Nome do Projeto
Pedagogias Culturais Surdas: Educadores Surdos refletindo sobre práticas, concepções e possibilidades através da tecnologia – Parte III
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
16/09/2021 - 31/07/2024
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Linguística, Letras e Artes
Resumo
Pedagogias Culturais Surdas: Educadores Surdos refletindo sobre práticas, concepções e possibilidades através da tecnologia – Parte III tem por objetivo analisar práticas educacionais culturais surdas em espaços educacionais formais ou informais, remotos ou presenciais, tradicionais ou tecnológicos em que comunidades surdas e aprendizes surdos habitam. Com o impacto da intensificação digital e do distanciamento social impostos pela pandemia de COVID (2020-2021) se fez ainda mais necessário concentrar esforços na investigação das práticas pedagógicas digitais que envolvem tecnologia da informação. A parte III desta pesquisa, iniciada originalmente em 2001 na Universidade de Bristol, Inglaterra, almeja ampliar o escopo de participantes no território brasileiro totalizando 25 educadores surdos distribuídos nas várias regiões do país. A coleta de dados se dará através de entrevistas e observações que serão coletadas de forma presencial ou remota. A pesquisa terá duração de três anos e será orientada pela metodologia da etnografia educacional. A pesquisa conta com um grupo de validação internacional composto de 10 educadores e pesquisadores da área de educação de surdos, distribuídos em vários centros e institutos de educação de surdos incluindo os países do Chile, Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. As discussões e análises terão carater coletivo e se desenvolverão através de grupos focais, oficinas e eventos desenvolvidos ao longo dos três anos desde a organização, realização e finalmente a disseminação dos dados coletados na pesquisa.

Objetivo Geral

O objetivo geral que norteia esta pesquisa é:

Analisar as concepções e práticas culturais surdas provindas de espaços de aprendizagem formais ou informais, remotos ou presenciais, tradicionais ou tecnológicos, em que a comunidade surda circula com o intuito de mapear práticas pedagógicas dos professores surdos ainda não identificadas em estudos anteriores, e os impactos da intensificação digital e do distanciamento social impostos pela pandemia, para, logo após, disseminar as novas informações por vários meios, inclusive digitais.

Os objetivos específicos desta pesquisa são:

Examinar as práticas pedagógicas surdas apontadas nos estudos anteriores e atuais selecionados a fim de organizá-las em categorias para a apresentá-las aos grupos de discussão e revalidá-las;
Entrevistar educadores surdos a fim de revalidar os dados coletados nos estudos anteriores e atuais e mapear possíveis novas práticas.
Construir canais de disseminação das pedagogias surdas organizadas nesta pesquisa para profissionais surdos e ouvintes atuantes em educação de surdos através da escrita de artigos, organização de eventos e por meios digitais;
Promover oficinas para a construção de práticas pedagógicas que culminem na produção de materiais, formação profissional, por intermédio da tecnologia da informação;
Explorar e testar estratégias pedagógicas de integração entre professores surdos/escola de surdos-famílias de surdos-comunidade surda que visem apoiar a aprendizagem e desenvolvimento integral de alunos surdos.

Justificativa

A impossibilidade da utilização dos espaços físicos e relação professor-aluno (s) presencial impossibilitaram a realização das atividades previstas para o pleno desenvolvimento do projeto intitulado "Pedagogias culturais surdas: educadores surdos refletindo sobre práticas, concepções e possibilidades através da tecnologia – Parte II". Embora o enfoque fosse o uso da tecnologia, precisávamos do ensino presencial para desenvolvermos os objetivos e investigação que delineamos nesta pesquisa. Além da repercussão da pandemia nas atividades do projeto em si, ainda mais crítico foi o impacto do necessário distanciamento social nas práticas pedagógicas dos professores surdos (e ouvintes) atuantes nos espaços educacionais que visam construir e praticar a educação bilíngue de surdos. Em razão do ensino remoto, o emprego da tecnologia foi intensificado, se configurando em um campo mais fecundo ainda para análise das práticas relativas a este ensino, concepções e possibilidades diversas para a educação de surdos através da tecnologia digital. Todavia, questões de base sobre a relação aluno-professor, alunos entre si, alunos-professor, equipamentos e condições tecnológicas necessárias ao ensino, relação família-escola/professores/alunos passaram a ser ainda mais relevantes no contexto atual que vivemos na educação de surdos no Brasil e no mundo. Com base nestas circunstâncias e necessidades, optamos por revisar o projeto inicial e prorrogar esta pesquisa por mais três anos para que possamos ter o tempo e as condições necessárias para o desenvolvimento desta investigação.

