Nome do Projeto
Sustentabilidade do patrimônio industrial na Microrregião de Pelotas/RS
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
01/03/2023 - 01/01/2025
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências Sociais Aplicadas
Resumo
Este projeto está vinculado ao plano de trabalho do Acordo de Cooperação Técnica no 11/2022 em desenvolvimento, celebrado entre a Universidade Federal de Pelotas e Universidade de Sevilha (Espanha), publicado no Diário Oficial da União No 133, 15/07/2022, p.1668. O tema circunscreve-se no diverso e amplo campo de estudos do Patrimônio Industrial. O objeto são as extintas fábricas familiares de alimentos da antiga zona rural de Pelotas e o estudo de possíveis usos sustentáveis para esses espaços que cumpram, também, com promover, participar ou incentivar a sustentabilidade do território no qual se encontram. Em geral, a maioria das fábricas extintas acaba tendo destino similar: o abandono. Muito poucas, das que não se tornam espaços esquecidos, adquirem um uso que lhes permite evocar a densidade patrimonial e histórica que a elas é inerente. São o principal suporte das memórias de um tempo suplantado, o da fábrica ativa. No entanto, se a revitalização de um patrimônio industrial em área urbana já é minoritária perto a de outras tipologias patrimoniais, na área rural é quase improvável que venha a acontecer. Portanto, o debate que se estabelece é como pode ser a sustentabilidade desses lugares e, sobretudo, como torná-los lugares de sustentabilidade em zonas de pouca visibilidade cultural. A região deste estudo é a que tem como polo a cidade de Pelotas, situada no sul do estado do Rio Grande do Sul, cuja origem é a agroindústria charqueadora praticada no último quarto do Século XVIII até o início do século XX. É, notadamente, uma região de origem industrial que se estabeleceu ao longo dos cursos de água, hoje nomeados Canal São Gonçalo e Arroio Pelotas, já que a produção do charque exigia grandes volumes de água e escoamento da produção por transporte lacustre. Em meados do Século XIX havia mais de 30 charqueadas (Gutierrez, 2001) na região. Durante esse século e a primeira metade do seguinte, se constituiu o centro urbano de Pelotas, concomitante à instalação de outras fábricas que aproveitavam os subprodutos do animal abatido, como o couro, gordura e ossos. A decadência da produção do charque deu-se por muitas razões (Pesavento, 1980) e enquanto isso acontecia, fortalecia-se a industrialização nos arredores, com fábricas de transformação de matérias-primas agrícolas: moinhos, cervejarias, conservas, rizicultura e a manufatura do doce colonial. Conforme os distritos rurais foram se emancipando, a relação entre o fechamento de uma fábrica e o impacto sobre a cidade assumiu proporção superlativa e com outros problemas: a evasão dos jovens, a perda dos referenciais identitários e das tradições, o abandono da terra, a dúvida sobre o futuro e o esquecimento desses locais de trabalho.

Objetivo Geral

A construção do objeto desta pesquisa, que está delimitado na sua condição territorial e espacial, partiu de uma consideração elementar ao campo observado: se o impacto da industrialização é potente no ambiente urbano, igualmente o é no rural. No Rio Grande do Sul, a Microrregião de Pelotas é caracterizada por uma situação socioeconômica comum, diretamente vinculada ao processo de ocupação da região em uma área rural extensa, na qual predominam variáveis transversais aos municípios que definem elementos de uma cultura compartilhada. A partir do exposto, são três os objetivos gerais a serem atingidos:
1. Identificar os exemplares das fábricas extintas da área rural que se apresentem como um potencial bem para a comunidade local, observando suas possibilidades de uso de uso e desenvolver sobre esses a mais extensa documentação possível, parcialmente a ser realizada em conjunto com a comunidade (VARINE, 2022), em uma perspectiva multifocal e multivocal, que faça reconhecível no bem as suas dimensões históricas, sociais e memoriais.
2. Investigar a paisagem histórica da produção como um processo articulador entre os stakeholders atuantes a partir do reconhecimento do território, prospectando os elementos para um diagnóstico completo do território dessas fábricas e da trajetória histórica das transformações que se operaram com a sua presença e fechamento.
3. Estudar os valores do patrimônio industrial (social, material, técnico e imaterial) apontados nas diferentes dimensões que o definem (física imóvel e móvel, social e cultural) aplicados às fábricas escolhidas e propor estratégias aplicáveis de sustentabilidade (TORELLY, 2022) do bem, que equacionem a condição memorial com novos usos.

