Nome do Projeto
Estudo longitudinal sobre saúde das pessoas idosas de Pelotas - COMO VAI? 2
Ênfase
Pesquisa
Data inicial - Data final
01/06/2026 - 31/05/2031
Unidade de Origem
Coordenador Atual
Área CNPq
Ciências da Saúde
Resumo
O envelhecimento populacional constitui um dos principais fenômenos demográficos contemporâneos, resultando em importantes transformações epidemiológicas, sociais e econômicas. No Brasil, o crescimento acelerado da população idosa tem sido acompanhado pelo aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, multimorbidade, incapacidade funcional, fragilidade e demanda por cuidados em saúde. Nesse contexto, estudos epidemiológicos de base populacional tornam-se fundamentais para compreender as condições de saúde dos idosos e subsidiar o planejamento de políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável. O presente estudo tem como objetivo iniciar uma nova coorte de base populacional com idosos residentes na zona urbana de Pelotas, Rio Grande do Sul, visando descrever condições de saúde, fatores de risco e características sociodemográficas, além de possibilitar futuros acompanhamentos longitudinais dessa população. Trata-se de estudo epidemiológico transversal, planejado como linha de base para constituição de uma coorte prospectiva. A população-alvo será composta por indivíduos com 60 anos ou mais, não institucionalizados, residentes na zona urbana do município de Pelotas/RS. O tamanho amostral estimado será de aproximadamente 1.457 idosos, considerando possíveis perdas e recusas. O processo de amostragem ocorrerá em múltiplos estágios, utilizando setores censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com seleção sistemática dos domicílios. A coleta de dados será realizada por entrevistadoras treinadas e padronizadas, utilizando questionários eletrônicos aplicados em tablets ou smartphones por meio da plataforma REDCap. Serão investigados aspectos sociodemográficos, econômicos, comportamentais, clínicos, nutricionais e funcionais. Entre os desfechos avaliados estão fragilidade, sarcopenia, estado nutricional, qualidade da dieta, atividade física, qualidade do sono, disfagia, saúde mental, capacidade intrínseca, multimorbidade, independência funcional, qualidade de vida e saúde bucal. A avaliação incluirá medidas antropométricas, testes físicos padronizados e instrumentos validados para população idosa, como WHOQOL-BREF, GDS-15, PHQ-9, MEEM, PSQI, IPAQ, SARC-F, SARC-CalF, EAT-10 e escalas de Katz e Lawton. Adicionalmente, medidas objetivas de atividade física e sono serão obtidas por meio de acelerômetros Actigraph GT3X+BT utilizados durante sete dias consecutivos. Os dados serão analisados no software Stata versão 17. Inicialmente, serão realizadas análises descritivas dos desfechos investigados. Posteriormente, serão conduzidas análises de associação por meio de regressão de Poisson com variância robusta, estimando razões de prevalência e respectivos intervalos de confiança de 95%. Espera-se que o estudo produza informações atualizadas e representativas sobre as condições de saúde da população idosa de Pelotas, contribuindo para o fortalecimento da vigilância epidemiológica do envelhecimento e subsidiando políticas públicas e estratégias de promoção da saúde, prevenção de agravos e organização do cuidado à população idosa.

Objetivo Geral

Iniciar nova coorte de base populacional de idosos residentes na zona urbana de Pelotas, RS, com o objetivo de descrever condições de saúde, fatores de risco e características sociodemográficas, e permitir o acompanhamento longitudinal futuro dessa população.