Metodologia

A metodologia do estudo seguirá aquela descrita em Gonçalves (2009) e González (2017), obedecendo a orientação da etnografia aplicada à educação (Carspecken, 1996; Beijaard, Meijer & Verloop, 2004; Blommaert & Jie, 2010; Blomberg, & Karasti, 2012) Fetterman define etnografia como “a arte e a ciência de descrever um grupo ou uma cultura” (1998, p. 1). Fielding oferece uma definição metodológica:

Etnografia é uma mistura curiosa de técnicas de investigação. É parte essencial ter uma interação social comprometida com os sujeitos do estudo no campo. Faz-se observações diretas de eventos relevantes entrevistas formais e uma grande quantidade de entrevistas informais. Pode-se incluir algumas contagens sistemáticas, coletas de documentos e artefatos. Todas estratégias devem contribuir para manter uma perspectiva sempre aberta em relação as revelações que o estudo possa fazer.
(2000, p. 148)

As abordagens etnográficas em pesquisas relacionadas com comunidades linguísticas minoritárias, pesquisadas por indivíduos que não a têm como língua materna, particularmente, devem se esforçar para representarem as línguas, culturas e comunidades dentro de suas próprias estruturas de referência, mais do que daquelas impostas de fora para dentro. O fato de que um dos coordenadores da pesquisa é surdo e uma das assistentes de pesquisa também é surda, além do que nossos participantes e informantes são surdos deverá minimizar este desequilíbrio.
O objetivo etnográfico de entender e interpretar o comportamento linguístico, pedagógico e cultural é um desafio ainda mais significativo, principalmente em comunidades minoritárias. Trabalhar em campo como pesquisador para transformar essa experiência cultural em novo conhecimento pedagógico é uma atividade complexa. Uma dificuldade particular com pesquisa etnográfica é que os membros de uma cultura normalmente não conseguem dar explicações racionais sobre suas crenças e práticas. Tal fato requer que a experiência precise ser recriada através da reflexividade (Hammersley & Atkinson, 1991).
Por outro lado, pesquisadores estranhos à cultura se arriscam ao forçar interpretações sobre os dados e, não excepcionalmente, podem falhar ao tentar representar as estruturas culturais originais do(s) grupo(s) envolvidos. Outro risco é imaginar que se possa entender as manifestações culturais inteiramente.
Na verdade, o mais perto que um pesquisador pode chegar do seu objeto de estudo, neste caso, é uma percepção ou representação próxima da determinada cultura, ainda que seja um membro dela (Hall, 1998). Esta visão de etnografia se identifica com as perspectivas dos estudos culturais, já que as “interpretações” são entendidas como representações e sujeitas às variações trazidas tanto pelos olhos do observador, quanto pelo próprio objeto ou fenômeno social observado. A cultura e a educação, enquanto práticas culturais, também não podem ser capturadas ou ter características estáticas, e se encontram em permanente estado de “diferenças” no meio e espaço temporal em que se encontram.
Com isso em mente, o etnógrafo tenta interpretar as práticas culturais e sociais do dia-a-dia, específicas ou gerais, que o grupo estudado utiliza (Green, Skukauskaite e Baker, 2012), sem jamais tomar para si qualquer domínio sobre essas.
Salienta-se que as informações coletadas através das novas entrevistas que este tudo propõe sempre serão entendidas como uma fotografia representacional do momento e não como uma verdade ou representação de uma suposta realidade, como nos moldes da antiga etnografia (Fielding, 2000). Por isso a revisita ao campo (Gonçalves, 2009) e o contraste desses dados com comunidades surdas diversas no Brasil (Reis, 2006 e 2016) e fora dele (González, 2017) são tão pertinentes.