Justificativa

O panorama pós segunda revolução industrial ocorreu como resultante de um programa que impactou os modos de vida e o comportamento de diferentes sociedade (Sobrino; Sanz, 2019) e que podemos referir como um fato social — aqui entendido sob o conceito de Durkheim (2016). A fábrica enquanto sistema de produção, que impõe os papéis de cada pessoa no substrato de sua operação, quando finda, torna-se um documento sobre a cultura do trabalho e sobre o território no qual interferiu (Sobrino, 2017) que, no estudo em questão, é particularmente rural.

Portanto, entender o processo em curso na região aqui referida demanda atenção específica de que se está descrevendo um território e que se o está particularizando porque apresenta um conjunto de características interligadas e indissociáveis. Ressalta-se que o Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável (2009), considera municípios rurais aqueles que, apesar de ter uma parte de sua população morando na cidade, baseiam sua economia na agropecuária. Soma-se o fato de que o critério adotado pela Secretaria do Desenvolvimento Territorial do Ministério do Desenvolvimento Agrário, entidades que formulam as políticas para a temática, considerava que municípios com até 50 mil habitantes e densidade de 80 hab/km2, eram rurais. Portanto, seja pela relação número de habitantes e área, seja pela condição da base econômica, as quatro cidades emancipadas de Pelotas, e aqui estudadas, são municípios rurais. Para essas cidades, é um conflito manter-se rural tendo abdicado de ser um distrito da cidade polo. Questões referentes aos cultivos locais devem ser relacionados, (Raseira, Nakasu e Franzon, 2021), assim como os antecedentes do melhoramento das plantações e a produção industrial que datam do início do século XX (Guimarães, 2020). Outros aspectos desenham o território nos quais estão essas cidades bem como a produção e industrialização das culturas (Caruso, 2008; Santos, 2011; Maciel, 2011; Souza, 2018; Salaberry, 2012; Menasche, 2015; Nedel, 2016; Coelho, 2021).
O que se apresentam neste projeto parte da análise de exemplares que se encontram circunscritos pela cidade e pelo entorno. Considera-se que os espaços fabris rurais concentram mais usos espontâneos do que os da cidade, (Sobrino, 2019). Por isso os espólios dessas fábricas rogam ser tratados a partir de uma perspectiva multifocal e multivocal, atenta ao uso sustentável.
O problema de pesquisa deste projeto estrutura-se a partir de três considerações: 1) o território, aqui especificado no qual se encontra o patrimônio; 2) a paisagem histórica, aqui aplicada ao surgimento e constituição do patrimônio industrial e 3) a sustentabilidade, aqui tratada como o vetor de aprofundamento das questões relacionadas à memória dos modos de vida. Na conjunção dessas, apresentam-se as seguintes premissas: 1) necessário considerar o potencial de sustentabilidade dos bens desses espaços; 2) a fábrica abandonada faz parte de uma paisagem e para que se entenda o valor social da paisagem antes é preciso determiná-la em relação ao seu território. Assim, se busca conhecer o objeto a partir das circunstâncias da região definida pelas quatro cidades que têm sua origem em Pelotas, que hoje é o polo. O conceito paisagem histórica da produção implica em uma metodologia que deverá considerar o objeto em relação ao território e às comunidades adstritas.
O problema central se constitui em identificar, registrar e compreender o patrimônio industrial da zona rural da microrregião de Pelotas a partir da sua inserção em um território que se define como uma paisagem histórica, memorial e identitária, vinculada a um processo de rompimento com uma base matricial, o polo. Será usado como levantamento inicial aquele feito por Bach (2009, 2017) sobre as indústrias rurais de compotas de pêssego no município de Pelotas, no período anterior à emancipação das cidades Capão do Leão, Arroio do Padre, Morro Redondo e Turuçu, entre os anos de 1950 e 1970. Essas fábricas usavam, prioritariamente, a mão de obra local o que indica que os stakeholders dessa memória participam da paisagem de onde estão tais patrimônios industriais e na confluência das trajetórias, esses patrimônios possuem um valor social que deve ser considerado, como indica a Carta de Sevilla (Sobrino; Sanz, 2018, p. 22).