Justificativa

A transição demográfica, caracterizada pela redução das taxas de fecundidade e mortalidade e pelo aumento da expectativa de vida, tem resultado em um rápido envelhecimento populacional em escala global (Callaway et al., 2025). Estima-se que o número de pessoas com 60 anos ou mais aumente de aproximadamente 1 bilhão em 2020 para cerca de 2,1 bilhões em 2050. De forma semelhante, a população com 65 anos ou mais deverá ultrapassar 1,5 bilhão de indivíduos até meados do século (WHO, 2025). Esse processo ocorre em ritmo acelerado, especialmente em países de média renda, como o Brasil, refletindo mudanças estruturais nos perfis de morbimortalidade e impondo importantes desafios aos sistemas de saúde, como o aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, multimorbidade, incapacidade funcional e demanda por cuidados de longa duração (Brasil, 2007; Khan; Addo; Findlay, 2024; Karaflu; Goulis, 2025).
Nesse contexto, estudos epidemiológicos de base populacional desempenham papel fundamental na compreensão das condições de saúde, dos fatores associados ao envelhecimento e das desigualdades em saúde entre idosos. O estudo “COMO VAI? Estudo Longitudinal de Saúde do Idoso”, desenvolvido no município de Pelotas, RS, constitui uma importante iniciativa nesse campo, tendo iniciado em 2014 a partir de um inquérito transversal de base populacional com idosos não institucionalizados, seguido por diferentes ondas de acompanhamento ao longo do tempo. Esse estudo permitiu investigar múltiplas dimensões da saúde do idoso, incluindo aspectos nutricionais, funcionais, comportamentais e clínicos, contribuindo de forma significativa para a produção de conhecimento científico e para o planejamento de políticas públicas voltadas ao envelhecimento.
Entretanto, após mais de uma década de acompanhamento, observa-se um acúmulo progressivo de perdas na coorte original, principalmente em decorrência da mortalidade, fenômeno esperado em estudos com populações idosas. Esse processo resulta em uma população remanescente potencialmente mais saudável e seletiva, o que pode comprometer a representatividade em relação à população idosa atual (Hernán et al., 2004). Além disso, mudanças demográficas, epidemiológicas e sociais ocorridas nos últimos anos, incluindo os impactos diretos e indiretos da pandemia de COVID-19, podem ter modificado substancialmente o perfil de saúde dessa população idosa (Lima-Costa et al., 2023).
Diante desse cenário, torna-se necessária a realização de um novo estudo de base populacional, independente da coorte original, que permita descrever o perfil atual da população idosa residente na zona urbana de Pelotas e estabelecer uma nova linha de base para futuros acompanhamentos longitudinais. Diferentemente de estratégias de reposição amostral, este estudo não tem como objetivo substituir perdas da coorte anterior, mas sim constituir uma nova amostra representativa da população idosa, possibilitando tanto análises transversais quanto a formação de uma nova coorte para investigações prospectivas.
Assim, a presente proposta ampliar o conhecimento sobre as condições de saúde, os fatores de risco e os determinantes do envelhecimento em um contexto atual, contribuindo para o fortalecimento de políticas públicas e ações em saúde voltadas à população idosa.

