Nome do Projeto
Tecnologias antigas e atuais do patrimônio industrial em museus e comunidades da região transfronteiriça do Arco Sul (RS)
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
29/05/2026 - 02/05/2030
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Sociais Aplicadas
Resumo
Investigam-se as conexões históricas e memoriais do patrimônio industrial e protoindustrial na Fronteira do Rio Grande do Sul (sub região XVII) e do Segmento Noroeste (sub região XVI-C) da Faixa de Fronteira do Arco Sul do Brasil, localidades do Uruguai e Argentina e, sobretudo, as cidades-gêmeas. Tais conexões serão buscadas, sistematizadas e analisadas com o auxílio de ferramenta computacional (QGIS) que gere Cartografia Simbólica Relacional (mapa Fluxo de Constelações, Network Maps ou Linhas de Tempo Geolocalizadas). A prospecção de objetos, documentos e outras fontes, será feita especialmente em museus ou em coleções particulares ou eventuais locais nas cidades elencadas nessas sub-regiões. Muitos desses objetos, vestígios diretos ou indiretos dos patrimônios industriais e protoindustriais, são produtos de “tecnologias intermediárias” (Schumacher, 1986), ou seja, objetos de fabricação simples e circunstancial, artesanal ou manufaturados, oriundos da reciclagem de outros objetos industriais, do seu reuso ou originalmente criados. Espera-se que parte desses objetos se inscrevam no âmbito do patrimônio alimentar, industrial e de transporte, em razão de que essas tipologias estão imbricadas em um sistema de trocas e produção local, inclusive de subsistência e sobrevivência, que indica a interculturalidade histórica desta faixa de fronteira. Estas duas sub-regiões contrastam entre si, tanto nos índices de desenvolvimento socioeconômico como na extensão territorial dos municípios e, assim, sugerem que mesmo diante de contrapontos, assemelham-se pela particular permeabilidade cultural fronteiriça. Os métodos que serão empregados incluem o estudo da paisagem histórica da produção, da gestão cultural integrada do território e das metodologias multicritérios associadas. O projeto orienta-se pela Política Nacional de Fronteira (PNFron, 2024) e busca em técnicas e tecnologias expressar o amálgama de memórias e saberes que formam tal faixa de fronteira.

Objetivo Geral

Objetivo principal: Identificar conexões, fluxos e transferências pela prospecção de locais e objetos representativos de técnicas e tecnologias antigas, ativos ou musealizados, transformados ou recentes, relativos ao patrimônio alimentar, industrial-alimentar e de transporte, em duas sub-regiões do Arco Sul no Rio Grande do Sul. Como a presença desses objetos é, majoritariamente, localizada em museus, é pela instituição museológica que se inicia a identificação. Na sequência, localizam-se coleções particulares e outras instituições de guarda de acervos, além de grupos determinados das comunidades, todos localizados em cidades no segmento de fronteira da Mesorregião Metade Sul do Rio Grande do Sul, incluindo parte da Campanha Gaúcha e parte do noroeste do Estado. O foco nesta área são as cidades gêmeas Brasil, Uruguai e Argentina e as demais nas quais se reconhece a legitimidade das “zonas de integração fronteiriça” (PDFF, 2009).