Metodologia

1. Reconhecer as fábricas extintas, de produção do alimento, da área rural das quatro cidades que formam a Antiga Pelotas, na zona da Microrregião de Pelotas, em condições de uso ou em ruínas para a constituição de um inventário de localização e descrição do estado do imóvel.
2. Determinar os exemplares que apresentem potencial de uso coadunado com o interesse da comunidade local pelo bem.
3. Registrar amplamente o bem, em conjunto com a comunidade, em uma perspectiva multifocal e multivocal, que faça reconhecível no bem as suas dimensões históricas, sociais e memoriais.
4. Inferir, a partir dos levantamentos e registros, as possíveis eleições e sistematizações dos exemplares de patrimônio industrial alimentar eleitos em conjunto com a comunidade, para, então, afinar os instrumentos de coleta dos dados na observação, pautados na aplicação das categorias de análise (técnica, temporalidade, historicidade, produção, tradição e memória) e posterior descrição dos processos observados (paisagem, território, espaço produtivo e processos de globalização);
5. Combinar de modo analítico a visão global com a local na descrição dos elementos que podem ser constitutivos da paisagem industrial — históricos, internos e externos —, em ao menos um exemplar por ano que possa gerar o protótipo de análise;
6. Identificar, nos mesmos campos descritos, os condicionantes de territórios específicos, que levem em conta a dimensão física, social e histórica;
7. Descrever o sistema integral da paisagem da produção, de modo a ser possível distinguir as fases dos processos produtivos;
8. Relacionar tais fases com as duas dimensões que balizam a observação, quais sejam, o investimento na preservação dos vestígios materiais e o investimento na constituição de referências memoriais empregando as categorias apresentadas por Sobrino (2019): paisagem estrutural, articuladora e funcional da produção;
9. Examinar, a partir da identificação do território, características de ruralidade (WANDERLEY, 2001; SACHS, 2002; SCHNEIDER, 2010; MEDEIROS, 2017) que interessam para a compreensão das paisagens de acordo com as fases de delimitação espaço-temporal aplicadas ao campo designado.
10. Concluir a partir do estudo sobre as possibilidades de um uso sustentável do exemplar protótipo da intervenção, tendo discriminado as variáveis de risco da manutenção.

Indicadores, Metas e Resultados

Indicadores

1. Grupo focal em cada comunidade (as quatro comunidades somam 22 localidades e consideradas áreas rurais, são 19) formado a partir da interlocução do grupo de pesquisa com a prefeitura da cidade e a associação local.
2. Inventário das fábricas extintas da área rural estudada (Ficha elaborada a partir da Ficha de identificação das fábricas do Projeto Documenta - Província de Córdoba/ Andaluzia/ Espanha)
3. Sistematização do Território Serra dos Tapes com localização das fábricas por georreferenciamento;
4. Página eletrônica do projeto;
5. Proposta de intervenção e uso com planejamento da manutenção das fábricas eleitas;
6. Protótipo aplicado da intervenção.

Metas

1. Formação do grupo focal em cada comunidade (ex-trabalhadores, familiares, fornecedores, vizinhos e outras pessoas diretamente relacionadas às fábricas) que participarão do desenvolvimento da pesquisa.
2. Desenvolvimento e aplicação do inventário das fábricas extintas da área rural estudada que se apresentem como um potencial patrimônio para a comunidade local.
3. Sistematização dos instrumentos de coleta dos dados na observação com aplicação nos territórios identificados pelas fábricas;
4. Desenvolvimento da página eletrônica do projeto para divulgação dos registros, documentos e demais atividades relacionadas com a fábrica;
5. Identificação em instrumento específico da dimensão física, social e histórica da fábrica eleita;
6. Elaboração de proposta de intervenção e uso com planejamento da manutenção da fábrica;
7. Desenvolvimento do protótipo aplicado (aplicação da intervenção por fases).