Estratégias e instrumentos

Análise comparativa dos estudos
Os estudos anteriores e os dados do estudo atual serão analisados contrastiva e comparativamente a fim de reunir o maior número de pedagogias e estratégias em forma de banco de dados. Seminários periódicos entre os pesquisadores das entrevistas digitais (feitas a distância) serão desenvolvidos para a análise e discussão desses dados. Um banco de informações será organizado a partir destes esforços.

Entrevistas
As entrevistas individuais e o contato permanente com os educadores participantes serão feitos por email, comunicação digital via meet ou outros meios digitais adequados e disponíveis, conforme adequado às necessidades dos informantes e as dos entrevistadores. As entrevistas, pelas motivações epistemológicas do estudo, serão conduzidas por colaboradores surdos da pesquisa ou pelas pesquisadoras ouvintes colaboradoras. Os colaboradores surdos são educadores e pesquisadores surdos que já integraram edições anteriores, como informantes, ou novos pesquisadores surdos que serão treinados pela equipe neste novo empreendimento investigatório. Sempre que possível a entrevista ou discussão será gravada em mídia digital pelo aplicador surdo ou ouvinte. Ela poderá ser conduzida em língua portuguesa se for comunicação escrita e Língua de Sinais se for conduzida via meio digital visual , forma que será tida como prioridade na coleta pelos aspectos culturais e linguísticos envolvidos na coleta. Clandinin & Connelly, 1996; Ison, 2009).

Seleção de Novos Informantes
A seleção dos novos participantes, educadores surdos colaboradores, será feita através de indicação vinda de escolas e institutos surdos das regiões e cidades em que os primeiros estudos foram desenvolvidos. O contato e treinamento será feito com cada educador que receberá uma explanação detalhada sobre o projeto pelos pesquisadores colaboradores da pesquisa. Os surdos informantes, ao aceitarem o convite de participação, receberão um documento que será preenchido por cada participante com seus dados e consentimento.

Diário de observações
Cada pesquisador e ou assistente terá seu diário de pesquisa de observações e notas, a partir de seu contato formal e informal com os espaços educativos presenciais ou digitais em que surdos atuam como educadores. Tais registros serão discutidos periodicamente durante o desenvolvimento da pesquisa e colaborarão para a análise final dos danos. Registros de eventos e situações pedagógicas relevantes para pesquisa poderão ser feitos digitalmente somente, ou em papel, conforme a relevância e a necessidade prática para a realização da coleta.
Estratégias pedagógicas
Para explorar e testar estratégias pedagógicas de integração entre professores surdos/escola de surdos-famílias de surdos-comunidade surda que possam servir como modelo para aprendizagem e desenvolvimento integral de alunos surdos no futuro para outros espaços de aprendizagem nacionais, utilizaremos a Escola Alfredo Dub, cidade de Pelotas/RS, como campo de pesquisa e ação. Utilizaremos esta escola pela sua proximidade geográfica da universidade que desenvolve esta pesquisa, pelo conhecimento da realidade local e engajamento dos pesquisadores na comunidade surda local. Ao fazer esta iniciativa, objetivamos colaborar também com a construção do Projeto de Escola Bilíngue desta instituição e comunidade surda local. Esta ação será desenvolvida em pareceria com o Instituto Ladd, sediado também em Pelotas/RS. As atividades poderão ser presenciais ou virtuais e a Escola Alfredo Dub será o campo de aplicação e testagem destas estratégias.