Justificativa

O campo de estudo vincula os conceitos de patrimônio imaterial, industrial e alimentar como motivadores de processos de produção que foram invisibilizados ou suplantados pela lógica produtivista da mecanização e industrialização em larga escala. No território estudado sustenta-se a ideia de que as tecnologias autóctones ou adaptadas são expressões de como comunidades diferentes operam soluções criativas e expressivas de modos de vida. Os resultados podem contribuir para que os atores envolvidos possam optar por continuar adaptando suas tecnologias ao invés de ingressar ou manter-se em sistemas produtivos externos e de baixa eficácia para suas necessidades. Inclusive, em casos específicos, as tecnologias relacionadas à produção das famílias de áreas rurais e rururbanas, oferecem possibilidade de sustento. Sob outro aspecto, ao conectar os museus da região estudada através desses objetos, incentiva-se o entendimento de como as localidades compartilham de passados comuns tangíveis, nos quais as pessoas (e não os conflitos e as disputas territoriais) encontraram modos de viver que menos tinham a ver com linhas divisórias e mais com soluções a questões em comum. Por outro lado, ao entender os objetos como marcas do tempo, desvela-se, de um modo mais tangível, a larga fronteira terrestre do Rio Grande do Sul com o Uruguai e Argentina nas suas possibilidades de integração. A cultura, portanto, passa a ser um elo e não um diferencial e, em última instância, discute-se a identidade desses lugares não como consequência territorial, mas como fluência de saberes que se moldaram ao longo do tempo. Portanto, conhecer essas tecnologias, atuando junto aos museus e comunidades, é um caminho de promoção do valor dos acervos que ali se encontram incentivando, o desenvolvimento de um turismo coadjuvante com a proteção do ambiente e da cultura local.
Ainda, outro aspecto a considerar é que a subregião do Arcosul XVII apresenta questões prementes ligadas à baixa densidade populacional e ao tipo de economia agropastoril que se consolidou e ainda define o perfil desses municípios. Com o passar do tempo, as antigas zonas rurais das cidades passaram a compor as novas cidades que, em consequência disso, apresentam pequena densidade demográfica. No lado uruguaio, a situação iguala-se. Observa-se como os movimentos na e da fronteira naturalizam-se, ocultando o fato de que são construções históricas. Ao comparar a área B da subregião XVI, formada por muitas cidades (20 cidades na fronteira noroeste), com pequena extensão territorial e curtas distâncias entre si, com a subregião XVII, nota-se que os marcos históricos das suas origens também são marcantes contrapontos. Mesmo contrastadas, ainda assim a permeabilidade fronteiriça se manifesta em ambas as subregiões de tal modo que o patrimônio, a cultura e a memória social, se trabalhados no sentido do incremento das identidades locais, são vetores de desenvolvimento social, como se observa em diferentes exemplos estudados. Busca-se dar luz as confluências.
Igualmente, há de se considerar que o estudo das técnicas e ferramentas produzidas pelas comunidades e grupo que se pretende observar indicará os processos de apropriação, intercâmbio e inovação inerentes a cada uma. Ao evidenciarem-se as tecnologias alternativas, mais sustentáveis, pretende-se que se estabeleça o contraponto entre o melhor aproveitamento dos recursos com o menor impacto ambiental, relativizando o sistema produtivista caracterizado pela mecanização, padronização e interesse direto no lucro.
Não apenas essa forma de tecnologia será evidenciada. Outra, valiosa e exemplar de um modo diverso de tratar a produção é aquela que podemos designar como tecnologias nativas, próprias de povos originários que empregavam valores e conhecimentos ancestrais em soluções de muita eficácia quanto às suas necessidades específicas. Tais fluxos serão observados nos museus, mais uma vez, contribuindo com a interpretação e uso dos seus acervos.