Metodologia

Delineamento
Trata-se de estudo epidemiológico de base populacional, com delineamento transversal, planejado como linha de base para a constituição de uma coorte prospectiva de idosos residentes na zona urbana do município de Pelotas, Rio Grande do Sul.
População em estudo
A população alvo será constituída de idosos, com idade de 60 anos ou mais, não-institucionalizados, residentes na zona urbana do município de Pelotas/RS.
Critério de inclusão
● Indivíduos com 60 anos ou mais de idade;
● Residentes na zona urbana do município de Pelotas/RS;
● Para os idosos com alguma limitação física ou mental, que os incapacitem de responder ao questionário, sua inclusão se dará a partir do relato do seu responsável.
Critério de exclusão
● Incapacidade mental ou física para responder ao questionário e indisponibilidade de cuidador responsável para fornecer as respostas.
● Idosos institucionalizados (em instituições de longa permanência para idosos, hospitais e presídios).
Tamanho amostral
O cálculo do tamanho amostral foi baseado na estimativa de prevalência de diferentes desfechos de interesse, considerando 50% e um limite de erro de 4 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O processo de amostragem seguiu preceitos similares àqueles aplicados em 2014.
Sobre o tamanho de amostra calculado, foi aplicada uma inflação de amostra de 21% considerando possíveis perdas e recusas. Considerando que existem, em média, 0,51 idosos por domicílio, foi estimado o número de domicílios e setores censitários necessários para realização de uma nova amostragem (considerando a inclusão de 31 domicílios por setor censitário, conforme feito em 2014).
A partir desses parâmetros, estimou-se a necessidade de aproximadamente 1204 indivíduos. Após o acréscimo de 21% para perdas e recusas, o tamanho final da amostra será de aproximadamente 1.457 idosos.
Amostragem
O processo de amostragem será realizado em múltiplos estágios, utilizando como unidades primárias de amostragem os setores censitários definidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base nos dados do Censo Demográfico de 2022 (IBGE, 2022).
Inicialmente, os 619 setores censitários da zona urbana de Pelotas foram listados, sendo consideradas informações como bairro, renda média do setor, número de domicílios ocupados, número total de moradores e número total de idosos. Setores com 14 idosos ou menos foram agrupados em setores censitários adjacentes, pertencentes ao mesmo bairro e com renda média semelhante, a fim de garantir maior estabilidade amostral e viabilidade operacional.
Após esse agrupamento, os setores censitários foram ordenados em ordem crescente de renda média, com o objetivo de assegurar a representatividade de diferentes estratos socioeconômicos. Com base no número de domicílios ocupados em cada setor, foi construída uma listagem acumulada dos domicílios, atribuindo-se a cada setor um intervalo correspondente ao número de domicílios.
Considerando o total de 124.280 domicílios ocupados na zona urbana e o número de setores a serem incluídos na amostra (n=92), foi definido um pulo sistemático de 1.351 domicílios. A partir de um número aleatório inicial, foram definidos a largada e os setores censitários a serem selecionados, por meio de amostragem sistemática com probabilidade proporcional ao tamanho.
Na segunda etapa, dentro de cada setor censitário selecionado, os domicílios serão identificados por meio de mapeamento prévio e identificação de domicílios habitados no setor. Todos os indivíduos com 60 anos ou mais residentes nos domicílios selecionados sistematicamente serão considerados elegíveis para participação.
Instrumentos
Serão aplicadas questões sobre os seguintes temas, conforme instrumento apresentado no Apêndice 1. O instrumento foi organizado segundo o mapa de questões apresentado no Apêndice 2.
Características sociodemográficas e econômicas
Serão coletadas informações sobre sexo, idade, escolaridade, estado civil, composição familiar e condições socioeconômicas. A classificação socioeconômica será realizada com base no critério da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP 2026), além de informações sobre renda familiar mensal.
Comportamentos de saúde
Serão investigados comportamentos relacionados à saúde, incluindo tabagismo (questões específicas sobre consumo atual e passado), consumo de álcool (frequência e quantidade).
Qualidade de vida
A qualidade de vida será avaliada por meio do instrumento WHOQOL-BREF (Fleck, et al., 2000), validado para a população brasileira, contemplando os domínios físico, psicológico, social e ambiental.
Condições de saúde e morbidades
Serão investigadas morbidades autorreferidas por meio de um conjunto de questões padronizadas que incluem doenças crônicas diagnosticadas previamente, bem como sintomas e condições clínicas.
Adicionalmente, serão coletadas informações sobre internações no último ano, número de episódios e motivos, bem como a utilização de serviços de saúde.
Vacinação
Os idosos serão questionados quanto ao recebimento da vacina contra gripe e da vacina contra covid no último ano, bem como sobre diagnóstico prévio de covid.
Função física, desempenho e fragilidade
A avaliação da função física será realizada por meio de testes padronizados, incluindo:
• força muscular por dinamometria manual;
• velocidade de marcha (teste de caminhada de 4 metros) (Abellan et al. 2009);