Principal resultado esperado

Conseguir articular os vetores que caracterizam esse território em estratégias de desenvolvimento econômico e social. A paisagem histórica da produção pode esclarecer as dinâmicas territoriais nessas zonas rurais, favorecendo que se apresentem indicadores e tendências contributivos ao movimento AGENDA 2030, posto sobre as três dimensões do desenvolvimento sustentável: econômica, social e ambiental, para as quais se advoga que a compreensão, conhecimento e consequente valorização do patrimônio industrial é um vetor eficaz.

Outros Resultados esperados

1- O projeto constitui uma oportunidade de orientação de novos projetos interinstitucionais, bem como o compartilhamento de resultados advindos de pesquisa relacionando patrimônio industrial. Ainda, no que diz respeito à produção no PPGMSPC, contribuição com o projeto CAPES-Print "Alimento, cultura e identidade.
2- Há, ainda, a possibilidade de desenvolvimento de conteúdos específicos em disciplinas do pós-graduação que possam contar com a participação de pesquisadores de outras instituições. No contexto do PPGMSPC, o estudo sobre a indústria alimentar, em especial a da área rural, poderá ser desenvolvido sob diferentes objetos que virão a reforçar a inserção regional do Programa.
3- Como o estudo do patrimônio industrial se desenvolve atento tanto ao espaço rural como urbano, busca-se aspectos que caracterizam o território e a paisagem cultural na qual essas fábricas surgiram, o que imbrica os resultados com a economia cultural, turismo e sustentabilidade.
4- Portanto, tal como os resultados, já em curso, nas ações do Polo Morro Redondo (citado no item 1), entende-se que os avanços que se possam obter por meio deste e dos estudos decorrentes impliquem no surgimento de novos conteúdos dentro das linhas de pesquisa do PPGMSPC ou mesmo uma nova linha de pesquisa em patrimônio industrial.
5- Consolidação de um trabalho de colaboração continuado com a US, voltado à intensificação do ambiente acadêmico internacional do PPGMSPC, bem como de outros programas e cursos de graduação que participem do desenvolvimento de projetos conjuntos nos temas: sustentabilidade, desenvolvimento, identidade e cultura alimentar e que, sobretudo, possam destacar a paisagem da produção como o campo privilegiado de observação.
6- Organização de um grupo de estudo sobre Patrimônio Industrial e Territórios Sustentáveis com a elaboração de estratégias de pesquisa e extensão para atuar com os temas interdisciplinares vinculados à região da tradição doceira.
7- A partir do levantamento realizado nas visitas técnicas, identificar critérios para a elaboração de proposta de desenvolvimento de usos sustentáveis do Patrimônio Industrial alimentar relacionando às comunidades locais.
8- Aportar novos elementos à tradição doceira da região de Pelotas e Antiga Pelotas com a paisagem da produção.
9- Também em decorrência do trabalho de campo e das visitas, indicar procedimentos de aproximação dos municípios envolvidos com o projeto de modo a desenvolver a gestão integrada na perspectiva de formação de uma rede de colaboradores em trabalho interdisciplinar que envolva paisagem da produção.

Equipe do Projeto

NomeCH SemanalData inicialData final
ALCIDES GOMES NETO
AMANDA MENSCH ELTZ
CARLOS EDUARDO VETROMILLE BRITO
CLÁUDIA DA SILVA NOGUEIRA
DANIELLI SABOIA DA SILVA
Denise Prado Costa
EDWARD DUTRA DOS ANJOS
FLORA COELHO JEROZOLIMSKI
FRANCISCA FERREIRA MICHELON4
Giane Trovo Belmonte
JENNIFER PAOLA PISSO CONCHA
JOAO FERNANDO IGANSI NUNES1
JOSSANA PEIL COELHO
JOSSANA PEIL COELHO
JULIANA MOHR DOS SANTOS
LAIANA PEREIRA DA SILVEIRA
María Isabel Alba Dorado
RAYZA ROVEDA ATAIDES
SIDNEY GONÇALVES VIEIRA
UBIRAJARA BUDDIN CRUZ1
VANIA GRIM THIES
VICTOR DE SOUZA
Vicente Julián Sobrino Simal
WAGNER HALMENSCHLAGER

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