Metodologia

O objeto desta pesquisa é interdisciplinar e, por isso, também a metodologia foi constituída com tal condição. A metodologia está estruturada em quatro fases: 1) revisão documental; 2) sistematização das tipologias de objetos e locais; 3) trabalho de campo e leitura paisagística e 4) análise dos dados encontrados.
Revisão documental: Existem fundamentos quantitativos que requerem etapas específicas de organização para constituição da Cartografia Simbólica Relacional organizada pelo geoprocessamento. A plataforma a ser desenvolvida é um recurso que consiste na sistematização dos dados coletados, registros e documentos históricos, de forma a elaborar Mapa de Fluxo e Constelações, Network Maps e Linhas do Tempo Geolocalizadas das tecnologias pesquisadas em cada território. Empregam-se metodologias multicritério, a cartografia de conexões mantidas e perdidas, além de reflexões engendradas com as próprias comunidades para os quais se poderá aplicar duas metodologias de Apoio à Decisão (SAD) e Análise Espacial/Geográfica, no âmbito da Decisão Multicritério (AHP Fuzzy) e do Sistema de Informação Geográfica (SIG). Justamente pelo caráter subjetivo na eleição dos lugares e objetos, o método multicritério AHP Fuzzy (Saaty, 1990) poderá contribuir para equilibrar a imprecisão das subjetividades em uma hierarquização de valores transculturais. E, na sequência, para mapear os dados espaciais, será usada a ferramenta SIG (Tomlinson, 2008), cujo resultado será o de permitir a espacialização em camadas dos dados.
3) A preparação do trabalho de campo empregará as categorias de “Cartografias de Investigação Digital Colaborativa” e “Gestão ativa” (Sobrino, 2013), oriundas da metodologia das paisagens históricas da produção, que se empenham em considerar as variáveis que atuam sobre o patrimônio.
A Gestão Cultural Integrada do Território (Oosterbeek, 2010) será utilizida para propor, constituir e gerenciar o trabalho compartilhado com as comunidades a partir de uma estrutura focada na reconstrução da matriz sociocultural. Desse modo, é uma metodologia que privilegia e permite que se articulem as ações em: "[...] um núcleo identificado no patrimônio, pelo qual a valorização da materialidade residual de um tempo passado, que também está contido no presente, outorga à paisagem uma visão de conjunto partilhada" (Michelon, 2020, p. 87).
Para a eleição das cidades da região, além das já mencionadas cidades-gêmeas, considera-se a origem dos municípios nos desmembramentos ocorridos por processos de emancipação (ver quadros do projeto anexo). O histórico de cada município justifica o compartilhamento de um passado comum, tornando possível o encontro das conexões e a identificação dos fluxos de transferência e adaptações.
4) A análise dos dados pressupõe a localização e identificação dos objetos nas cidades, iniciará pelos museus locais. Nas cidades selecionadas o conceito de ecomuseu (Varine, 2013) será a forma de entender a instituição na área rural. Portanto, a identificação dos objetos do portfólio será feita, inicialmente, com base em três categorias: tecnologias antigas, tecnologias intermediárias e tecnologias atuais. A primeira categoria abrange objetos de origem artesanal e com a segunda, de manufaturados, podem constituir o patrimônio protoindustrial. A terceira contempla os objetos de origem industrial que podem ser de uso industrial ou os remanescentes industriais.
Também se oportuniza lembrar que os estudos sobre as zonas de fronteira do Brasil são muitos e alguns com antiguidade importante. No Rio Grande do Sul, autores e grupos de pesquisa, sobretudo das universidades do Estado, têm gerado importantes trabalhos que abraçam os muitos aspectos que caracterizam essas regiões. Há uma vasta literatura que apoiará o trabalho, na medida em que as questões forem surgindo. No entanto, reforça-se que o objetivo não é um estudo sobre a fronteira, mas na fronteira.