• Timed Up and Go Test (TUG) (teste de caminhada de 3 metros) (Podsiadlo et al., 1991);
• teste de sentar e levantar da cadeira (Bohannon et al., 2006).
• A fragilidade será avaliada com base no fenótipo de Fried (Fried et al., 2001), considerando critérios como perda de peso, exaustão, fraqueza, lentidão e baixa atividade física.
Atividade física
A atividade física será avaliada por meio da versão longa do International Physical Activity Questionnaire (IPAQ) (Craig et al., 2003), considerando questões sobre a frequência e duração da prática de caminhada e de atividades físicas de intensidade moderada e vigorosa.
Adicionalmente serão obtidas medidas objetivas de atividade física e sono.
Para tal, serão utilizados acelerômetros (Actigraph, modelo GT3X+BT), dispositivos que mensuram a aceleração dos movimentos corporais, permitindo a estimativa da atividade física e dos padrões de sono.
Os aparelhos serão colocados nos participantes no dia da entrevista, no punho não dominante, em posição semelhante à de um relógio de pulso. Os participantes serão orientados a utilizar o dispositivo de forma contínua por um período sete dias, inclusive durante o sono e atividades diárias, uma vez que o equipamento é resistente à água.
Caso o número de acelerômetros disponíveis seja menor que o volume de entrevistas, a colocação dos equipamentos será feita posteriormente por um auxiliar de pesquisa. Nesses casos os idosos serão comunicados durante a entrevista sobre um novo contato para a colocação.
Após período de uso, será realizada a retirada do aparelho por um auxiliar de pesquisa no domicílio do idoso (ou outro lugar previamente combinado), de acordo com o turno pactuado no momento da colocação.
Indivíduos cadeirantes, acamados, que exerçam atividades incompatíveis com o uso do dispositivo ou que não residam no município não participarão dessa etapa.
Estado nutricional
O estado nutricional será avaliado por meio de medidas antropométricas, incluindo peso corporal, medida da altura através da altura da perna, circunferência da cintura e circunferência da panturrilha conforme orientações do SISVAN, 2004 e WHO, 1995.
Além disso, será aplicado instrumento de triagem de risco nutricional (MAN/GLIM) (Vellas, et al., 2006), permitindo a identificação de risco ou presença de desnutrição.
Consumo e insegurança alimentar
O consumo alimentar será avaliado por meio de questionário de frequência alimentar e questões específicas sobre consumo de grupos alimentares.
A insegurança alimentar será investigada utilizando a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA – versão curta) (Santos et al., 2014).
Orientações para hábitos de saúde
Os idosos serão questionados se, desde o período de referência estabelecido no questionário até o momento da entrevista, algum profissional de saúde os orientou a controlar o peso, consumir pouco sal, diminuir o consumo de açúcar e doces, diminuir o consumo de gorduras, praticar exercícios físicos, não fumar e não consumir bebidas alcoólicas.
Quedas e fraturas
Serão coletadas informações sobre ocorrência de quedas no último ano, número de episódios e ocorrência de fraturas.
Disfagia
A disfagia será investigada por meio do instrumento EAT-10 (Gonçalves et al., 2013), composto por 10 perguntas que avaliam sintomas e dificuldades relacionadas à deglutição.
Independência funcional
A independência funcional será avaliada por meio das escalas de Atividades Básicas da Vida Diária (Katz et al., 1970) e Atividades Instrumentais da Vida Diária (Lawton, 1969), permitindo classificar o grau de autonomia dos idosos.
Função muscular e sarcopenia
A sarcopenia será investigada por meio dos instrumentos SARC-F (Malmstrom; Morley, 2013) e SARC-CalF (Barbosa-Silva et al., 2016), que avaliam força, mobilidade e desempenho físico, recentemente traduzido para o português.
Saúde mental e cognitiva
Os sintomas depressivos serão avaliados por meio da Escala de Depressão Geriátrica (GDS-15) (Yesavage; Sheikh, 1986; Almeida; Almeida, 1999) e do Patient Health Questionnaire (PHQ-9) (Santos et al., 2013).
O estado cognitivo será avaliado pelo Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) (Folstein; Folstein, 1975).
Qualidade do sono
A qualidade do sono será avaliada por meio do Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh (PSQI) (Bertolazi et al., 2011) validado para a população brasileira.
Medicamentos
Serão coletadas informações sobre uso de medicamentos, incluindo número de fármacos, tipo e uso contínuo, permitindo avaliar polifarmácia.
Capacidade intrínseca
A capacidade intrínseca será avaliada com base na estratégia ICOPE.

Indicadores, Metas e Resultados

● A população idosa residente na zona urbana de Pelotas apresentará elevada ocorrência de condições adversas de saúde, incluindo multimorbidade, fragilidade, incapacidade funcional e baixa qualidade de vida;
● Os desfechos de saúde e fatores de risco serão mais frequentes entre idosos de maior idade, menor escolaridade e menor nível socioeconômico;
● Fatores sociodemográficos, comportamentais, nutricionais e clínicos estarão associados aos principais desfechos de saúde investigados;
● Os indicadores observados na nova amostra diferirão daqueles verificados no estudo iniciado em 2014 (COMO VAI?), com aumento na prevalência de multimorbidade, uso de medicamentos, inatividade física, pior qualidade da dieta e outros indicadores relacionados às doenças crônicas e ao envelhecimento.

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