Na mesma linha, entende-se a identificação como função social da razão moderna, o que torna crucial identificar “a partir de que mecanismos epistemológicos pode (...) fixar-se, organizar-se, hierarquizar-se, controlar-se” (Revel, 2009, p. 81, tradução própria).

Busca-se rastrear as estratégias pelas quais a operação do discurso genético se efetiva e se associa entre diferentes entidades (Estado, imprensa, ciência, mercado, movimentos sociais) para a produção de imaginários sobre a identidade brasileira, para a formação de processos de subjetivação e para a produção de senso comum. A identificação racial (e, logo, o racismo) não pode ser entendida como uma
realidade biológica, mas como uma formação de mecanismos de poder que remontam a determinadas racionalidades políticas (Cf. Castro, 2019, p. 376-377).

A validação dos dados se dará mediante estratégias de análise em equipe, tradução dos principais sets ao inglês para permitir análise e contradição por parte da supervisora internacional do projeto e uso de reflexividade e triangulação, tal como sugere Adler (2022). A ética em pesquisa será guiada pelos preceitos constantes no cadastro do projeto sobre Ancestralidade Genéticas inscrito e aprovado na Plataforma
Brasil de Ética em Pesquisa do Conselho Nacional de Saúde (CAEE 60926222.9.0000.5317). Por não envolver sujeitos humanos, o desenho aqui apresentado dispensa termos ou outros protocolos de consentimento informado

Indicadores, Metas e Resultados

Esta proposta insere-se no esforço das ciências humanas em rastrear a genealogia de pensamentos excludentes, buscando compreender a continuidade de discursos eugenistas, racistas e xenófobos nas representações sobre identidade e pertencimento no Brasil. Para tanto, faz-se necessário identificar novos padrões e tecnologias na promoção de tais pensamentos e racionalidades. Espera-se que o projeto ajude o campo da Geografia e, em geral, das Ciências Humanas a entender os processos de produção de diferença que persistem na constituição de sujeitos racializados privilegiados e subalternos. Na linha da filósofa Suely Carneiro (2023), esta pesquisa é um esforço para uma leitura política de como se produz o Outro, fazendo-o por meio de estudos sobre artigos de consumo e através das novas mídias sociais (Hay, 2016). Com isso, também pretende-se fomentar uma discussão mais ampla e profunda sobre noções de identificação, cidadania nacional, perfil racial e outras categorias implícitas na proposição de medidas antirracistas.

Como contribuição epistemológica, busca-se explorar novas formas de relacionar território, questões raciais e processos de identificação. A Geografia Humana já apresenta suficiente literatura sobre como o território e as apropriações espaciais são elementos-chave ao desenvolvimento humano e aos processos de pertencimento. A contribuição que se apresenta aqui é a inserção de elementos genéticos, biológicos e biopolíticos como mediadores dessa relação entre corpos e espaços, o que parece uma temática ingente desde as salas de aulas das escolas até os confrontos eleitorais. O momento histórico atual é particularmente propício para discutir a relevância política das corporeidades na constituição dos espaços e das territorialidades.

Os instrumentos esperados na sistematização e análise dos dados produzidos no projeto incluem: um mapa mental com a sistematização dos conceitos empregados e aprofundados; um mapa de relações entre s categorias e discursos genéticos; elaboração de tabela sistematizando atores, recursos e linguagens dos meios e argumentos; um mapa de problemas entre noção desenvolvida (material fonte), compreensão do senso comum (comentários e reações) e problematização (literatura acadêmica)

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
CESAR AUGUSTO FERRARI MARTINEZ3
GABRIELA RODRIGUES GOIS3
TAÍS CASTRO GARCIA

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