Indicadores, Metas e Resultados

1. Constituição dos mapas temáticos georreferenciados que formarão no seu conjunto a Cartografia Simbólica Relacional das conexões entre localidades, sistemas e objetos a partir do conjunto de bases de dados geoespaciais. Os mapas correspondem, a princípio, aos fenômenos específicos: produção protoindustrial, industrial (ambas alimentares), distribuição (rede ferroviária e automóvel) e locais de guarda dos objetos (museus e outros). Os mapas abarcam todos os municípios selecionados. Essa meta corresponde ao atingimento dos objetivos específicos a, b e d.
2. Geração de documentos e conteúdos colaborativos com os museus e instituições visitadas. Como os museus das cidades e entorno são o primeiro e mais importante local de busca dos objetos, cada visita redundará em uma forma de colaboração com a instituição visitada, dependendo da expectativa de cada gestão. Independente da colaboração, o registro autorizado dos objetos em foto e vídeo ocorrerá e fará parte da consecução da meta 1.
3. Retorno dos resultados da pesquisa aos colaboradores, depoentes e comunidades visitadas, seja na forma de publicação, eventos compartilhados e orientações, quando cabíveis ou solicitadas. É uma meta essencial, que contempla a ética na pesquisa e que fortalece a relação de confiança que se estabelece quando do recebimento do pesquisador. Essa meta está diretamente ligada à meta 2 e pode, conforme o caso, vir no mesmo formato de um acordo de colaboração, transparência no uso dos dados e documentação das visitas. Esse procedimento já vem sendo feito nos projetos que deram origem à esta proposta.
4. Atualização de conceitos, referências e experiências, com indicação de mudanças ou alinhamento com tecnologias de ponta. Essa meta corresponde a um dos resultados esperados pelo trabalho de campo, alinhado à revisão literária dos temas que constituem os mapas. É uma meta voltada para a validação e precisão dos dados, mas também à contínua validação das variáveis identificadas e dos métodos de análise.
5. Manutenção e promoção de ações interinstitucionais que intensificam o compartilhamento de resultados advindos de pesquisas. Como nos outros projetos que antecedem esta proposta, ações de compartilhamento como rodas de conversa, relatórios e/ou boletins informativos podem dar conta de manter a proximidade com os pesquisadores colaboradores, além da realização de eventos conjuntos que operam satisfatoriamente a integração dos pesquisadores.
6. Intensificação da reciprocidade entre as instituições envolvidas (UFPel, FURG, Unipampa e Udelar) é uma meta estratégica complementar à meta 5, que tem por finalidade evidenciar as transferências históricas que fazem da região estudada uma área de integração cultural. A reciprocidade, no caso dos estudos nos dois países vizinhos, demanda que os agentes culturais do outro país atuem favoravelmente pela inserção da proponente no local.
7. Estreitamento da colaboração com a Udelar que é uma instituição estrangeira com a qual se compartilham aspectos geográficos, de mobilidade, históricos e culturais, além dos econômicos. Essa meta especifica ações já intencionadas na meta 6 e justifica-se porque esta pesquisa apresenta potencial para a promoção de produtos culturais conjuntos entre as instituições. Sob tal aspecto é importante lembrar que a UFPel ingressou na Associação das Universidades do Grupo Montevídeo em 2024 e tem buscado um trabalho colaborativo em todas as áreas do conhecimento.
8. Desenvolvimento de co-orientação de dissertações e teses nos temas da proposta, bem como participação de bancas de defesa dos trabalhos, de missões vinculadas ao projeto e de publicações do PPGMSPC, com os parceiros colaboradores, ampliando, desse modo, o espectro de atingimento dos objetivos.
9. Participação em eventos com apresentação dos resultados e produção de artigos e publicações. Um dos eventos, dos quais a proponente vem participando com regularidade, é as Jornadas Patrimonio Industrial INCUNA, Gijón, Espanha, que em 2025 completo 27 edições.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ALAN DUTRA DE MELO
CATERINE HENRIQUES MENDES
CLÁUDIA DA SILVA NOGUEIRA
CÁTIA MARIA DOS SANTOS MACHADO
FRANCISCA FERREIRA MICHELON2
JOAO FERNANDO IGANSI NUNES2
KATIA HELENA RODRIGUES DIAS2
LAIANA PEREIRA DA SILVEIRA
LAURA IBARLUCEA DALLONA
LILIA WALTZER RODRIGUES
NATHALIA DA SILVA BENITO
SABINA VALLARINO SEBASTI
UBIRAJARA BUDDIN CRUZ3
UESLEI MENEZES VARGAS
WAGNER HALMENSCHLAGER1

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