Este projeto prevê visitas em escolas de surdos e universidades nos Estados Unidos e Alemanha
Alemanha:
Há duas universidades principais que possuem institutos e departamentos de Língua de Sinais, são:
Universidade de Berlim tem dois departamentos principais: Departamento de Estudos Surdos e Interpretação de Língua de Sinais e Departamento de Língua de Sinais e Pedagogia Oral. Estes departamentos possuem vários professores e pesquisadores surdos e ouvintes que trabalham e focalizam com as pesquisas sobre Estudos Surdos, Pedagogias, Estudos de Língua de Sinais, Professores bilíngues, Interpretação e tradução, entre outros.
Universidade de Hamburgo tem tem um Instituto de Estudos da Língua de Sinais da Alemanha e Comunicação / Comunidade Surda - IDGS qual tem pesquisadores e professores que trabalham com a área da Língua de Sinais e Comunidade Surda.
Ha duas escolas principais que atendem alunos surdos em Hamburgo e Berlim, são:
Escola de Surdos em Hamburgo: Elbeschule
Escola de Surdos em Berlim: Ernst-Adolf-Eschke-Schule
Estados Unidos:
Tem várias escolas de Surdos, este projeto opta visitar uma escola de surdos na California, California School For The Deaf. Também pretende visitar Universidade Gallaudet, única universidade para surdos no mundo, está localizada em Washington, D.C.
Pretendemos fazer visitas, conhecer as estruturas e os trabalhos dos professores surdos e pesquisadores das escolas e universidades visitadas, apresentar nossos dados e contrastar opimioes e achados.

Análise e Grupos de Discussão
O estudo de interpretação das novas narrativas e pedagogias será feito através de análise temática (Boyatzis, 1998). Após a primeira análise dos dados, um grupo de discussão será organizado com os informantes educadores (Balch & Mertens, 1999), assistentes de pesquisa surdos e colaboradores desta pesquisa. Nas fases posteriores, uma série de seminários de discussão com os colegas pesquisadores colaboradores da pesquisa atual será conduzida para a análise dos dados novos.

Escrita de artigos e disseminação dos dados
Temos a previsão de escrita de pelo menos mais três artigos com base neste estudo previstos 2022 e 2023. O processo de disseminação dos dados e das pedagogias acontecerá através deste projeto, o qual é desenvolvido pelo grupo de pesquisa PLED – Políticas Linguísticas, Educação e Interculturalidade (CNPQ)

Indicadores, Metas e Resultados

Indicadores de progresso ao final de cada seis meses do projeto
A observação do cumprimento das metas estipuladas no cronograma.
A elaboração de registros para os relatórios parciais anuais e produção de, pelo menos, três artigos ou produções mais extensas, como também a divulgação em dois ou mais eventos científicos nesse período.

Indicadores de resultados ao final do projeto
Catalogação e conceituação das práticas e pedagogias evidenciadas.
Publicação dos resultados em veículo da literatura da área.
Organização de workshops com professores surdos e ouvintes atuantes no campo da educação de surdos.

Repercussão e/ou impactos dos resultados
A revelação dos resultados nesta linha de pesquisa implicará nos seguintes aspectos ou elementos:

Revisão dos parâmetros da educação de surdos sob um prisma étnico-cultural nos moldes de outras pedagogias linguístico-culturais, a qual fortalecerá as abordagens bilíngues e interculturais para o ensino de crianças e adultos surdos nos seus vários ambientes educacionais;

Revelação e catalogação de novas filosofias, práticas e estratégias, as quais enriquecerão o processo de ensino-aprendizagem e a formação de docentes surdos e ouvintes para atuarem com alunos surdos, e colaborarão para o surgimento de uma nova epistemologia na educação de surdos, a seu tempo;

Fornecimento de dados enriquecedores que poderão circular nos meios educacionais de surdos nos níveis regionais, nacionais e internacionais, como também nos respectivos veículos de informação científica por intermédio, também de mídias digitais;

Incentivo à formação de redes de comunicação in loco e online, bem como à troca com as comunidades escolares e diversos ambientes que atendem a população surda.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ALINE DE CASTRO E KASTER4
ANTONIELLE CANTARELLI MARTINS
FABIANO SOUTO ROSA4
FRANCIELLE CANTARELLI MARTINS4
Gabriele Schulz Zitzke
IVANA GOMES DA SILVA4
JOSEANE MACIEL VIANA
LAUREN SILVEIRA FARIAS
Nícolas Cristiano Thurow Brahm
REJANE STORCH HOLZ
SABRINA PÔRTO REGO

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